A Árvore avó da Floresta {Samaúma Vovózona}

Casinhas de Palha no povoado dentro da Reserva Nacional do Tapajós

Saímos para o local onde pegaríamos o ônibus de Santarém para a comunidade de Maguari, em Belterra. No dia seguinte será a trilha com o guia para conhecer a árvore gigante da Samaúma. Hoje enquanto não anoitecia visitamos a fábrica da borracha. Aqui é uma comunidade extrativista dentro da reserva FLONA do Tapajós, então muitos moradores extraem a borracha. É necessário pagar uma taxa de R$6 por pessoa para ingressar na reserva. Depois tivemos o custo com o guia R$50 por grupo, mas como estávamos sozinhos no local, não tivemos com quem dividir o valor. Mesmo assim, seria uma trilha de 6h ou mais de duração, então consideramos o valor justo, e até baixo para o guia.

No galpãozinho rústido da fábrica de látex desenvolvem sandálias de borracha, brinquedos e bolsas artesanais. Na frente há uma casinha onde fizeram uma lojinha dos trabalhos dos artesãos da comunidade, além dos produtos da borracha há colares e pulseiras feitos com sementes da região pelos próprios moradores.

Que tal um corte de cabelo em um salão de beleza todo cheio de estilo no meio da floresta amazônica? Só que não!

Chegamos cedo na comunidade, e logo fomos direcionados a casa do Seu Joaquim e da dona Maria. De início queriam que ficássemos dentro da hospedagem familiar, mas não tínhamos dinheiro pra isso. Explicamos que viajamos de bicicleta e que preferiríamos acampar no quintal, mas que poderíamos pagar uma contribuição pelo uso do quintal, chuveiro e banheiro. Seu Joaquim não quis ceder no preço, queria cobrar o mesmo valor da hospedaria. Mas depois que dona Maria se aproximou, o homem amoleceu e nos cobrou R$10 o pernoite. Tivemos o resto da tarde livre, e eles mesmos se encarregaram de avisar algum guia da comunidade para nos levar até a Vovó na manhã seguinte.

Crianças e a bicicleta, o melhor meio de transporte depois dos próprios pés!

Visitamos uma fábrica de látex artesanal dentro da própria área da reserva. As sandálias ainda estavam secando.

Produtos do Látex e da fabricação artesanal dos próprios extratores de látex. Produtos muito originais e interessantes.

Linha de fabricação de bolsinhas de pescoço.

Nosso guia até o encontro da Samaúma, explicando sobre os Jatobás.

Começamos a trilha as 8h da manhã, mesmo tendo combinado com o guia as 7h, para evitar a hora de sol muito forte na volta. Mas tudo bem, seguimos com sorte, o dia ficou nublado e a temperatura agradável. Numa das paradas de descanso, o guia disse que iria buscar um lanche pra gente. Foi-se, e em 5 minutos retornou com 5 grandes mamões para nosso lanche, e nós lhe oferecemos algumas paçocas de amendoim. O guia foi sempre muito gentil, e nos contou diversas histórias da floresta, nos explicou sobre diversas plantas e árvores, e nos esclareceu muitas dúvidas. Ele estava sempre acompanhado de um aprendiz, um rapaz mais novo que ainda está aprendendo o nobre trabalho. Nos explicou sobre a extração da seiva de diversas árvores, seus usos e aplicações. Na metade do trajeto, o guia parou de súbito, era uma cobra que cruzava a trilha, e era venenosa. Como ainda estávamos muito próximos às roças da comunidade, provavelmente esta criatura estava perdida em virtude de algumas queimadas controladas que aconteciam nas proximidades. Mesmo assim a pobre criatura foi sacrificada.

Não há lugar mais cheio de borboletas que a Amazônia!

Finalmente começamos a encontrar árvores gigantes, primeiro foi a Samaúma filhona, depois a mãezona, e por fim, a vovózona. Todas estão bem próximas, e o tamanho vai aumentando conforme a proximidade com a vovó. Ficamos muito felizes e estarrecidos ao encontrar com esta gigante da floresta. Foi um prazer enorme conhecê-la, há tempos queríamos ter um encontro com um ser tão imenso e imponente. A magnitude desta árvore nos lembra o poder da natureza, e foi uma alegria imensa visitar esta avó amazônica. Dizem que tem mais de 900 anos, outras fontes dizem que já passa dos mil anos, outros ainda dizem que tem apenas 300 anos. Seja como for, a idade que tiver, este paredão rumo ao céu sem dúvida é algo que nos marcou, e deu um valor ainda maior a nossa visita a maior floresta do mundo!

Grande êxtase ao encontro da Avó da Floresta! Samaúma, uma gigante, uma maravilhosa obra da natureza.

Retornando da trilha armamos novamente equipamento no quintal do seu Joaquim. Acertamos os preços com ele e nos preparamos para acordar bem cedo, pois o ônibus de volta para Santarém só passa uma vez por dia, e entre 4h e 5h da manhã. O final de tarde foi curtindo o Pôr-do-sol numa das praias nas margens do Tapajós, e nos distraindo com os netos do seu Joaquim e as crianças da vizinhança, que tinham uma curiosidade imensa com a barraca e nossas parafernálias de cozinha. De madrugadinha o ônibus nos tirou deste pedacinho paradisíaco e nos levou de volta para o caos e a confusão da cidade grande. Era hora de nos despedirmos também de Dona Júlia e Jone, uma despedida difícil depois de tantos dias de convivência tão amorosa com esta família querida.

Momento triste de despedida de uma família querida! Dona Julia foi uma mãe emprestada com muito carinho, e Jone um irmão! Queridos, sem palavras pra agradecer tudo que fizeram por nós, toda a acolhida e atenção, as conversas e os momentos, não vamos nunca esquecer!

Pela manhã seguimos nosso rumo, desta vez sem barcos. Vamos por terra rumo a Belém. Vamos enfrentar a tão famosa Transamazônica por alguns bons dias. Poeira e lama nos aguardam!

Manaus-Santarém-Alter do Chão

Porto de Manaus, perto do Mercado Municipal, partiu Santarém!

Em Manaus embarcamos novamente, seguindo agora o Rio Amazonas. A viagem foi de longe muito mais tranquila que a viagem de barco de Porto Velho pra cá. Muito mais espaço e nada de bar com caixas de som gigantescas. Foi fácil descansar e dormir boa parte do tempo. Ainda conseguimos comprar uns açaís frescos quando o barco parava em algum povoado. Neste barco não eram servidas refeições, mais foi fácil se virar com os açaís frescos e um pouco de farinha de mandioca.

Vendedores de quentinha em uma das paradas do Trajeto Manaus-Santarém

Rio Negro e Solimões no encontro das águas.

Em Satarém chegamos no final da tarde, já havíamos feito contato prévio com a família da Ju, uma amiga pedalante que só conhecemos do mundo virtual, e ela acionou seu irmão e sua mãe para nos receber na cidade. Não bastasse a hospitalidade, fomos ainda apresentados a outra família, a Lobos MTB, que nos abraçou como velhos amigos. Lá na Oficibike do Pião fomos convidados pra um delicioso almoço e provamos pela primeira vez o feijão verde, que delícia. Enquanto estávamos distraídos com as delícias culinárias do Pião e de sua esposa, o mesmo levou nossas bicicletas lá pra frente, na oficina, sem nos darmos conta. Quanto menos esperamos, lá estavam as magrelas com cabos de marcha e freios trocados e tinindo! Prontos pro longo pedal que nos aguardaria na Transamazônica. Valeu galera, foi lindo demais essa acolhida! Dormimos uma noite na casa de Dona Julia, mãe da Juliane e do Jone, e no dia seguinte, Jone e Italo nos deram uma carona até Alter do Chão, com as bikes e tudo. Disseram que era muito perigosa a estrada e não nos deixaram pedalar pra lá. No povoado, chegamos e fomos acolhidos por um outro casal querido demais, Marcão e Laís, ele também da família Lobos MTB. Este pessoal todo já recebeu também outros amigos pedalantes, que fizeram esta conexão de hospitalidade para nós. Somos muito gratos ao Kiko Zaninetti (www.novaorigem.com.br) por esta ponte! E a Juliane Oliveira, por mesmo sem nos conhecer, apresentar sua mãe e irmão, que foram nossa família nestes dias em Santarém. Quantas pessoas de coração imenso, não temos palavras!!!

Chegada calorosa em Santarém, com os amigos do Lobos MTB e Oficibike do Pião. Valeu Doni, Jone, Pião pela atenção e carinho conosco!

Internet livre e energia grátis na Praça de Alter do Chão.Primeiro mundo!

Em Alter do Chão aproveitamos para curtir o paraíso que é este lugar, indo muito às praias de água cristalina e areia branca, curtindo a sombra dos cajueiros, e relaxando bastante.

Vida boa debaixo dos cajueiros, na praia de Alter do Chão. Ao fundo Rio Tapajós.

Batismo no Rio Tapajós ao entardecer, dizem que quem se banha nessas águas não quer mais ir embora. E realmente foi difícil…água quentinha e cristalina.

Ilha em Alter do Chão

Turistas atravessando o canal entre a Ilha e o povoado.

Atravessando para a ilha, experimentando se a água tava mesmo boa…

Quiosques na Ilha de Alter do Chão

A imagem fala por si. Não sabia que motorista podia tirar a carteira sem saber ler, sem entender placas de trânsito. Expedição Ford sem nenhum respeito pela área de proteção ambiental.

Na varanda da casa de Laís e Marcos, os passarinhos vinham a toda hora beliscar as frutas que deixávamos sobre a mesa. Foi então que armamos uma armadilha fotográfica pra eles, colocamos a isca, e preparamos a câmera. Quando eles se aproximavam, clap! A variedade de aves é encantadora por aqui!

Vizinhos um pouco malandros, que vinham comer nossas frutas na varanda.Canarinho.

Vizinhos um pouco malandros, que vinham comer nossas frutas na varanda. Bem te Vi.

Vizinhos um pouco malandros, que vinham comer nossas frutas na varanda.


Marcão e Laís, gratidão imensa pela hospitalidade e companhia, dicas e tudo o mais neste paraíso que é o lugar onde vocês vivem. Que assim permaneça! Abraços e saudades!

Despedida do Rio Tapajós, já dá saudades. Difícil seguir…

As bikes queriam ficar, olhando para o “mar” Tapajós!

Depois de uma semana em Alter, conhecendo todos os recantos e cantos encantadores do lugar, partimos em retorno para Santarém pedalando. Mas fomos atrapados pelo Camping Agroecológico na saída do povoado. Como era baratinho e queríamos experimentar como seria acampar na selva, sem precisar abrir mato a facão, e também aproveitando pra aprender um pouco sobre os processos de permacultura do lugar, ficamos por ali mais duas noites. Vimos como eles trabalham com o banheiro seco, e com a reutilização da urina humana para adubação de algumas plantas.

No caminho para Santarém, encontramos um pedaço de paraíso amazônico, um camping ecológico delicioso, uns dias de mato depois de vários dias de praia de rio, não fazem mal a ninguém.


Acordar com estas sombras e esta luz batendo na casinha de pano não tem preço! Amazônia!

Igarapé de águas geladas no camping, tinha que segurar na corda pra correnteza não levar embora. Delícia de banho revigorante!

Depois de alguns dias no paraíso, voltamos à civilização. Logo na entrada de Santarém demos de cara com um conjunto habitacional que ia até o infinito com telhadinhos iguais. Casinhas amontoadas no calor paraense sem chance para uma sombra de árvore. Devem estar mesmo todos loucos!


Bizarrices da urbanidade, voltando à civilização: Santarém e um novo bairro que surge.

De volta a Santarém, de volta à casa de Dona Julia, nos preparamos para ir conhecer a árvore gigante, a Samaúma Vovózona, que mora dentro da Floresta Nacional do Tapajós, ao sul de Santarém. Como os diagnósticos da estrada não estavam favoráveis para bicicleta, e há um ônibus de linha toda manhã a preço acessível, nos programamos para ir até lá e conhecer este ser centenário. Como foi este encontro contaremos no próximo post.

Porto Velho a Manaus {4 dias e 3 noites no Barco}

A viagem começou assim que chegamos a Porto Velho. Nem tivemos tempo de conhecer melhor a cidade. O barco estava para sair, e ainda haviam vagas. Mas teríamos pouco tempo para nos organizar. Comprar as redes onde iríamos dormir nestas 3 noites de viagem, providenciar os alimentos para os 4 dias de navegação, comprar uma marmita pra nosso almoço e sacar algum dinheiro pra comprar a passagem. Como não teríamos tempo hábil pra tudo isso em menos de uma hora, o pessoal do escritório de venda de passagens nos ofereceu uma gentil carona de carro, para ir atrás de tudo isso.

Lendo o livro que ganhamos de presente do amigo José, de Assis Brasil.

Quando chegamos no barco, o pessoal foi muito bacana nos ajudando a subir as bicicletas no terceiro andar, através de cordas e músculos. Chegando na área das redes, constatamos que o que diziam “Haver vagas” nada mais era do que uma expressão para designar que ainda poderiam espremer mais um cidadão ali no meio. Ficamos com um espaço terrível bem de lado para a mesa onde serviriam as refeições a todos. Mas ingênuos que fomos! Foi só servirem a primeira janta que percebemos porque ninguém ainda havia armado a rede por ali. A pressa para comer fez com que as pessoas da fila nos acotovelassem, pisassem nas nossas bagagens, nos sufocando naquele espaço minúsculo. Era insustentável ficar por ali. Decidimos então mudar de estratégia. Por um lado, foi bom, mas por outro…

Pegamos nossas coisas e fomos armar nossa rede no último andar. Incrivelmente, estava vazio. Soubemos que era porque ali ficava o bar e ligavam música a maior parte do tempo. Mas ao menos não seríamos soterrados 3 vezes por dia, que era quando serviam as refeições. Mesmo com som, decidimos encarar. Seria mais ventilado e mais espaçoso.


Mineração no Rio Madeira

No início a viagem foi ok. Toda aquela pressa para pegar o barco foi inútil. Esperamos parados no porto mais de 3h até começar a navegar. Logo que começou a girar os motores, a música no bar começou. Era tão alta, mas tão alta, que não chegávamos nem a decifrar o que estavam cantando. Os primeiros bêbados começaram a dar seus sinais de chatice pouco depois da meia noite. Um deles teve até uma experiência mística em alto volume, estava vendo seu pai, e só gritava isso. Resumindo, só fomos conseguir pegar no sono lá pelas 2h da manhã. Mas, as 6h o bar abriu, e já com música alta rolando… Por aí você já pode ter uma idéia do que foi todo o resto da viagem.


Ribeirinhos, param para ver o barco passar, atração que só acontece duas vezes por semana.

Se pudéssemos fechar os ouvidos da mesma maneira que conseguimos fechar olhos e boca, a viagem teria sido perfeita. Por sorte ainda podemos contar com outros sentidos para experimentar sensações na vida. Acho que se dependesse somente dos ouvidos, eu não teria sido feliz nesta viagem. Então sou feliz por poder ver, ver toda essa beleza natural ao nosso redor. Foi muito emocionante navegar no Rio Madeira, ver de longe os ribeirinhos vindo para a beira abanar ou simplesmente nos olhar de volta, ver os mineiros descansando nas suas casas flutuantes, ver os botos cor de rosa (que não conseguimos fotografar, humpf!), ver nascer do sol seguido do por do sol, um mais lindo que o outro…Isso sim vez a viagem valer a pena, e superar todo o nervosismo causado por músicas chatas em looping e em volume de estourar tímpanos. Ah se valeu!


Um pouco de descanso para as pernas. Mas nenhum sossego para os ouvidos.

Também foi muito bom ter tempo de pernas pro ar, balançando na rede. Pudemos atualizar nossas leituras, descansar as pernas. Nosso ritmo desde que deixamos Rio Branco foi pedal forte, madrugar, ir até o final da tarde, fazer distância, pois sabíamos que viriam muitos dias de navegação pela frente.


Assim que o sol nasce todos os dias da viagem, deslumbrante! Ao fundo, a delicada faixa de floresta amazônica. Já estamos no estado do Amazonas.


Os mais bonitos finais de tarde da viagem foram a bordo do barco Porto Velho-Manaus.


Sem ter muito o que fazer, crianças tem que inventar alguma traquinagem.

Fizemos alguns amigos no barco, em meio a tanta cerveja, e por estarmos colados ao bar, o pessoal perdia a inibição e vinha conversar conosco. Mas em geral, a maior parte do tempo ficávamos lendo, já que não conseguíamos mesmo dormir. Um dia pegamos uma tempestade, e as lonas de proteção da chuva não deram conta frente ao vento. O barco chacoalhava bastante e lá se foram as cordas rasgadas. Nossas coisas molharam bastante, já que não tivemos tempo suficiente para guardá-las. A nuvem negra simplesmente desabou, ninguém viu de onde ela veio. Foi bom pra quebrar a monotonia. Muita gente aproveitou pra tomar banho de chuva, que caia como aos baldes, já que o chuveiro do banheiro do barco utiliza água diretamente do rio Madeira, escura, e o cheiro lá dentro não é nada amistoso. É, foi uma boa tomar banho de chuva mesmo.


Águas cor de chocolate do Rio Madeira.

No último dia, quase chegando ao porto de Manaus, um senhor arrumou encrenca com a esposa. Ambos vinham bebendo a tarde inteira, e pra nos encher o saco, colocaram a caixa de som bem em nossa direção e pediram a moça do bar pra aumentar o volume. Quando o cara deu uma vacilada, André foi lá virar a caixa pro lugar outra vez. O cara se enfureceu e André disse “Se quer ouvir alto, senta lá com o ouvido colado na caixa de som, não vira essa merd@ pro meu lado não!”. Aí o cara já bêbado, não falando coisa com coisa, protestou e virou a caixa outra vez. Desistimos de argumentar com bebum e fomos pra ponta do barco, onde o vento levava pra trás o som. Mas o dono do barco sempre vinha expulsar quem ficava por ali, porque dizia que atrapalhava o capitão o barulho de passos. E essa caixa de som absurda, atrapalhando até pensamento, aliás devia estar até matando alguns neurônios! Voltando pras redes, presenciamos o tal senhor bêbado batendo na sua mulher, em frente a sua filhinha. Muita gente subiu pra ver o barraco, nós ficamos ali nas nossas redes mesmo, mas outras pessoas tentaram apartar a briga, levaram tapas. Uma hora o bebum quase veio cair em cima de nós, mas alguém empurrou ele a tempo. Aí se seguiu uma ameaça de morte atrás da outra. Mas ninguém com coragem de cumprir. Foi então que o barco atracou no porto e todo mundo ficou ocupado com suas bagagens, sem dar mais nenhum ibope pro fiasco.


Ainda bem que tem boia salva-vidas


Futebol com bola de latinha de cerveja. Só as crianças não caem no tédio dos 4 dias de viagem de barco.

Chegamos em Manaus no final da tarde. Ficamos em dúvida quanto a pernoitar no barco ou contactar nosso anfitrião do Warmshowers. A região portuária parecia um pouco barra pesada, e o barco ali não oferecia nenhuma segurança. Achamos melhor tentar um contato com o Nicolas. Ao que ele respondeu e prontamente veio nos buscar. Levamos as bicicletas no topo do carro até a sua casa. Foi um grande alívio ter conseguido contato com o Nico. Não dormiríamos nem um pouco sossegados por ali. Todos diziam para ter muito cuidado com furtos nesta travessia, pois as bagagens ficam somente no chão, sem nenhum tipo de armário para fechá-las a chave. Assim, por estarmos em dois, sempre que um saía para refeições, banheiro ou uma caminhadinha pelo convés, o outro ficava com as mochilas. Mas durante a noite, não havia muito o que fazer.


Chegando em Manaus, a nova ponte e as embarcações em um dos portos.

Em Manaus festejamos o aniversário do André, que caiu no domingo. Nico e Lili nos levaram conhecer o centro comercial da cidade, passamos pelo teatro mas estava fechado, e visitamos as feirinhas de rua onde pudemos provar a famosa bebida “Guaraná da Amazônia”, a qual consideramos o “bolo de aniversário” de André. Uma bebida deliciosa, que mistura uma montanha de ingredientes energéticos. Dá água na boca só de lembrar…


Praias urbanas de Manaus no final de semana.

Conhecemos também alguns bairros, e uma das mais famosas praias urbanas da cidade, mesmo com dia nublado, estava cheia e movimentada.


André no Teatro de Manaus


Interior luxuoso deste famoso Teatro.

Como teríamos mais dois dias de barco até Santarém, e esperávamos conhecer Alter do Chão também, isso significaria muitos dias parados, fazendo as pernas amolecerem. Então não fomos a nenhum passeio mais turístico em Manaus, e ficamos poucos dias na capital amazonense. Até porque descobrimos que os passeios são bem caros para apenas um dia de diversão. Mas ficamos com aquela vontade enorme de conhecer as gigantes samaúmas. Também não fomos a nenhuma tribo indígena, nem nadar com os botos. Já fico contente que as tribos estejam lá sossegados, e os botos idem. Então no próximo barco mais barato pra Santarém, embarcamos.

Grande agradecimento ao Nico, pela incrível recepção que nos deu em Manaus, nos resgatando no confuso porto onde desembarcamos e nos mostrando sua nova cidade.

Muito gratos a Lili, esposa do Nico, por sua simpatia de sempre e acolhida em sua casa.

Um grande abraço pra Nicolas e Lili, sejam felizes na nova morada amazônica! Obrigado por todas as dicas de filmes e troca de informações desse mundo da bike e boas pedaladas!

Acre-Rondônia

Seringueiras no Parque Capitão Ciríaco, em pleno centro de Rio Branco

Saímos de Capixaba bem cedinho pela manhã, fazendo a Ana Paula e o Estevão pular da cama e bater nossa tradicional foto de despedida. Todos prontos para ir ao trabalho! Lá vem mais estrada, teríamos uns bons 70km até a capital acreana. Por azar, nossa lembrancinha aos que nos ajudam pelo caminho haviam acabado, então saímos meio assim de mãos abanando, mas com a certeza de que levaríamos conosco novos amigos.

Assim foi o Acre do começo ao fim, amizades que levaremos pra sempre! Foi por conta de um amigão querido lá de Floripa que encontramos um porto seguro pra descansar dos dias de pedal intenso pelo calor amazônico. Calor que não está só por conta do clima, mas pela sua gente.

E não é que chegamos em Rio Branco e nosso amigo terceirizado nem sabia quem éramos e porque raios estávamos enviando mensagem a ele pedindo ajuda? Só sabia que éramos amigos de um amigo dele. Só! É que pensamos que nosso amigo em comum havia introduzido a história ao passar o contato de seu amigo acreano para nós. Mas de fato isso não aconteceu. No entanto, quando o coração é grande, a solidariedade é imensa, daquela que não tem medida mesmo.

Assim que chegamos nos arredores de Rio Branco e com sinal de wifi do Parque Chico Mendes, com a senha gentilmente cedida pelo pessoal de lá, conseguimos enviar mensagem pro nosso amigo do amigo, o diálogo digital foi mais ou menos assim: “Chegamos em Rio Branco, tem como dar uma força pra gente?”. Pensando que o rapaz já sabia que chegaríamos de bike e precisaríamos de um lugar pra esticar os isolantes e guardar as bikes. Aí a resposta “Posso ajudá-los sim, mas me digam como.” Pensamos, “Ué?! Será que ele não recebeu mensagem nenhuma?” Aí foi “Chegamos de bicicleta, estamos de viagem, Dudu não falou nada? Teria um espacinho pra uma barraca e duas bikes no seu quintal? Ou conhece algum camping na cidade?”

Bom, o que se segue é a demonstração da mais gente-finisse, se é que essa palavra existe. Mas como se trata de um cara poeta, acho que ele nos permitirá uma expressão assim inventada e possivelmente inexistente pra descrever o que ele fez por nós. Veio até o parque onde estávamos e nos guiou até sua casa, em meio ao intenso, porém nada desrespeitoso trânsito de Rio Branco. Cidade que desde o começo nos impressionou pelas ciclovias e pelas estruturas de parques arborizados. No caminho passamos conhecer o Parque Capitão Ciríaco, bem no meio da cidade, onde vimos pela primeira vez a seringueira e o látex amazônico. A partir do primeiro contato com o poeta, toda experiência que vivemos nestes dias foram muito bons. Quando a energia de uma pessoa nos contagia, tudo fica mais bonito.

Me deliciando com as publicações na Biblioteca Pública de Rio Branco, enquanto André acessava a internet. Tive até a companhia de uma amiguinha de fita adesiva.

Tivemos então a alegre companhia de Félix César, sim este grande feliz amigo, que está no nosso coração! Aprendemos tanto contigo amigo, não temos palavras suficientes pra agradecer tudo que fizeste por nós, portanto, vamos deixar as palavras sobrar pras tuas poesias, aquela que nos deste e que vai virar um quadro um dia lá em casa:

“Quando menos nos vestimos da gente, mais precisamos de roupa” (Félix César)

César nos guiou pela cidade, mostrando com orgulho cada cantinho da capital acreana. Mas o cantinho que vimos o brilho no olho do amigo foi mesmo a Biblioteca Pública. E não é pra menos. Se eu fosse acreana, teria um imenso orgulho de contar com tal estrutura facilitadora, inclusiva, convidativa, fascinante e instigante. Mas como Acre é Brasil, embora muitos tripudiem, posso ter orgulho da biblioteca de Rio Branco também. Eram tantos e tão bons livros que consegui mapear com o olhar nos primeiros passos dentro da biblioteca, que fiquei imaginando quanto não tem então de escondido, guardadinho, organizado em prateleiras no fundo de tantos corredores. Realmente foi a melhor experiência dentro de uma biblioteca que tive até hoje, uma vontade de acampar por ali, pernoitar nos pufes, e passar o dia a ler de tudo, tantas publicações maravilhosas, até uma sessão inteirinha de HQ’s. E se não bastasse o acesso a cultura escrita, há também sessões de cinema gratuitos em uma pequena sala de cinema, mas com toda qualidade e conforto. O mais lindo de tudo, foi ver aquele movimento, aquela multidão andando pelos corredores, muitos apenas parados contemplando um livro, alguns de passagem, mas sempre cheia. Biblioteca pública, no centro comercial da cidade, cheia de gente?! É!

Caldo de Tucupi, um subproduto da mandioca/macaxeira, muito comuns no Norte do Brasil.

E o amor e orgulho do acreano estão bem estampados. Nas ruas, não era raro ver carros e estabelecimentos adesivados com a bandeira acreana dentro de um coração. A população sente orgulho de ter conquistado este pedaço de chão. Além do orgulho pela terra linda, há o orgulho pelas tradições e manifestações da cultura bem amazônica, como a culinária e alimentos típicos, que é algo que nos encanta pelo estômago. Nosso amigo nos levou em um dos mercados de frutas, nos deliciamos com toda aquela variedade de frutos da floresta, enquanto ele nos contava da sua experiência trabalhando com o pessoal da Reserva Extrativista Chico Mendes. Uma história a parte, que agora ficará só na nossa curiosidade, porque não sabíamos antes e passamos direto pela entrada da reserva, sem ir conhecê-los e ver como é possível viver apenas do extrativismo consciente, sem desmatamento, sem monocultura, sem devastação e desrespeito com aquela que fornece nosso alimento saudável de cada dia, a mãe terra!

Foi uma dificuldade muito grande decidir a hora de seguir viagem. A vontade era ficar mais e aprender mais com nosso amigo poeta/professor e guia turístico especializado em nos mostrar os trajetos mais agradáveis de se fazer a pé, pela sombra. Porque Rio Branco também é arborizada. De nos despedir de Dona Raimundinha, um amor de pessoa, nos tratando como filhos também. É sempre dolorosa a despedida quando ganhamos mais uma família do caminho. Mas estamos indo ao encontro de nossas famílias de origem, e isso também nos apressa um pouco, nos faz nos demorar menos. Também há a sazonalidade das chuvas, que nos fez apressar porque pretendíamos ainda pedalar um bom trecho pelo Pará . Há várias forças em jogo, as que nos fazem querer ficar, e as que nos impulsionam a partir, outra e outra vez ao desconhecido. Cada casa que deixamos a cada nova manhã e um desapego doloroso mas necessário, um constante não saber o que será do final do dia.

Na casa do poeta! Nossa família acreana por uns dias, já temos saudades…

Assim tivemos de seguir o fluxo da Ciclo Via Chico Mendes, que nos levaria para a saída da cidade, rumo ao estado de Rondônia. Por termos nos demorado em sair, devido a todas as despedidas e novos assuntos que surgiam a cada início de tentativa de dizer tchau, acabamos pedalando pouco neste dia e conseguimos avançar ínfimos 30km até dar de cara com um igarapé convidativo na beira da estrada. Justo naquela hora de maior calor, o meio do dia.

Ciclovias de Rio Branco, muito convidativas e funcionais, facilitam a visão do ciclista em relação ao cruzamento de automóveis, bem como facilita ao motorista ver a trajetória do ciclista com antecedência.

Foi no Balneário Quinauá que o desconhecido destino do dia teve fim com um belo banho de águas negras e refrescantes. Montamos nossa casinha pedindo licença pros mosquitos e fomos tratar de absorver todas aquelas experiências que tivemos em Rio Branco. Dia seguinte, novo dia. Onde iremos parar?

Igarapés convidativos na beira da estrada tem uma consequência: pouco rendimento do pedal diário. Ah! Que refresco!

Depois de umas poucas horas de pedal, encontrar o Balneário Quinauá foi uma delícia! Refrescante banho nas suas negras águas.

Pedal duro o dia todo, sol na moleira, nenhuma sombra. Passaram a gilete na floresta. Sobraram só árvores metálicas gigantes conectadas por uns estranhos cipós elétricos, que nem o mais valente Tarzan se aventura em pendurar-se. Já chegando a noite, encontramos uma escolinha em reforma, os trabalhadores nos levaram até o responsável, que nos concedeu autorização para pernoitar dentro da sala de aula, já que as nuvens escuras e pesadas já anunciavam uma bela tempestade.

Escolinha perto da divisa de estados Acre/Rondônia, que nos abriga em mais uma noite. Final de semana é bom para conseguir uma ajuda para o pernoite.

Noite também partimos, eram 5:20 e já estávamos rodando, com as lanternas ligadas a não ver nada no asfalto cheio de buracos. Odeio pedalar de noite, mas tínhamos pressa em chegar até a Balsa no final do dia. Se deixássemos pra pegar pela manhã, lá se ia meia hora do horário fresco, horário que preferíamos estar pedalando. Mas por informações erradas que tomamos na estrada, e um pequeno e incoerente mapa de poucos detalhes, não conseguimos chegar até a Balsa. Em Vista Alegre de Abunã nos informaram que ainda faltavam 30km até a balsa, e já havíamos pedalado 130km. Buscamos mais uma vez abrigo nas escolas da cidade. Na segunda tentativa, fomos acolhidos em meio a uma confusão. O ventilador da despensa havia dado curto circuito e pegou fogo e derreteu o forro. Por conta disso o vigia teve de chamar a diretora. Para nossa sorte, com a presença da diretora pessoalmente, ficou mais fácil conseguir a autorização para dormir na escola. Só que por conta do pequeno incêndio, a bomba de água não estava funcionando, e devido ao movimento do evento que acontecia na escola, a caixa d’água havia esvaziado. Não teríamos água, muito menos banho. Mas o eletricista veio trabalhar mesmo no final de tarde do domingo, e por mais uma vez, ela, a dona sorte, tivemos então água com pressão de cachoeira nos chuveiros do vestiário do ginásio da escola. Ah, maravilha, um belo banho depois de 130km de pedal nesse calor não é nada mal!

Agora sim, finalmente um trecho reto, sem morros. Só que péra, cadê a floresta? Depilaram a Amazônia!

Mais uma escola,Vista Alegre de Abunã, já em Rondônia. Desta vez, acampados no ginásio de esportes, depois de um dia de 130km de pedal. Chegamos a noite, e saímos ainda de madrugada rumo a Porto Velho.

Outra manhã de madrugar. deixamos a escola antes das aulas começarem, antes do sol raiar e as 8:20 já estávamos dentro da balsa, cruzando pela primeira vez o Rio Madeira. Depois de atravessar de balsa, as estradas ficam planas por um bom tempo. Só mais próximo de antiga Mutum Paraná é que começam algumas serrinhas. Sem saber que esta cidade não existia mais, pois foi movida para outra região em virtude da área que será alagada pela Hidroelétrica de Jirau, fomos parar só com sofridos 110km percorridos no dia, quando encontramos um restaurante e bar. A família nos contou de toda a movimentação em decorrência da construção da hidroelétrica, das indenizações de terras, e das lutas que os moradores locais em vão lutaram. Uma pequena cidade inteira tirada do mapa e incorporada como um bairro de outra cidade. Moveram Mutum Paraná de uma região arborizada, na beira do rio, vimos as mangueiras a dar frutos para ninguém, construções abandonadas, tudo irá alagar. E os antigos moradores movidos para Nova Mutum, um terreno aplainado, no topo de uma subida, a beira da estrada, nenhuma árvore nos quintais, casas todas iguais, ruas planejadas, nenhuma mangueira a dar frutos, de frente para uma fábrica já desativada, nenhum rio a correr ao lado. Uma realidade triste. A população pouca chance tem diante destas grandes corporações que acham que com dinheiro resolvem tudo.

A família do bar que nos abrigou, vive a 2km de uma subestação da hidroelétrica. Mas eles mesmos não tem energia elétrica instalada na residência. Tudo funciona a gerador. Ligam só a noite, para economizar. Toda comida do restaurante deve aguentar no refrigerador que só vai funcionar durante a noite. Não há telefonia, nem sinal de celular, eles não tem comunicação com o mundo ali, apesar de os cabos de fibra ótica passarem a poucos metros de sua propriedade, ali do outro lado da pista. As incoerências deste país. Para quem mesmo estão produzindo esta energia? Pra população brasileira. Aham, sei…

Planícies de Rondônia, antes de pegarmos a balsa para travessia do Rio Madeira.

Próximo a antiga ponte de Mutum Paraná, muitas máquinas trabalham na remoção da madeira das árvores que irão atrapalhar a hidroelétrica. Será que os antigos moradores destas terras sabiam disso? Que vão fazer com toda essa madeira as empresas responsáveis pela usina? Embora esta realidade que vimos e ouvimos da população local nos entristeça, o que nos dá forças para seguir conhecendo nosso país é a esperança de que a natureza se regenerará algum dia deste ferimento profundo. Em pequenos pedaços de mata isolados por um mar de desmatamento, os animais resistem e se exibem em todas suas cores. Como é possível que nossa espécie tenha coragem de acabar com essa beleza em nome do dinheiro, desse desenvolvimento atrapalhado?

Onde ainda há algum pedaço de floresta, abundam aves coloridas, como este barulhento tucano. Lindo demais!

Por conta do desmatamento em virtude da hidroelétrica e também da extensiva área de criação de gado, as sombras na estrada são escassas. Durante os horários de sol mais intenso temos que parar nas poucas oportunidades que temos, e geralmente são estas casinhas de teto de palha, construídas por moradores das margens da rodovia, geralmente próximo a assentamentos ou entradas de estradas vicinais.

As poucas sombras ficam por conta dos abrigos que os moradores de assentamentos da beira da estrada constroem para esperarem os transportes coletivos.

Um solitário cajueiro no acostamento. É claro que não tivemos dó nem piedade só porque o caju era bonito e lustroso. Mandamos pra dentro! Delícioso!

Já chegando próximo a Porto Velho, nos deparamos com uma imagem de uma arara, sentadinha no pilar do portão de uma casa. Sem ter certeza se era de verdade ou de mentira, devagar fomos nos aproximando dela. Logo depois de conversar um pouco com a arara e os donos da casa, fizemos uma pausa de descanso em um ponto de ônibus de frente para um imenso descampado com umas cabeças de gado invisíveis. Da estrada que leva até a fazenda, um imenso caminhão carregado de toras de madeira com diâmetro muito acima de 1m e comprimento absurdo, passa por nós. Não conseguimos tirar a máquina fotográfica a tempo de registrar a cena. Não havia nenhuma placa de registro nas toras. Isso pode indicar que sua extração possivelmente é ilegal.
Não conseguimos chegar em Porto Velho neste mesmo dia, paramos então no Balneário do Souza, mesmo local onde o amigo Thiago Fantinatti relata que pernoitou em sua jornada no livro Trilhando Sonhos. Infelizmente o seu Souza não é mais proprietário do local e não pudemos conhecer a figura. Mas tivemos um delicioso final de dia, bela paisagem e água refrescante de igarapé pra esfriar a cuca de tantas desilusões.

Você seria capaz de dizer se é uma arara de verdade ou um enfeite sobre o portão?

Mas era a Lara! Uma arara muito simpática, que vem se aproximando conforme nos aproximamos. Ela foi capturada quando pequena e sofria maus tratos. Foi então adotada por uma família que lhe dá liberdade, mas ela não soube mais se adaptar à vida selvagem outra vez. Contaram que no Natal ela saiu, ficou 3 dias fora. Quando voltou, dormiu por 3 dias, exausta que estava. Dizem os fofoqueiros que foi em busca de um namorado…

Faltavam pouco mais de 40km até Porto Velho, que conseguimos tranquilamente cumprir na manhã seguinte. Chegamos sem ter onde ficar na capital, pois nosso contato por lá não estava na cidade. Fomos então buscar informações do barco até Manaus, e soubemos que estava para partir em uma hora. Ainda teríamos que providenciar muitas coisas, mas o próximo barco seria só dali a 3 dias. Decidimos nos apressar e o pessoal da agência nos ajudou, levando André de carro para sacar dinheiro, comprar as redes onde dormiríamos no barco, uma marmita de arroz com feijão, e um bom estoque de comida para os 4 dias de viagem. Não pudemos conhecer muito bem Porto Velho, e a parte que conhecemos no caminho até o porto não foi muito agradável. Esperamos que em outra oportunidade possamos conhecer melhor esta capital, não foi desta vez. No próximo post contaremos como foi essa viagem maluca de barco até Manaus.

Voltando ao Brasil, tamo em casa!

Foto de despedida do Perú, na placa idêntica à de nossa entrada.

Saímos de novo antes das 6h da manhã pra aproveitar a hora mais fresca pra pedalar mais. Chegamos a Iñapari, ainda no Peru, antes das 11h e já fazia mais de 40°C. Ao sol se poderia fritar um ovo de tão quente. Depois de um rápido lanche na praça, fizemos a foto do “Adiós” Perú e atravessamos a ponte da integração. Mesmo do lado de Iñapari várias pessoas já falavam português, vários carros com placa brasileira. Na ponte um senhor de bicicleta nos cumprimentou, metade em espanhol e metade em português “Oi, como estás?”, Na ponte ainda não é território brasileiro, nem é mais território peruano, então muito apropriado falar metade em um idioma e metade em outro.


Borboletinhas amazônicas, presentes tanto do lado peruano quanto brasileiro.

Ao pisar em território brasileiro, próximo ao meio-dia, o ar parado e o reflexo do asfalto nos fazia sentir mais calor que em outros dias. O termômetro marcava 45°C no sol, 40°C na sombra. Paramos na Aduana do lado Brasileiro e nem revistaram nada, só carimbaram passaporte e pronto. Entramos em Assis Brasil e fomos buscar uma sombra na praça, ficar debaixo daquele sol era loucura. Foi o dia mais quente da viagem até agora. Sentamos num banco à sobra de uma árvore e conversamos sobre o que fazer primeiro. Queríamos nos livrar o mais rápido possível do peso dos equipamentos de frio, despachar pelos correios várias coisas que no calor amazônico seriam inúteis, e que nos faziam sofrer demais nas subidas dessa planície amazônica. Então precisaríamos ao menos esta tarde, o que tornava inevitável um pernoite na cidadezinha.


Só o amanhecer é úmido e fresco, após as 8h da manhã, salve-se quem puder.

André foi a um posto da polícia perguntar. Lá disseram que todos que vem de bicicleta acampam na praça. Quando André me deu a notícia achei bom, não tava a fim de ficar em hospedagem mesmo, e a praça tinha uma grama bem cuidada, além de que, não havia muito movimento. Nisso um rapaz vem conversar com a gente, ele também do estado de São Paulo, como André, de uma cidadezinha perto de Ourinhos. Papo vai e papo vem, ele nos convida a ficar na casa dele, e é lógico que aceitamos, seria muito melhor no quintal de alguém do que na praça, e ainda teríamos com quem conversar em português, nos atualizar da situação do país. Além do mais a possibilidade de um banho, nem que fosse de torneira, já era melhor que tomar um banho na praça, depois daquela suadeira que passamos no sol. Como não daria mais tempo de mandar as coisas pelo correio, pois não nos demos conta da mudança de horário, que no Peru era uma hora a menos, decidimos ficar mais um dia, já que nosso anfitrião nos deixou bem à vontade, como em nossa própria casa. Pronto, 10 minutos no Brasil e já experimentamos da hospitalidade e generosidade de estranhos que se identificam com a gente, que também gostam de viajar, ou simplesmente gostam de ajudar os outros.

Depois de instalados, fomos tratar da fome, direto pro supermercado! Um supermercado brasileiro de verdade, depois de tanto tempo, nos sentíamos como criança em loja de brinquedo. Era o choque de identidade que precisávamos! Goiabada, farinha de mandioca, batata doce, couve mineira, feijão carioquinha, acabamos comprando demais! De noite cozinhamos batata doce na fogueira, e fizemos arroz, farofa temperada com couve e milho enlatado. Nos esbaldamos!


Fazendo un rango bem brasileiro e bem vegano! Farinha de mandioca brasileira, que saudade, couve, cebolinha e um azeitinho e tá feita a farofa!

Além de nos acolher na sua casa, Zé ainda nos deu de presente um livro, história de um grupo de amigos que viaja para lugares improváveis e perigosos, adoramos o presente, e na mesma noite comecei a ler!

Foi bom que decidimos parar um dia pra descansar, porque choveu quase a manhã inteira. Enviamos 14kg de coisas pra casa, sacos de dormir, roupas de frio, minhas botas, meu alforge e bagageiro dianteiro, meias e acessórios de frio e de chuva. Agora estamos muuuuito mais leves, provavelmente mais coisas minhas que do André. Só que nos demos conta que temos só uma muda de roupa de calor, com essa suadeira toda, parece que vamos precisar de umas regatas. Procuramos comprar regatas e roupas de baixo, mas não encontramos nada barato e bom, então desistimos. Queríamos um mapa do Brasil, mas também não encontramos. Vamos ver se achamos em Brasiléia, daqui a 100km. Cozinhamos um típico almoço brasileiro, arroz, feijão, salada de pepinos, e quiabos (Ah! Quiabos!) refogados, tudo regado a farinha de mandioca. Mas seguimos sem conseguir reativar os chip’s brasileiros no celular.


Em apenas 10 minutos já tínhamos um novo amigo e um lugar para ficar em Assis Brasil. Grande Zé Tico, sua simpatia e imensa vontade de conhecer o mundo! O livro que nos deu já foi lido, agora está nas mãos de outro amigo de espírito nômade como nós.

Para o dia seguinte, o plano de sair cedo e aproveitar novamente as melhores horas frescas da manhã permanece nossa meta. Saímos pouco depois das 7h da manhã e nos despedimos do Zé. Pedalamos firme e o relevo era todo cheio de lombas, já na saída da cidade uma ladeira quase negativa pra vencer. Um sobe e desce até o final do dia, aliviado só porque estávamos mais leves agora. Nas subidas, os 14kg que deixamos pra trás faziam grande diferença no nosso rendimento. Mas depois das 10h da manhã o sol deixa o exercício penoso, e nosso rendimento cai muito a partir desse horário, vem a sonolência e a bunda começa a assar devido ao suor excessivo. Realmente pedalar em clima frio tem suas vantagens, mas a desvantagem é que deixa nossas bundas sem calos, hehehe.


Pau de arara. Uma versão bem mais confortável que as vãs apertadas da Bolívia e Perú.

Fizemos uma grande pausa das 11h30 até as 13h30 para o almoço, que foi feijão de caixinha, a farofa temperada sobrada do dia anterior e uma Tubaína grande comprada no barzinho onde paramos, só pra ver se todo esse açúcar nos dava um empurrãozinho pra sair dessa sombra e enfrentar o sol novamente. Pedalamos 86km e decidimos parar perto das 15h, porque o calor tava nos desgastando demais. Em uma curva vimos um povoado e haviam várias opções de onde conseguir acampar. Havia 1 campo de futebol, 1 igreja evangélica e 1 escola. Como era sábado, no campinho poderia ter jogo, na igreja poderia ter missa, mas na escola não teriam estudantes. Então decidimos apostar na escola. Falamos com o vigia e ele nos deixou acampar por ali, só avisou que não havia chuveiro na escola. Ficamos mesmo assim e para o banho a gente se vira com uma torneira ou balde. Colocamos a barraca debaixo do teto da quadra de esportes. Tomamos banho de uma torneira generosa com o auxílio de uma garrafa pet cortada. Ficamos frescos e fomos logo cozinhar nossa janta. Ainda era dia quando jantamos e logo estávamos capotando dentro da barraca. O vento que trouxe a chuva deixou a noite fresca e dormimos super bem.


Primeira escola a nos acolher no Brasil, por sorte havia uma grande quadra de esportes coberta, pois choveu muito ao entardecer. Mesmo assim, em plenas 4h30 da manhã, olha o calorzinho que a gente já sentia…

Pela manhã o barulhinho de chuva nos fez negligenciar o despertador. Dormimos a menos quando pensávamos que dormíamos a mais, porque o André se confundiu com o horário do despertador, pensando que estávamos no horário peruano? Acabamos acordando meia hora antes, mas psicologicamente estávamos meia hora atrasados. Começamos a desconfiar do engano só quando percebemos que o dia demorava demais pra clarear. Por sorte o barulho do telhado não era chuva, e sim o sereno que se acumulava no grande telhado de zinco. Nos arrumamos e saímos depois de uma conversa com o vigia da noite anterior e o vigia da manhã. Nos contaram um pouco sobre a situação da fronteira quase tríplice, pois nós compartilhamos a floresta com Bolívia e Perú e podemos ter os mesmos problemas, comentamos sobre os protestos mineiros pelos quais passamos dias antes, eles falaram da extração de látex e castanhas e da expulsão dos brasileiros dos territórios bolivianos.

Abrigados em um antigo parador de estrada, uma mansão de madeira antiga. Estavam reformando este cômodo para instalar um bar. Infelizmente mais um a servir bebida alcoólica aos motoristas da estrada…


Amanhecer amazônico sempre muito úmido, belo e poético. Nesta manhã especial o dia resolveu ficar nublado e foi possível prosseguir por mais tempo e maior distância.

Dia nublado, o pedal rende. Alívio pedalar na sombra! Passamos em Brasiléia as 8h da manhã e que alegria ver uma feira livre de domingo! Compramos frutas, muitas frutas. Delícia para os olhos e o paladar! Finalmente mamão papaia verdadeiramente papaia, daqueles que são quase vermelhos dentro e super doces, a casca chega a ter açúcar cristalizado, um deles foi apenas um real, e o outro menor cinquenta centavos. Praticamente de graça! Perto daqueles mamões que comíamos no Peru, aguados e sem graça e ainda por cima caros, sob este ponto de vista estar de volta ao Brasil nos faz sentir muito bem. Ainda encontramos polpa de açaí recém feita, um saco que custou cinco reais, deve ter vindo dois litros ou mais, porque enchemos uma garrafa e ainda tomamos um tanto na hora, rendeu comida pro dia inteiro. De manhã comemos açaí com o papaia e açúcar, de meio dia com as sobras de arroz e farinha de mandioca, e de tarde com banana amassada. Foi quase toda a refeição do dia movida a açaí, e completamos 110km antes das 14h30. Acho que o açaí e o tempo nublado fizeram grande diferença, porque o relevo não foi nada plano.


Eu ia falar da ondulação da estrada para descrever esta foto. Mas veja que lindo varal o André improvisou no guidão da bici!

Mas as nuvens se abriram e o sol ficou quente demais no início da tarde. No horizonte somente campos desmatados, e justo no km110 do dia, duas casas e uma escolinha que parecia abandonada. Ah, só vamos seguir se nos negarem pouso. Por hoje já está bom! Tentamos na casa maior, parecia um antigo parador que já teve seus bons tempos, tem estilo mas que agora cai aos pedaços. A família nos recebeu com água gelada e um teto pra dormir. Depois nos ofereceram de tomar banho e até usar energia elétrica se precisarmos carregar algum aparelho eletrônico. Apenas 15h40 e já estávamos com a janta a caminho, barraca pronta para enfrentar os mosquitos, só falta a ducha. Ainda temos um dia e meio ou dois de pedal até Rio Branco e ainda não sabemos se o amigo do nosso amigo poderá nos hospedar na cidade grande.


Mais um amanhecer de tirar o fôlego. Não só pelo amanhecer espetacular, mas pelas longas ladeiras também. Pedalar na Amazônia é acordar antes do sol nascer, estar na estrada antes de clarear!

Sobre a estrada, percebemos que estamos mesmo no Brasil, não há como negar, estradas cheias de buracos e trechos inteiros com falhas desde Assis Brasil pra cá. É a festa do patchwork viário, a cada metro um remendo de cor e textura diferente! Outra coisa que nos faz acordar do sonho mágico de estar de volta ao nosso país é a velocidade que os carros passam pela gente e a falta de cuidado dos motoristas. Não estamos mais acostumados com isso, e de vez em quando tomamos susto quando do nada um jato passa rente a nós. Não dá tempo nem de ver pelo retrovisor. O povo brasileiro sem dúvida é muito acolhedor, alegre, simpático e solidário, mas não sabemos o que acontece com esse mesmo povo ao volante! Não entendo como essa transformação acontece, a negligência na estrada é grande por conta da velocidade, mas por sorte temos encontrado acostamento ao menos para “fugir” quando conseguimos ver que algum veículo está em nosso retrovisor. Também ajuda pedalar bem cedo, quando o movimento é menor.


No horizonte as castanheiras remanescentes. De longe em muito menor quantidade do que no lado peruano. Infelizmente todo o resto da paisagem nesta foto é pastagem.

Em Capixaba, André teve que ir ao Posto de Saúde, ver um caroço que estava por debaixo da pele, com medo que fosse inflamação de alguma picada de insetos desconhecidos. É que há muita preocupação com essa coisa de insetos amazônicos, muitas pessoas da família nos alertam sobre coisas que veem na televisão, raras e novas doenças causadas por insetos daqui. Foi tanta a neura que decidimos ir logo ver do que se tratava. Para nossa decepção, o médico apenas olhou e receitou antibiótico, dizendo que era anti-inflamatório. Nem ao menos tocou o local, apenas deduziu ser algum pelo encravado, ou algo do tipo. Ao menos não é nenhuma inflamação causada por insetos. Ou não! Como saber? Bom, no meio dessa lida, um rapaz vem conversar com a gente, estava trabalhando no posto. Nos convida para almoçar com sua família, ele também é ciclista e ficou interessado na nossa viagem. Aceitamos o convite, mas falamos a ele de nossa alimentação vegetariana, e que ele não se ofendesse se levássemos uma saladinha, que aceitamos o convite não pela comida, mas pela companhia e bom papo nesse horário em que geralmente mesmo não pedalamos, devido ao sol forte. Mas não foi preciso explicar muito, ele falou que não era necessário levarmos nada, que ele também estava num período de reeducação alimentar, então salada nunca falta, muito menos arroz e feijão. Então sorriso largo e tudo tranquilo, lá fomos nós para um almoço em família.


Uns queridos estes dois mineirinhos residentes em Capixaba! Muito obrigado Estevão e Ana Paula! Foram breves os momentos que compartilhamos, mas muito significativos para nós, valeuuuu!

Como já estávamos a poucos quilômetros de Rio Branco, e já havíamos pedalado um bom trecho no dia, perguntamos se poderíamos acampar no quintal deles, e seguir no próximo dia, para chegar a Rio Branco ainda pela manhã. Não fizeram cerimônia e não nos deixaram acampar no quintal, mas nos disseram para dormir no quarto lá de dentro, mas aí a gente se acostuma mal! Ana Paula e Estevão, muito obrigado pela acolhida, esperamos agora é a visita de vocês lá pro sul, pra passar um friozinho e comer pinhão sapecado!


Então é isso, come Back, EVER! No próximo post de capital a capital. Um pesado e puxado pedal de Rio Branco até Porto Velho. Mas, come back EVER, não esqueça!

Cozinhar com o quê na cicloviagem?

Fogueira X Espiriteira X Gás X Multicombustível

André cozido, de raiva! É só quando temos mais fome, que o bendito entope e resolve não funcionar. Tudo isso graças à gasolina que compramos no último povoadinho. Salar de Uyuni, Bolívia.

Fogareiros são essenciais em viagens de bicicleta ou viagens de mochila que incluam travessias a pé, para aquelas pessoas que pretendem preparar o próprio alimento e ser autosuficientes, não dependendo de restaurantes ou do favor de terceiros. Desde um simples cafézinho, até elaboradas preparações culinárias, qualquer um destes 4 tipos de cozinha cumprirá bem a função. Porém, para você decidir qual escolher, leve em conta as considerações abaixo.

Fogueira

Fogueira com fogareiro a lenha primitivo fervendo água do rio para uma sopa.Los Ñadis, Carretera Austral, Chile.

Fazer fogueira para cozinhar é a opção mais simples e barata para se viajar. Vimos muitos viajantes utilizando apenas fogueira. Para ajudar nesta tarefa existem fogareiros à lenha portáteis que aumentam a eficiência da queima, você pode adquirir um, ou mesmo construir o seu, alguns modelos de construção podem ser encontrados aqui: http://zenstoves.net/Wood.htm

Vantagens

  • Não precisa carregar combustível e/ou fogareiro;
  • Custo zero;
  • Ajuda a espantar mosquitos;
  • Ajuda a espantar animais maiores;
  • Ajuda a te aquecer em dias frios;
  • Se tiver disponibilidade infinita de lenha, te dá a possibilidade de cozinhar por muito tempo.

Desvantagens

  • Toma tempo para coleta de gravetos e madeira;
  • Toma tempo até conseguir acender o fogo;
  • Deixa fuligem na panela;
  • Se não tiver vento, vai fazer você feder fumaça, assim como suas roupas;
  • Depende do local para onde você vai ser bosque/floresta para ter disponibilidade de madeira;
  • Se a lenha estiver molhada não conseguirá acender o fogo tão facilmente;
  • Em vários parques nacionais é proibido fazer fogueira;
  • Há grande risco de causar incêndios florestais;
  • Há grande risco de o vento levar fagulhas até sua barraca e danificá-la ou até mesmo destruí-la;
  • Se quiser não ser visto no local onde irá acampar, a fumaça de uma fogueira facilmente será avistada a distância, indicando o ponto exato onde você se encontra.
  • É necessário escorar a panela de alguma maneira (buraco, pedras, suporte, etc);

Espiriteira

Fogareiro de construção simples, pode ser comprado pronto ou confeccionado por você mesmo a custo zero. Funciona com álcool, seja de cozinha ou de posto de gasolina. Dezenas de modelos de construção podem ser encontrados no site: http://zenstoves.net/

Vantagens

  • Nenhuma manuntenção;
  • Combustível barato no Brasil;
  • Combustível fácil de encontrar no Brasil;
  • Silencioso;
  • Pode ser fabricado a custo zero;
  • Se perder o seu, pode fazer outro;
  • Você pode descartá-lo sem dor no bolso quando se encher dele;
  • Você pode presentear seus amigos com um fogareiro construído por você e incentivá-los em suas primeiras viagens de bicicleta autônomas;
  • Você pode ter um fogão de quantas bocas quiser em seu acampamento.

Desvantagens

  • Dependendo do modelo, deixa fuligem na panela;
  • Poder calorífico depende da temperatura ambiente;
  • Pode exalar mau cheiro quando queima;
  • Em climas frios ou em altitude, não queima propriamente e demora muito ou nem chegará a ferver água ou cozinhar sua comida;
  • Difícil encontrar álcool veicular em países como Argentina, Chile, Bolívia e Perú, e o álcool de cozinha nestes países tende a ser caro e com mistura com água muito alta;
  • Perigoso cozinhar próximo de sua barraca, caso você por acidente derrame o combustível e ele se alastre;
  • Muito difícil e perigoso cozinhar dentro da barraca;
  • Quando o álcool acaba, mas a comida ainda não está cozida, é preciso esperar o metal esfriar um pouco antes de recarregar e recomeçar a chama;
  • Após apagado, é preciso esperar esfriar o combustível que não foi usado, para então retornar para a garrafa de armazenagem. Enquanto isso, o álcool evapora rapidamente gerando desperdício.
  • Relação Peso X Poder calorífico é baixo.
  • Não oferece possibilidade de regulagem da chama eficaz.

Gás

Marco e André tentam descobrir o que aconteceu com o adaptador do fogareiro Primus para garrafa de gás. Tapi Aike, Patagonia Argentina.

Fogareiro e combustível são vendidos separadamente. O Fogareiro é acoplado ao topo da garrafa que contém uma mistura de gás butano e propano. A garrafa de gás é vendida em lojas especializadas de pesca e camping, em alguns países ou cidades que abrigam roteiros de trekking, é possível encontrá-lo até em pequenos mercados. As garrafas de gás não são retornáveis nem reutilizáveis. Acabou o gás? Você terá de carregar a lata até ter local apropriado para descarte. Não ouze deixá-la atirada na natureza, no meio da trilha ou no lugar onde acampou noite passada!

Vantagens

  • Zero manutenção;
  • Fácil manuseio;
  • Silencioso;
  • Fácil encontrar em cidades turísticas voltadas ao trekking, escalada, etc.
  • O queimador pode ser extremamente leve e compacto (menos de 100g);
  • Funciona bem em altitude e climas frios;
  • Prático para acender, desligar e regular a chama;
  • Relativamente seguro para cozinhar próximo da barraca;
  • Não tão perigoso para cozinhar dentro da barraca* (só faça isso se a situação fora de sua barraca estiver mesmo caótica, tipo um furacão um um tufão, caso contrário, só cozinhe fora de sua barraca)
  • Não exala odor;
  • Alto poder calorífico;
  • Boa relação Peso X Poder calorífico;
  • Mesmo uma garrafa pequena pode durar vários dias cozinhando.
  • DICA: Se estiver em um camping/hostel em Punta Arenas, Puerto Natales (Chile), El Calafate ou El Chaltén, ou próximo de qualquer região de Trekking, é possível conseguir algumas garrafas com meia vida que o pessoal deixa após retornar dos trekkings, pois como a maioria volta de avião ao seu país, não podem levar consigo combustível. Então, há a possibilidade de descolar umas garrafas quase cheias de graça ou por preços mais baixos.

ATENÇÃO: Morte por sufocamento dentro da barraca, ou pequenos lugares fechados pode acontecer. Caso a barraca esteja bem vedada e a pessoa esteja usando o fogareiro ali dentro, o oxigênio pode acabar e a pessoa não perceber. Durante nossa viagem, soubemos do caso de um motorista de caminhão que ficou preso na estrada devido a intensidade de neve que caía no momento. Foi obrigado a parar no acostamento e esperar melhores condições. Por ter um fogareiro a gás em seu equipamento de cozinha, e não estar carregando roupas de frio, achou que seria uma boa ideia aquecer a cabine ligando o fogareiro. Nisso, ele pegou no sono, e não acordou mais. Seu corpo foi encontrado dias depois pelos policiais que nos contaram esta história quando passávamos no passo de fronteira Hito Cajó, a 4.700msnm (Chile e Bolívia).

Desvantagens

  • Descarte da garrafa, não retornável nem recarregável;
  • Pode ser um pouco instável equilibrar a panela, caso seu queimador e tripé são encaixados no topo da garrafa (há modelos com mangueirinha que afastam o queimador da garrafa);
  • Garrafas são volumosas, ainda mais quando você tiver que carregar elas até ter a possibilidade de descartá-las em um local adequado;
  • Combustível pode sair caro em poucas regiões, e muito caro na maioria das regiões (se você costuma cozinhar bastante ou se viaja com mais de um companheiro então nem se fala);
  • Em cidades menores ou menos turísticas muito difícil encontrar;
  • Cuidado extra com a oxidação do queimador quando ficar longos períodos sem uso;
  • Por ser caro, você vai ficar mais tentado a ir comer naquele restaurante de beira de rua, e acabará com alguma bactéria f#d@ que te deixará sentado no trono alguns dias.

Fogareiro Multicombustível

Cozinhando normalmente a 4.700m.s.n.m. no Paso Abra Pirhuayani, Peru.

São fogareiros cujo combustível é recarregável, o que significa que a garrafa é permanente, e que funcionam com diversos tipos de líquidos inflamáveis tais como: Gasolina, querosene, diesel, benzina branca/solvente. Normalmente funcionam à pressão, por meio de uma bomba acoplada na garrafa. Podem ter regulador de chama ou não. Alguns modelos mais caros possuem adaptadores para acoplar garrafas de Gás. Alguns modelos são totalmente silenciosos e outros muito barulhentos. É altamente recomendado levar junto com o fogareiro multicombustível um kit de reparo.

Vantagens

  • Facilidade de encontrar combustível (até na pouco habitada região Sudoeste da Bolívia foi possível recarregar gasolina com um senhorzinho que guardava um pouco em casa).
  • Custo baixo do combustível: com o equivalente a ~R$1 é possível cozinhar café da manhã, almoço e janta para duas pessoas por uma semana;
  • Durabilidade do equipamento;
  • Excelente relação custo X benefício para longas viagens, ou se você planeja usá-lo por muitos anos;
  • Excelente relação peso X poder calorífico dos combustíveis possíveis de serem usados(esta vantagem aumenta ainda mais com a utilização de Querosene ou Diesel);
  • Funciona bem em qualquer situação adversa, seja ela por altitude ou clima (frio, chuva, vento);
  • Regulagem de Chama muito eficiente no modelo que usamos – Dragon Fly;
  • Silencioso em outros modelos – Whisperlite International e outros;
  • Por ser barato o combustível, você se sentirá muito mais animado a cozinhar sua própria comida, e não sentirá pesar no bolso cozinhar uma panelada de feijão por algumas horas, ou preparar pratos mais sofisticados, e até mesmo esquentar uma água para tomar banho, quando a situação estiver feia. Seu risco de contrair uma bactéria f#d@ dos restaurantes de rua praticamente cai para zero.


André examinando um novo vazamento no fogareiro. Abrigo entre Cerro Chico e Villa Tehuelches, Chile.

Desvantagens

  • Preço alto. Deve ser considerado um investimento, pois o valor inicial do produto é alto. Só compensa se for para uso prolongado. Aí o valor baixo do combustível “paga” o investimento com a estrutura do fogareiro.
  • Depende da qualidade do combustível para funcionar propriamente;
  • Difícil manutenção (algumas vezes ele pode entupir dependendo muito da qualidade do combustível);
  • Exige montagem e desmontagem toda vez que for utilizá-lo;
  • Exige “prime” toda vez que iniciar uso (prime é o aquecimento inicial do fogareiro, onde uma chama grande, fuliginosa e com odor queima durante cerca de 30 segundos a 1 minuto, antes que o fogareiro possa ser utilizado);
  • Exige cuidado no armazenamento do fogareiro, bomba e garrafa na mochila/alforges.;
  • Ruidoso quando ligado, no modelo que usamos, o DragonFly (opção silenciosa não possui regulagem de chama – MSR Whisperlite International)
  • Por você cozinhar muito mais sua comida, do que usando outros sistemas de fogão, ao final você terá dedicado muito mais horas lavando louça em sua viagem.
  • O perigo que representa um vazamento é grande, pode ocorrer explosão, é preciso estar sempre atento.

Nosso compadre Duan, nos mostrando seu super fogareiro multi combustíveis ainda reluzente. Dois dias depois ele daria o mesmo para nós como presente de casamento. Valeu Brother, a libélula cuspidora de fogo aguentou o tranco e salvou nossos mais de 630 dias de rango na estrada! 

Considerações Finais

Se você pretende viajar por mais de 6 meses(em caso de casal) ou mais de 1 ano(em caso de uma pessoa só) a aquisição de um fogareiro multi-combustível é muito válida.

A combinação {espiriteira+gás+fogueira} é uma alternativa viável para equilibrar os seguintes pontos: custo, versatilidade e peso. Custo e versatilidade: devido ao preço da garrafa de gás ser relativamente alto, você deixa para usá-lo quando for passar em regiões frias e de altitude, priorizando o uso do álcool em regiões mais baixas e mais quentes, e usando fogueira quando tiver disponibilidade de madeira, economizando assim com combustível. Peso: Aliará dois fogareiros leves, para travessias de poucos dias poderá carregar pouco combustível, recarregando seus estoques a cada cidade que passar, ou ainda carregando nenhum combustível caso seja região de bosques. Já para travessias de mais dias, a relação do peso do conjunto (espiriteira e gás) somado aos respectivos combustíveis começa a se aproximar da relação de peso do Fogareiro Multicombustível.

Conheça os equipamentos de camping presentes em nossa Loja Virtual clicando aqui.

Cozinha Cicloviajante {Revisitado}

Depois de alguns meses de viagem, fomos percebendo quais itens de cozinha estávamos usando com mais frequência. Separamos eles em três grupos: indispensáveis, uso frequentes, uso raramente. Descartamos os raramente, repensamos os frequentes, mantemos os indisensáveis. Além disso, buscamos substituir por opções mais leves os indispensáveis e os frequentes que não caíram no pente fino.

A foto abaixo é de nossos itens de cozinha quando saímos de viagem. É incrível rever ela depois de mais de um ano, e ver que muita coisa que pensávamos ser útil naquela época, hoje em dia não nos faz a mínima falta. Tudo depende de como você se adapta à rotina de viagem. Foi importante para nossa transição de estilo de vida. Já era um baque imenso ter deixado de viver entre quatro paredes de concreto e passar a viver dentro de uma tenda de pano.

Itens substituídos:

2. Espiriteira a álcool X fogareiro multicombustível MSR (presente de um amigo no terceiro dia de viagem, doamos a espiriteira a outro amigo que nos acompanhou nestes primeiros dias)

04. Garrafa de álcool X garrafa de alumínio MSR + bomba de pressão

05. Leiteira X Jarra de suco plástica

06. Panela fundo duplo inox X leiteira de inox Made in Índia. Nossa antiga panela pesava quase 1kg, pois foi a única de inox que encontramos, e tinha fundo duplo. Em um supermercado do Chile, encontramos uma leiteira de inox gigante, que pesa apenas 300g e custou R$10. Claro que queimamos algum arroz, pelo fato da panela ser muito mais fina, mas nada que uma mudança de maneira de preparo não desse jeito.

08. Pratos de inox X pratos de plástico. Os pratos de Inox pesavam 100g cada. Substituímos por plásticos de 40g cada, pois descobrimos que usávamos mais para cortar vegetais do que para comidas muito quentes. Para refeições quentes, poderíamos simplesmente usar as canecas mesmo.

09. Assadeira teflon X frigideira mini (Usamos por muito tempo a assadeira, mas não com tanta frequência, era difícil de acomodar nas bagagem)

10. e 11. Potes herméticos para guardar comida X potes genéricos menores que cabe dentro da caneca (11 e 12 logo se quebraram por descuido e eram difíceis de acomodar na bagagem)

21, 22 e 23, Talheres. Conforme íamos passando por campings e hostels, buscávamos talheres mais leves e práticos de lavar que os nossos e propúnhamos uma permuta, deixávamos nossos pesados talheres com cabo de plástico, por outros mais simples e mais leves inteiros de metal. Os de plástico Sea to Summit eram bons e leves, mas com o tempo foram quebrando. A faquinha de madeira, perdemos e a colher de madeira doamos.

17. Saleiro. Grande demais, fomos substituindo conforme a região. Onde era mais fácil ter gente, era preciso carregar menos sal. Então com um pote menor, íamos comprando pequenas quantidades em padarias e restaurantes, muitas vezes nos davam sem cobrar.

30. Cabo universal. Substituímos por um melhor que encontramos em um camping. (Antes nos certificamos que não tinha dono, claro!)

Eliminados:

12. Ralador fino com fatiador. Pesado demais e uso muito específico, raramente usado.

15. Balde dobrável Sea to Summit: era útil e compacto, mas não se sustenta em pé, inúmeras vezes perdemos água por ele se desarmar. Ficamos com raiva dele e o trocamos por uma garrafa de água de 5L cortada ao meio.

16. “Língua artificial”. Depois de intenso uso, o silicone derreteu e impossibilitou continuar usando. Já havia sido presente de outros cicloviajantes que hospedamos. Deve ter durado uns 5 anos no mínimo. Faz falta, porque economiza muita água na hora de lavar a louça, as vezes até dispensa a lavagem.

Itens que permaneceram:

Os itens 1/3/7/13/18/20/27/28/ da primeira foto.

Agora veja como ficou nossa cozinha:

01. Panela de Inox (300g)

02. Pratos de plástico (40g cada)

03. Duas Canecas 500 ml cada e Pote plástico que encaixa

As tampas plástica de potes genéricos serviram bem certinho nelas, o que possibilita guardar alimentos já cozidos para o dia seguinte. Encontramos um pote plástico que inclusive cabe exato dentro de uma das canecas, aumentando nossa capacidade de armazenagem.

04. Jarrinha de suco

Auxilia muito quando preparamos mais alimentos, uma salada, ou para quando preparamos um suco. Usamos com muita frequência. Cabe dentro de nossa panela.

05. Mini Frigideira de teflon

Depois que entramos no Brasil outra vez, ela foi fundamental no preparo das tapiocas e arepas. Além de ser um prato extra.

06. Peneira adaptada

Removemos o cabo de uma peneira de metal e adaptamos uns ganchinhos para que possa ficar pendurada no topo da panela. Assim podemos cozinhar arroz e um cuscus ao mesmo tempo, ou ainda vegetais ao vapor. Também encaixa certinho na jarrinha plástica, o que facilita peneiragem da goma de tapioca.

07. Descascador de cenoura

Somos comilões de cenoura, usamos este descascador intensamente desde o começo da viagem. Praticidade, alimentos podem ser descascados rapidamente.

08. Colher de Madeira

09. Duas colheres de sopa

10. Dois Garfos

11. Duas facas de serra

12. Coador pequeno

Usamos diariamente para coar café, chás e fazer limonada.

13. Raspador de coco (manual) R$3 e pesa quase nada.

Desde que entramos no Brasil, principalmente no Nordeste, este item se revelou indispensável. Há tanto coco seco pela estrada, que chega a ser um desperdício.

14. Cabo universal

15. Saleiro pequeno

16. Contêiner de azeite

Uma garrafa PET pequena com bico dosador.

17. Saquinho Zip Loc para Temperos

Reaproveitado de uma embalagem de azeitonas, guardamos dentro dele outros saquinhos menores com nossos temperos favoritos.
Já testamos embalagens de balas “tictac”, mas estavam a passar umidade para os temperos mesmo os potinhos dentro de outro saco plástico, o que fazia mofar com facilidade as pimentas e murchar orégano e manjericão desidratados.

18. Garrafa de combustível MSR com bomba de pressão.

19. Isqueiro

20. Fogareiro

Adaptamos uma nova base para o fogareiro MSR DragonFly, para ficar mais leve já que a original devia aguentar uma panela de uns 20kg. Removemos o suporte dele e fizemos uma nova base com fundo de latinhas. Na imagem abaixo você tem uma ideia de como era antes nossa base do fogareiro e o tripé para panela.

21. Tripé com raios de bicicleta e pedaços de antena de tevê

Após remover a base original do fogareiro, que era robusta demais e pesada, adaptamos um tripé com raios de bicicleta, modelo que já usávamos no nosso antigo sistema de cozinha com espiriteira a álcool. Agora 100g gramas mais leve e também com 1/3 do volume original do fogareiro;

22. Aparador de vento MSR (original)

Basta mantê-lo guardado sempre enrolado ao redor da garrafa, e evitar dobrá-lo que ele não se estragará. Veja nas fotos seguintes como guardamos o fogareiro.

23. Embalagem de pano do Fogareiro (sem a garrafa)

24. Ralador

Esqueci de colocar na foto, mas é nosso antigo ralador (está na primeira foto), apenas cortamos fora a parte do topo que não usávamos muito, e ficou com menos da metade do tamanho (cerca de 8x8cm) Muito leve e usado com muita frequência.

25. Coador de pano

Não pesa quase nada e ajuda muito em preparações de sucos, principalmente suco de melancia.

 

Empacotando a Cozinha nos Alforges

Fogareiros multicombustível são mesmo muito práticos, mas exigem cuidadosa manutenção. Além disso, o fato de remover e recolocar a bomba de pressão toda vez que irá cozinhar pode ser chato, além de deixar cheiro do combustível em suas mãos. Por isso adotamos um método, depois deste um ano e meio de uso: Mantemos sempre a bomba junto da garrafa, separamos somente o fogareiro (dispersor, mangueira e regulador).

Mas as bombas destes fogareiros são muito fáceis de se danificar, caso você deixe cair ou manuseie sem cuidado, por isso ajudamos a proteger a bomba com o próprio aparador de vento, enrolado ao redor da garrafa e preso com uma tira de câmara de bike. No espaço que sobra, colocamos isqueiro, um trapinho, fósforos e a bisnaga de óleo. Para fechar e proteger a bomba de chuva, poeira e impactos, usamos uma embalagem plástica cortada ao meio como tampa. Assim podemos levar Garrafa de combustível e bomba juntas num dos suportes de garrafa do quadro da bicicleta. Isso evita que possíveis vazamentos impregnem no restante de seu equipamento, principalmente importante estar longe de seus alimentos.

Já a outra parte do conjunto (dispersor de chama, regulador e mangueira), são levados dentro da embalagem de tecido, e posteriormente dentro da panela, junto com saleiro, pote de óleo, temperos, e peneira metálica (eventualmente até a jarrinha plástica vai dentro da panela junto com tudo isso).

Os talheres levamos em uma outra sacola de pano, com fundo de garrafa plástica para evitar que as facas danifiquem a sacola e outros equipamentos com a trepidação da estrada.

Pratos e frigideira são levados próximo à placa do alforge, de maneira que fiquem bem justos e não gerem atrito por trepidação em outros equipamentos.

Deve-se dar atenção ao estrago que objetos da cozinha podem gerar em outros equipamentos que vão junto dentro dos alforges. Quando se percorre muita estrada de terra, a trepidação pode causar desgastes feios em equipamentos importantes. Por exemplo, caso um saco estanque com roupas dentro, fique em contato com a beirada de um prato, com a trepidação um inocente prato plástico é capaz de gerar um furo em seu saco estanque, e com a chuva a água penetrará. Seria uma situação bem desagradável chegar ao final de um dia de viagem e ter que dormir com roupas molhadas, sobretudo se o clima for frio.

Gambiarras e novas adaptações:

Jeitos para tornar possível quase tudo em com sua cozinha ultra portátil

Na foto abaixo, um dos usos da peneira metálica, já sustentada na panela por ganchinhos feitos de arame. Neste sistema é possível ferver uma água para um chá e ao mesmo tempo cozinhar ao vapor um cuscus para o café da manhã. Ainda é possível preparar um arroz e ao mesmo tempo cozinhar vegetais ao vapor para o seu almoço ou jantar. Isso torna possível uma economia ainda maior de combustível, e também poupa desgaste do fogareiro, já que o utilizará por menos tempo do que se cozinhasse duas coisas em separadamente.


Peneiras metálicas são fáceis de encontrar em lojas de utensílios para cozinha, escolhemos uma que tivesse diâmetro pouco menor que o de nossa panela. Removemos o cabo e reforçamos as bordas da trama metálica. Não tente isso com peneiras de trama plástica, com a temperatura alta derretem. Facilita o fato de nossa panela ser alta.

A primeira postagem que fizemos sobre nossa cozinha, foi esta aqui, confira! De 29 nove itens, diminuímos para 23. Não foi uma diminuição numérica considerável, mas em relação a volume e peso com certeza tivemos muita diferença.

E aí, como é a sua cozinha de viagem?

Precisa de mais idéias para montar sua cozinha de cicloviajante, conheça alguns produtos que podem te ajudar em nossa Loja Virtual.

Amazônia Peruana

Este post é um tanto longo. Mas acho que a despedida das terras Peruanas merece, ainda mais porque finalmente chegamos à floresta Amazônica, nossa emoção é grande! Além do mais, serão nossos últimos quilômetros por este país que nos acolheu por mais de 3 meses. Também não esperávamos ter tantos acontecimentos nos aguardando neste trajeto que deveríamos cumprir em poucos dias, mas que acabou se estendendo. Vamos descer essa ladeira com a gente? Bóra! Opa, pera aí, deixa só conferir os freios aqui. Certo, vamos lá!

A descida de aproximadamente 100km foi uma delícia, dos 4.725 msnm até próximo dos 600 msnm, sempre suave o suficiente pra ser preciso frear só nas curvas mais fechadas. Mas o começo estava frio, com nevoeiro denso e úmido quase como um chuvisco, um borrifador nas mãos de Deus. Tivemos que parar a certo ponto e colocar meias nas mãos, por cima das luvas, pra evitar congelar os dedos. Nada de ver a floresta amazônica até o horizonte! Só nuvem, nuvem, nuvem…Passamos pelo povoado de Marcapata no meio da descida, e compramos alguma coisa pra lanchar, sabe aquela maravilha de pão do mês passado com geleia de morango, só pra enganar até chegar na selva, onde esperaríamos encontrar uma multicolorida feira cheia de frutas e verduras de verdade.

A paisagem mudou rapidamente, deste pasto seco e dourado da alta montanha para florestas verdejantes e musgosas, muita umidade, montanhas ainda incrivelmente altas e íngremes, muitos rios, cachoeiras e nascentes. Lembrava um pouco a Carretera Austral, no sul do Chile, misturado com Vale Sagrado peruano, pois ainda estávamos a certa altitude, talvez 2 mil metros ou menos, mas a umidade que vinha da selva fazia a paisagem ser diferente de qualquer outra que estivemos antes no Perú na mesma altitude. A descida segue no asfalto novo e liso, um perigo para pneus lisos demais! Aos poucos a névoa e o chuvisco deram lugar para uma chuva forte. Paramos numa casinha que exibia bananas aos montes na varanda. Já havíamos passado por grandes quantidades de bananeiras, então é óbvio que aqueles ali deviam ser do quintal mesmo, o melhor produto você sempre consegue direto com o produtor. Que delícia! Comemos umas 8 bananas cada um, ali sentados na varandinha da tia que vendia, esperando um pouco a chuva diminuir.Ali fomos informados que havia uma paralisação na estrada logo mais abaixo, e que não estavam passando veículos depois do Povoado de Quincemil, e o bloqueio se estendia até Puerto Maldonado por tempo indeterminado. Ficamos um pouco apreensivos mas não tinha o que fazer, afinal, já tínhamos descido metade da elevação, e não havia nenhuma possibilidade de voltarmos pedalando até Cusco,na-na-na-na-não! Então seguimos. Deixamos pra decidir o que fazer quando chegássemos mais perto.

Desce, desce desce, e logo a temperatura aumentou muito, sinal de que já estávamos bem baixo, e seria a última vez que usaríamos aquela carcaça de roupa de frio. Tiramos todo o miolo de roupas e ficamos só com a primeira camada e a capa de chuva. Que agonia! Que alívio! Encontramos um pedágio e paramos ali pra fazer um lanche debaixo de um teto, fora da chuva. Pensamos em acampar por ali, havia muita grama, e também com a intenção de economizar uma hospedagem na cidade. Fomos falar com o policial que estava ali e ele disse que não podíamos acampar ali, além do mais seria impossível que nos deixassem passar na Paralisação dos Mineiros, e que eles eram violentos e poderiam nos fazer mal, por sermos turistas, sequestros, violência física e estupros eram uma situação fácil de ocorrer na cabeça do policial. Falou que era melhor voltarmos pra Cusco. O quê?!  Tá lesado homem?! Pronto, tchau, tamo indo ali voltar os 100km subida acima, de volta aos 4700 metros e depois até Cusco, pra daí a greve terminar e a gente voltar pro Brasil de busão. Isso, ótima idéia, aham…

Ficamos um tempo ali com mapas na mão tentando encontrar uma outra solução, tentando pensar que o cara tava exagerando nos perigos, que não fosse preciso passar pela confusão, que esse negócio de violência com turistas é só terrorismo do policial, coisa de quem assiste televisão de mais. Mas as únicas opções eram ou voltar a Cusco, ou seguir adiante, até porque para entrar pelo Brasil via Bolívia, deveríamos necessariamente passar pelo bloqueio. Voltar a Cusco de carona ou de ônibus não era uma opção para nós. Pedalando então? Há! Mesmo sem dinheiro, preferiríamos esperar o tempo que fôsse para cruzar diretamente ao Brasil por terra, e pedalando! E a nossa única opção era seguir adiante.

Pensamos em ir até Quincemil porque ali não nos deixaram acampar. Na polícia do povoado nos disseram notícias totalmente diferentes.Olha como mudam as perspectivas! Falaram que os mineiros em greve nos deixariam passar sim, que o movimento só era violento entre policiais e mineiros, quando acontecia alguma repressão por parte dos militares, e que só seria preciso passar pelas barreiras carregando as bicicletas em alguns trechos. Com esta segunda opinião, fomos percebendo que conforme mais perto chegávamos do “problema”, menos grave ele nos parecia. O que comprova que o “telefone sem fio” só faz é aumentar a história. Ainda assim, caso não nos deixassem passar, só teríamos dinheiro para comprar comida para 3 ou 4 dias, e nos povoados anteriores a Puerto Maldonado não há nenhuma maneira de tirar dinheiro usando a varinha de condão magnética. Como diz meu irmão, “Se nada der certo viro Hippie!”, o plano B seria tentar trocar por comida por algum serviço tipo lavar pratos, cortar a grama, vender pulseirinha pros turistas presos na cidadezinha minúscula por conta do bloqueio. Só que não vi nenhum gramado na cidade, e nenhum turista. Talvez nosso destino vai ser lavar os pratos mesmo…

Decidimos procurar uma hospedagem por ali, mas foi difícil. Entre nossa meia dúzia de opções, algumas hospedagens estavam lotadas por pessoas esperando a paralisação encerrar, outra cara demais, uma ou duas não fizeram questão de nos atender, e uma última me fazia ter uma vontade louca de armar a barraca no meio da pracinha da cidade. Então compramos algo pra cozinhar e para café da manhã e seguimos pela estrada saindo da cidade, tentando achar alguma propriedade rural e pedir pra acampar. Mas saindo do povoado só o que tinha era boate/casa de prostituição (ou suspeitas disso) e mato.

Acabamos encontrando uma entrada que ia em direção ao rio, pensamos ser um acesso para quem vai pescar no rio e fomos até lá pra ver se era possível acampar. A estrada parecia bem precária e pouco usada, só que não!  Encontramos um lugar plano, resquício da construção da estrada de asfalto, mas devido a chuva daquele dia, estava bastante alagado e úmido. Era só pisar que o pé afundava bonito na terra. Mesmo assim decidimos ficar por ali. Não havíamos visto nenhuma casa por perto e ninguém passando, apesar de termos verificado que a entrada na verdade era uma estrada que continuava seguindo. Quando já havíamos tomado um banho com a água de um pequeno arroio que passava, íamos montando a barraca quando ouvimos barulho e luz de motocicleta, pois já entardecia e a noite chegava. Por cinco minutos nos pegariam pelados por aqui! Sorte viu!

Passaram ainda duas pessoas caminhando, uma se deteve primeiro assim que nos viu e falou algo que não entendemos com o outro cara. André achou melhor ir lá e conversar, vai que era terreno de alguém? Mas eram só trabalhadores da estrada que estavam voltando pra casa do trabalho. Um deles falou que ali era perigoso, porque era lugar “silencioso” e não havia ninguém por perto, que o melhor era acampar na praça do povoado. Já o segundo falou que o lugar era tranquilo. Decidimos arriscar e ficar por ali mesmo, até porque no povoado acampando na praça viraríamos atração turística. Queríamos dormir sossegados, com silêncio e calma, apesar do risco de algo acontecer e ninguém nos ouvir. Mas, torcemos pra dar tudo certo. Tem sido sempre essa emoção no Peru, uma sensação de perigo na medida certa pra nos deixar alertas.

Foi então que percebemos que o local não era nada silencioso, conforme o trabalhador antes havia dito. Muito longe disso. Foi chegar a escuridão que o barulho começou. Queríamos dormir mas ouvíamos uma verdadeira algazarra. Eram grilos, aves e sapos, fazendo uma baderna fenomenal pra aquela hora da madrugada. Essa orgia barulhenta das aves principalmente em plenas seis horas da tarde era um absurdo. Mas pra nós, um absurdo delicioso, fazia tanto tempo que não dormíamos embalados aos sons da natureza. Será que eles queriam nos dizer alguma coisa? Só sei que todo aquele barulho nos acalmou. E ver todos aqueles vagalumes agitados, parecendo aumentar o tamanho do céu e a quantidade de estrelas, um bom truque pra nos fazer acreditar que tava tudo sob controle d’Ele lá em cima. Também, numa hora dessas, só é preciso confiar, agradecer e ter coragem pra fechar os olhos.

No altiplano só há o ruído do vento e da chuva, ou de algum riacho que passe perto de onde se acampa. Nunca lembro de ter ouvido grilos, jacus ou coisa parecida nas altitudes, desde Salta, na Argentina, que entramos na altitude. Os únicos animais que embalavam (ou estragavam) nosso sono há mais de um ano eram os animais domésticos, como cães principalmente, latindo sem razão aparente no meio da madrugada, ou os galos a nos acordar em pleas três horas da manhã, ou ainda gatos brigando, com aquele ruído detestável. Então essa noite foi um deleite pra nós. Apesar de estarmos com receio do local onde acampávamos, e de termos medo da terrível selva peruana e seus habitantes humanos, dormimos bem. Floresta, como és linda!

Ah, o calor! É possível sair da barraca sem cerimônia e sem bater de dentes em plenas cinco horas da manhã, hora que aliás, já está dia claro. Mas aqui se acorda antes, os pássaros nos despertaram muito antes de clarear o dia! Tomamos nosso café da manhã e desmontamos acampamento. Precisávamos lavar as roupas e fomos ao pequeno arroio munidos de nosso balde de plástico, feito de uma embalagem de galão de água. Os grilos tinham razão, a noite foi tranquila, estávamos seguros! Acabamos começando a pedalar quando o sol já estava forte, oito horas da manhã. Que verão! Estamos mesmo desacostumados com o suor, o calor úmido da floresta. Tivemos ainda algumas sofridas subidas, que nos faziam transpirar em cem por cento de nossos poros. A temperatura era absurda, ai minha bunda! E ainda não eram nem nove horas da manhã, o que o dia reservava pra nós! Tivemos ainda muitas descidas pra nossa sorte, e chegamos numa ponte onde nos avisaram que estaria a polícia de prontidão e dali para frente era área dominada pelos grevistas mineiros.

Falamos com os policiais e não fizeram nenhuma menção de nos impedir de passar. O confito estaria mais a frente em Mazuco. Fizemos diversas paradas em pequenas fontes de água que brotavam das pedras na beira da estrada, éramos obrigados a nos refrescar a cada pouco, o calor era forte demais e nos deixava meio tontos, zonzos e molengas. Molhamos as roupas depois de botar a cabeça debaixo da água várias vezes. Chegamos na ponte do conflito, logo antes da entrada da cidadezinha de Mazuco. O local estava visivelmente bagunçado mas ninguém impediu nossa passagem, e fomos pedalando como se não soubéssemos de nada, como se nem estivéssemos reparando no caos ao redor, tentando transparecer normalidade, nem olhando para os lados, não encarando ninguém nos olhos, não cumprimentando ninguém com um “boa tarde”.

Haviam muitas pessoas por todo lado, nenhuma delas ocupda, estavam todas ali só olhando o movimento. Só homens. Mais a frente, muitas camionetes de polícia, cheias de policiais até na garupa, boinas vermelhas, uniformes, armas em punho a desfilar nas ruas da cidade. Medo! Os grevistas só olhando pra gente sentados nas calçadas. No centro da cidade, lojas fechadas e muito lixo nas ruas vazias de veículos, cheias de homens parados, observando e alguns fazendo piadas que não compreendi, mas que vinham para nós, algumas palavras de mal gosto. Tapamos os ouvidos com pálpebras auditivas imaginárias, concentramos o olhar no chão, para evitar o máximo passar sobre algum objeto cortante, como se isso fosse mesmo possível de se evitar. Mas ninguém nos impediu de passar.

Depois do centro de Mazuco, a saída da cidade parecia um pós-guerra, cacos de vidro pela estrada inteira, pneus queimados, pedras espalhadas pelo asfalto pra dificultar quem tentasse passar até mesmo pelo acostamento e grama do canteiro. Mas pra nós nenhum problema. Os pneus aguentaram bem os maus tratos e não furaram nos deixando na mão no meio daquela bagunça de Mazuco. Nossa idéia era sair o mais rápido possível de perto dali. Estávamos tensos e com medo, porque os conflitos com mineiros continuariam nos próximos quilômetros e não sabíamos mais quanto. Pensávamos que seria pouco. Já era final da tarde.

Passamos por uma comunidade indígena e vimos que tinham uma mercearia pequena na casa do lado. Precisávamos de algo pra janta, paramos ali e perguntamos da possibilidade de acampar dentro da propriedade deles, vimos o gramado imenso, também estávamos com receio de continuar devido à greve dos mineiros e encontrar algum bloqueio no próximo povoado.  A moça com traços indígenas nos disse que estava construindo uma casa nova, e que ainda estava vazia e sem porta e poderíamos ficar lá à noite, ao menos se chovesse nos abrigaria melhor. Era mais do que queríamos, então agradecemos muito e encomendamos umas mandiocas cozidas, nosso combustível estava no fim e eles ofereceram pra vender, então aceitamos o menu do dia. Nos trouxeram mandiocas do quintal recém colhidas e cozidas, quentinhas! Ainda nos deram dois mamões imensos do quintal. Dormimos num lugar abrigado e tranquilo, tomamos um banho de lencinho mas foi suficiente pra dormir bem. Até havia um rio, mas só poderíamos ir quando o pessoal que estava lá terminasse o banho. Todos na comunidade (ou seria tribo?) tomam banho no riacho, nada de chuveiros. Esperamos mas a noite já caía e não quisemos ir naquele breu, bateu medinho do escuro, hehehe.

Para nossa sorte estávamos sob um teto, porque a noite choveu muito forte. O barulho da chuva do teto foi uma delícia pra dormir e acalmar os nervos. Tentamos sair o mais cedo possível no dia seguinte, mas ainda estávamos nos adaptando a essa rotina de acordar cedo. Em climas frios isso não era problema, já que o sol só nos descongelava mais tarde. Mas aqui o horário próximo ao meio dia seria difícil demais, melhor aproveitar o frescor da manhã. Durante a manhã a pedalada seguia agradável e fresca, mas logo tivemos que encarar uma subida para a Serra Santa Rosa, onde descobrimos que havia mais manifestantes. Umas pessoas que passavam nos disseram pra tomar cuidado porque eles nos apedrejariam se tentássemos seguir pelo bloqueio, mas que fazer? Então seguimos, cautelosos, mas seguimos. Não havia segunda opção.

Passamos por um grupo de pessoas que tinha pedras na mão, estavam com caras fechadas e não responderam ao nosso “bom dia”. Ficamos com medo após passar por eles, porque ainda poderiam nos atirar as pedras pelas costas, à distância. O espelho retrovisor me deixou mais tranquila, porque pude observar seus movimentos sem que eles percebessem uma virada de pescoço, sinal visível de minha desconfiança. Mas apesar das caras pouco amigáveis, nada fizeram contra nós. Mais à frente um outro grupo subia a pé e sumia na próxima curva. Esperamos eles terminarem a subida, com medo que fossem outro grupo com pedras nas mãos. Mas depois vimos que eram pessoas que não estavam tendo transporte que se deslocavam a pé na esperança de conseguir um moto-taxi no próximo vilarejo, deveriam estar em algum ônibus barrado pelos obstáculos. Neste trecho de subida e descida da Serrinha haviam muitas árvores derrubadas e pedras por todo o caminho, sem intervalos pedaláveis, e mesmo de bicicleta os obstáculos eram difíceis de transpor. Muitas vezes tivemos que carregar a bicicleta por cima de troncos e pilhas de árvores grandes em série. O resultado é que o dia rendeu poucos quilômetros. No topo da serrinha, havia um grande grupo de grevistas, mas foram bem amigáveis e todos nos saudaram alegres e desejavam boa viagem. A descida da serrinha foi lenta, a cada 100 metros algum obstáculo para vencer.

O calor era forte, mas para nossa sorte nublou e choveu. Depois de alguns pontos tivemos áreas mais vazias, onde foi possível pedalar e avançar um pouco mais. Passamos também por um acampamento de mineiros que recém cortavam novas árvores. Um povoado que mais parecia um acampamento provisório de mineiros foi bem feio de passar. Eram barracos feitos de madeira e cobertos com lonas azuis, muitas hospedagens eram claramente bordéis maquiados, o local era feito praticamente de palafitas porque a área era alagadiça, e o lixo boiava nas valetas cheias de água por toda a “cidade”. O mal cheiro era não só notável, como impregnante. Na estrada, além dos cacos de vidro e sujeira,  motos pra todos os lados, uma barulheira. Tratamos de passar rápido por ali. Como conseguem viver nessas condições?

Depois desse lugar digno de filme de terror, uma estrada limpa! Como pode?  Depois de tantas ávores derrubadas, muitas pontes com guard-rails soldados fixos à mureta para que nem tanque de guerra passasse? Começamos a ver fazendas de gado, e logo apareceu um povoado mais tranquilo com casas normais, e logo outro, onde paramos comprar algo pra cozinhar na janta. Nisso vimos um campo de futebol com uma grama convidativa, e o povoado parecia bem tranquilo, já de longe melhor ambiente que o acampamento de mineiros. Fomos até o local e vimos que era uma escola. Pra nossa sorte a professora estava lá ainda. Era sexta feira e ela estava voltando pra Porto Maldonado de moto e nos deixou acampar por ali e até ofereceu a ducha da escola. Perfeito, depois de todo esse calor e mais de 80km carregando a bicicleta por cima de árvores derrubadas na pista, ganhamos esse presente!

O local se chama Unión Progresso, e  devido à chuva da madrugada, e persistente pela manhã, decidimos esperar. Conversando com umas crianças que circulavam a barraca curiosas, descobrimos que desde ali já não havia cidades de mineiros, eram somente fazendas de gado e famílias que plantam roça para subsitência. A tensão já estava longe de nós, pois os fazendeiros não facilitam aos mineiros fazer bloqueios por ali,  não permitem o corte das árvores das margens da estrada em suas terras, então só resta aos mineiros bloquear com pedras, o que dá muito mais trabalho e tempo, dificultando esse tipo de bloqueio não seguiu mais por muitos quilômetros.

Como os dias anteriores foram duros e não fazíamos um dia de descanso desde Cusco, achamos melhor ficar por ali, um lugar tranquilo. A tarde muitas crianças chegavam perto curiosas, olhões arregalados, e ficamos batendo papo com elas, matando algumas curiosidades engraçadas de criança. Rimos muito quando elas perguntavam sobre porque éramos tão brancos e se nossos cabelos eram naturais ou perucas, porque eram encaracolados, e o de todo mundo no povoado era liso e suas peles mais morenas. Como explicar essas coisas para crianças? Enfim um pouco de naturalidade e calor humano.

Dia seguinte, pernas recuperadas, nos organizamos para pedalar o máximo possível no começo da manhã e enfrentar os bloqueios. Mas estranhamente muitos caminhões estavam passando, um depois do outro. Então antes das 6h da manhã já estava super claro e fresco, rodas na estrada! Por conta da temperatura, não é difícil levantar acampamento em plena escuridão. Só os mosquitos castigavam nossas pernas antes do sol aparecer. Incrivelmente, nenhum bloqueio na estrada. Tudo fluiu, que maravilha. Pedalamos até as 10h30, que foi quando chegamos a Puerto Maldonado, já com 85km feitos. Arranjamos um hotelzinho com internet de frente para a praça de armas, 50 soles era o quarto, sem janelas pra rua, sem ducha quente, mas quem se importa nesse calor? Só queríamos um lugar seguro e com comunicação com o mundo, fazia mais tempo do que prevíamos desde o último contato com a família. O local estava tranquilo e decidimos fazer mais um dia de descanso, para podermos nos alimentar bem e organizar nossas coisas. Eu queria ver se recuperava-se da dor no pulso esquerdo, por conta do esforço em carregar a bicicleta por sobre as árvores derrubadas pelos grevistas, deu um mal jeito. Ficamos sabendo que no dia anterior, o exército se aproveitou da chuva intensa da madrugada para passar máquinas na estrada e remover os bloqueios.

Dia de descanso, dia de comer bem, cozinhar mais caprichado. Fomos ao mercado público comprar vegetais e frutas, mas tivemos que ir de tuc-tuc porque tava calor demais e o mercado  longe de onde ficamos hospedados. Acabamos descobrindo um restaurante vegetariano conduzido por uma família de adventistas. Estava uma delícia a comida, simples, bem temperada e barata, sopa, salada fresca e um prato com refogado de legumes, arroz, feijões e também um grande copo de leite de soja e um copinho de infusão de cevada. O local era muito humilde, mas nos surpreendeu pela deliciosa comida vegana caseira, algo bem difícil de encontrar assim ao acaso e ainda mais pagando o equivalente a seis reais por pessoa.

A tardinha compramos um vinho para comemorar nossos últimos quilômetros pelo Peru, comemorar que tudo deu certo até aqui, comemorar nossa proximidade com nossa casa, nosso país.  Fomos caminhar na agradável noite da cidade, pela praça e arredores, estava tudo movimentado e alegre, pessoas vendiam algodão doce feito na hora, balõezinhos de gás e outras porcarias. Ficamos um tempão conversando sobre a vida no banco da praça olhando o movimento intenso de pessoas usando bermudas e regatas, quanto tempo sem ver isso! Há tanto tempo estávamos em climas mais frios que nem imaginava mais que desfrutaria estar ao relento depois do cair da tarde, sem buscar o abrigo quentinho de um saco de dormir. Crianças correndo descalças e sem camisa? Que absurdo esse calor a essa hora da noite! Acho que o vinho começou a fazer efeito, hora de ir dormir!

Alegria! Sentimento ímpar de alegria. Saímos de Puerto Maldonado ao meio dia, depois de aproveitar pra tomar um banho frio, frio! Fazer um lanche no restaurante ali de baixo do hotelzinho, e usar mais um pouco a internet pra ver as altimetrias, hahaha. Que altimetria o quê?! Estamos na planície amazônica! Mesmo assim pedalamos 60km e chegamos até o povoado de Alegria, viu só, porque tanta alegria?! E estamos mesmo muito alegres porque paramos pedir pra acampar numa escola, e pra nossa surpresa tinha ducha e nos chamaram pra acampar dentro de uma sala de aulas, já que estava chovendo, foi mesmo muito bom. Além da facilidade de não molhar a barraca e não ter que tirar todas as coisas da bicicleta, ainda tem luz elétrica e no dia seguinte fica mais rápido para sair.

Então, antes do sol nascer, estrada outra vez, dia de ver o sol nascer no horizonte cheio de castanheiras solitárias nas pastagens planas. O dia foi super quente, mas tinha uma leve brisa, o que amenizava o sofrimento. Passamos por diversos povoados, e em alguns deles haviam pessoas se banhando em rios de águas negras, mas transparentes. Tentador demais! Parar, tomar um banho e ficar por ali, nada de pedal…mas e a vontade de chegar ao Brasil outra vez? Ah, essa vontade foi maior. Num povoado paramos de sopetão quando vimos um quintal cheio de castanhas do pará secando ao sol ainda com a casca. Paramos pra ver se eles vendiam, a senhorinha foi muito simpática e até deu um punhado de castanhas pra gente de graça, estavam deliciosas e pedimos o que ela poderia vender por dois soles, foi quase meio quilo! Hohohoho, estamos ricos! Castanhas cruas e frescas, que beleza, essa é a melhor forma de consumi-las!

Mais à frente uma senhorinha tinha uma banquinha vendendo refrescos em um pequeno carrinho com baldinhos coloridos de refrescos coloridos. Fofa! Paramos ali pra nos reidratar, havia um baldinho com cor de leite e outro de uma fruta estranha que já provamos, acho que no Brasil chamam Buriti, mas aqui é outro nome estranho. O branco era leite de mandioca fermentado, que memória péssima! Também esqueci como é o nome disso. Pedimos pra provar e acabamos tomando dois copaços cada um. Uma delícia! Ela explicou como faz, se cozinha a mandioca e depois tira a água do cozimento, depois esmaga a mandioca e volta a colocar em água até fazer uma espuminha, retira a espuminha e põe pra refrigerar. Não entendi muito bem a parte de colocar água de novo, não sei se é a água é a do cozimento, ou se é nova água, e também por quanto tempo se deixa fermentar, mas com certeza essa é uma bebida que vamos tentar fazer algum dia. O problema é que só depois ficamos sabendo que o que usam pra fermentar é cuspe! Saliva, baba! Éca, mas é tão saboroso! hahaha.

Aquele punhado de castanhas frescas e o leite de mandioca nos alimentaram pelo resto da tarde toda. Incrível! Aqui percebemos a população mais simpática de todo o Perú, as pessoas abanam e cumprimentam sem ficar nos chamando de gringo. Passamos por diversas plantações de mamão, bananeira e mandioca, por campos devastados para o gado e também por queimadas. Há grande quantidade de árvores iguais que são gigantescas, deixadas vivas no meio das plantações e pastagens, são castanheiras protegidas da derrubada por lei, há sempre umas plaquinhas informando isso.

Novamente, dormimos numa escola em nossa noite antes de cruzar a fronteira. Dia havia sido duro, 110km sob o sol escaldante. O meio do dia fez um calor tão absurdo, que de tão tontos e zonzos de suór, paramos pra nos banhar no único riozinho que encontramos no caminho, nem era tão limpo assim, mas precisávamos esfriar o corpo, o sol era implacável… Começo de pedal 5h30 da manhã e só fomos parar as 17h para buscar onde dormir. Em dias assim a gente diz que é dia de bater cartão, trabalho duro, quase 12 horas de trabalho. Desta vez nos recomendaram procurar uma escola em Iberia. Mas era uma grande escola e as vezes não dá certo, porque há muitas pessoas a pedir autorização. Mesmo assim o diretor, que estava lá no campo plantando grama com alunos voluntários, foi super gente fina. Ficamos acampados num fofo gramado viçoso que o pessoal vai lá em Rio Branco, no Brasil, pra comprar as sementes ou mudas, ou seja, dormindo praticamente em solo da mãe gentil. Só não foi muito bem pensado esse negócio de não chegar as altimetrias, esse negócio de que amazônia é planície com certeza é coisa de quem nunca pedalou por aqui! Hava perna nessas ladeiras, de igarapé em igarapé, esse tanto de subida e descida deve dar uma boa elevação acumulada!

Aqui em Ibéria já estamos bem pertinho de casa, falta pouco! Se tudo der certo, amanhã vamos estar no Acre! Acre-dita?! Huhuhuhuhu