Com destino a Belém

{Tucuruí a Belém}
Trajeto: Tucuruí > Goianésia do Pará > Tailândia> Belém
Distância: 370 km

09/12/13

Saímos da Chácara cedo pela manhã. A pequena cidade de Breu Branco estava a apenas 6km de lá, então foi possível passar no mercado público e comprar um belo litro de açaí recém batido para tomar como café da manhã. Abrimos o pacote, despejamos nas nossas canecas o precioso líquido, e raspamos um pouco de rapadura para adoçar a vida. Enquanto ficávamos com os dentes pretos e a boca roxa de açaí, os transeuntes nos olhavam com estranheza, alguns menos acanhados arriscavam algumas perguntas. Estávamos com fome e respondíamos em monossílabos, nossa boca estava mais preocupada em ingerir o ouro negro.

Deixando a cidade de Breu Branco e sua caprichada avenida-rodovia.

É claro que já estava quente a essa hora, a pele pipocava e a cada subida sentíamos nossas forças se esgotarem, junto com a paciência a cada caminhão que passava tirando fina e cuspindo aquela fumaça preta nas nossas caras. A estrada não tinha acostamento e estava com alguns trechos com muitos buracos. O que nos indignava era que os motoristas desviavam dos buracos e até reduziam a velocidade quando eram muitas as falhas no pavimento, mas ao passarem por nós simplesmente mantinham a trajetória e a velocidade, no máximo desviavam um pouquinho, sempre em alta velocidade.

Chegando ao entroncamento com a rodovia que nos levaria até Belém, está a cidade de Goianésia do Pará, e logo antes da entrada da cidade avistamos um destes parques de exposições e rodeio. Fomos até lá e conseguimos permissão para pernoitar. Fomos até o entroncamento com a outra rodovia para tentar comprar alguma comida, alguns vegetais e legumes frescos, mas só havia alguns restaurantes simples, mas com preços absurdos. O açaí estava com preços de cidade grande do sul/sudeste do país por ali. Sem chance! O centro da cidade ficava na direção oposta ao nosso caminho, então acabamos desistindo de procurar algo pra incrementar nosso arroz. Jantamos arroz com farinha de mandioca mesmo.

Enquanto cozinhávamos um menino de uns 7 anos de idade se aproximou, mas não muito. Tinha um olhar entristecido e estava completamente sujo. Falávamos com ele e ele não correspondia, só olhava. Ficou nos rodeando, escalando tudo que era pilar e parede, pulando pra lá e pra cá como um acrobata. Ficamos meio abobalhados de observar aquela criança. Quando o nosso arroz com farinha ficou pronto, ele veio mais perto. Perguntamos se ele queria provar e ele aceitou. A partir daí conseguimos uma brecha e vimos uns dentes brancos estampados num sorriso tímido. Começamos a falar umas abobrinhas pra ver se ele ria. Depois de um riso meio encabulado conseguimos quebrar o gelo com ele e começamos a conversar. Ele é quase o caçula, mora com a mãe e mais um punhado de irmãos, se não me falha a memória são sete ou oito irmãos, a mais velha com 19 anos, e o irmão mais novo tem 5. A mãe trabalha numa carvoaria, o pai é falecido, e a irmã mais velha é que cuida de todos eles quando a mãe está fora. Alguns irmãos também trabalham na carvoaria. Enchemos o pratinho pra ele duas vezes, ele comia com gosto e nós também. Foi sorte termos feito arroz a mais, planejávamos levar uma marmita pro almoço do dia seguinte, mas não nos faria falta porque passaríamos por algum povoado e poderíamos comprar mais comida no caminho. Foi muito gostoso este momento de conversa com aquele menino, todo sujo de tanto rolar no chão e pular pra lá e pra cá.

Quando começou a escurecer, ninguém veio chamá-lo e nem nós o avisamos pra ir pra sua casa. Ele simplesmente disse que estava tarde, ele tinha que ir para casa porque a mãe ficaria preocupada se ele voltasse no escuro. Um menino de 7 anos! Depois desta confraternização, ele até nos deu um abraço e já estava bem menos tímido, um sorriso cativante e cheio de energia.

Fomos dormir cansados e pensativos, ficamos imaginando como seria essa infância, como nós lidaríamos com isso se estivéssemos no lugar dele…

10/12/13

Como todos os dias começam na amazônia? Antes de clarear! Então lá estavam nossas rodas girando no asfalto irregular antes do sol começar a nos castigar. A estrada que pegamos agora vai completamente no sentido norte, reta! Não há acostamento e as condições do asfalto estão ainda piores que no trecho do dia anterior. O que não é de todo mal para nós, porque devido ao queijo suíço que está este asfalto, os motoristas tem de passar longos trechos muito, mas muito devagar, e o fato de ser reta e ter pouca oscilação de relevo, temos boa visibilidade pelo retrovisor, assim como os motoristas já nos vêem de longe. O lado ruim disso é que nestes longos trechos não há nenhum vestígio do que um dia foi um asfalto, e a poeira é intensa. Nunca vimos uma estrada tão ruim em toda a viagem, esta rodovia está pior que muito trecho de estrada de terra. O que nos motiva é que os motoristas nos respeitam e esperam nossa passagem. Há trechos em que só o meio da pista está transitável, é como se fosse uma rodovia de uma via só e compartilhada sem nenhum tipo de sinalização, então quem entrar primeiro tem a preferência, e o que vem no sentido contrário precisa parar, se contentar em esperar e respirar o poeirão. Não conseguimos nem fotografar, nossa tentativa de filmagem pra mostrar as condições da estrada ficou uma porcaria, era tanto buraco e trepidação que não se vê nada na imagem, e não podíamos parar e filmar ou fotografar decentemente, porque estaríamos trancando o caminho de uma fila de veículos atrás de nós, e é claro, não há acostamento!
Pretendíamos chegar até Tailândia neste dia, mas devido à lentidão dos trechos em más condições, ficamos devendo 10 km e paramos num baneário de Igarapé nas margens da estrada, no começo do povoamento próximo da cidade. O lugar não era dos mais cênicos à primeira vista, mas com o entardecer e a luz dourada, tivemos uma pintura linda emoldurada pela portinhola de nossa barraca. Realmente um presente para encerrar bem um dia de desgaste físico. É tão gratificante receber estes agrados de nossa mãezinha, Terra, obrigado por tu ser tão linda!

A Tailândia é aqui! Igarapé-balneário ao lado da estrada antes de Tailândia, pedimos pra acampar e o pôr-do-sol deu esse quadro pintado de presente.

11/12/13

Ah, este dia foi daqueles de baixar a cabeça e pedalar. Retas sem fim, paisagem de pastagens. O que até é bom pra variar um pouco e deixar mais dinâmica a viagem. A monotonia da paisagem e da estrada nos faz viajar no pensamento, meditar e conversar mais. Depois de passar pela cidade de Tailândia pegamos um bom trecho de asfalto refeito, e depois só asfalto bom até o final do dia. Pedalamos bastante hoje, pretendíamos parar mais cedo, mas o vento estava bom e aproveitamos pra fazer render um pouco mais o dia. Até porque conseguimos tomar um açaí no final da tarde, e aquela bomba de energia nos deu o gás que precisávamos. Só a parte sentante é que reclamou depois que o velocímetro começou a marcar mais números depois dos 90km. Fomos encontrar pouso numa propriedade privada, num galpãozinho onde o pessoal faz umas comemorações e eventos. No início não queriam nos deixar ficar, mas aí pedimos se poderiam nos dar água então, que iríamos seguir mais um pouco…aí até que a água vem começaram a conversar conosco e mudaram de ideia. Convidaram então a ficarmos e aceitamos, é claro! Com chuveirada e tudo, foi o final de dia que precisávamos!

Depois de Goianésia do Pará, só estrada plana e sem acostamento. Muitos caminhões e trechos com pavimento em péssimo estado.

12/12/13

Dada a quilometragem que vínhamos fazendo nos últimos dias, estimamos que levaríamos mais dois dias de pedal até Belém. Mas chegando no trevo antes do meio dia, descobrimos que se pegássemos uma estradinha de 20km até a balsa, pouparíamos um dia de pedal, economizaríamos uns 100km do anel que leva os veículos para Belém por terra. Mas no posto do trevo nos alertaram para os assaltos naquela estradinha. Falaram que é bastante comum um grupo de pessoas fazer sinal na estrada, como se pedindo ajuda ou carona. O grupo então assalta o motorista e leva o carro ou moto. Como estávamos de bicicleta, falaram que estaríamos ainda mais vulneráveis aos assaltantes. Ficamos pensativos e decidimos ir pela balsa mesmo, até porque consideramos que os tais assaltantes dificilmente conseguiriam fugir pedalando estas pesadas bicicletas, provavelmente nós correndo atrás deles seríamos mais rápidos. Além do que pelo anel, não haveria acostamento e o trânsito de caminhões é bem intenso. Considerando as não muito propícias opções que tínhamos, analisamos as hipóteses apresentadas a nós: melhor ficar a pé que morrer debaixo da roda de algum caminhão. Ficamos com a hipótese menos pior, possibilidade de perder bens materiais… Após um descanso no salão da igreja, almoçamos uma lata de milho em conserva com tomate e farinha de mandioca. De barriga cheia pensamos melhor, provavelmente estão exagerando com essa história de assalto. Vamos pegar a estradinha logo, porque uma nuvem bem pesada se aproxima, é capaz de nos fazer desisitir de seguir hoje, a igrejinha estava convidativa pra um acampamento e estávamos bem cansados.

O mais legal até agora foi encontrar um punhado de banquinhas que vende açaí pronto pra consumirmos. Eles batem na hora e até podemos ver o processo ao vivo. Além de ter um produto fresco e recém feito, é barato. Chegamos a encontrar o litro por 4 reais, e água de côco por 1 real! Pedalamos o dia inteiro na base de açaí com farinha e água de côco. Quase um detox em plena estrada!

No meio do caminho da estradinha, estávamos tensos com as histórias dos assaltantes, aí caiu uma chuvarada intensa, daquelas de fazer a estrada parecer um rio. Estava um calorão então foi uma delícia. Neste dia vi uma das cenas mais lindas da viagem. A mãe pedalava uma bicicleta cargueira levando um filho na frente e o outro atrás, foi buscá-los na escola. A chuva caia forte e era uma descida gostosa, as crianças estavam se divertindo muito debaixo daquela chuva. Passamos por eles e abanamos, todos retribuiram abanando efusivamente e gritando muito alegres. Ah, como eu queria ter filmado essa cena! Foi memorável! Por conta da chuva todas as câmeras estavam embrulhadas em trocentos sacos plásticos e capas, eu acabaria perdendo o lindo momento se tentasse desembrulhar a câmera. Foi tão gostoso ver aquela família se divertindo como nós, uma bela descida debaixo da chuva em um dia tão quente, ah, esquecemos aquela história de assaltantes! Pedalamos forte e empolgados debaixo da chuva e passou tão rápido que, em meio a uma estradinha bordeada de floresta e açaizais, chegamos num pequeno vilarejo onde está o porto para a balsa. Esperamos uma meia hora por ali, molhados e cheios de fome. Conversamos com um vigia enquanto esperávamos. Nos falou pra ficarmos espertos com um grupo de crianças que rodeava as bicicletas, pois alguns deles são já conhecidos por pequenos furtos. Ah, de novo essa história de ladrão! Ficamos impacientes, tudo bem eles quererem nos alertar sobre isso, mas chega a ser um pouco forçado. Saímos de perto do tal vigia. Ficar ouvindo notícia ruim só atrai coisa ruim. O que vimos o dia inteiro foi só coisa boa, porque as pessoas se apegam tanto em notícia ruim?!

Só o que podíamos comprar era mais um litro de açaí, o terceiro do dia, e um quilo de farinha d’água pra acompanhar. Todo o restante que vendiam por ali era superfaturado. Então este foi o dia que mais tomamos açaí, um pela manhã, outro no lanche do meio da manhã, e outro no final da tarde, 1,5L para cada um, e dele puro, sem misturas! Nos sentíamos muito elétricos, bem dispostos e fortes apesar de termos pedalado 105km até ali e ainda não ter conseguido entrar em contato com o ciclista que havia nos convidado para ir até Belém.

André conseguiu usar um telefone na escola, já que lá não havia internet e nosso celular não tinha sinal pra enviar um sms. Então conseguimos enviar a mensagem, mas não pudemos receber a resposta. A balsa chegou e embarcamos. Quando a cidade se aproximava conseguimos sinal e enviamos nova mensagem, que prontamente foi respondida pelo Luiz Paulo!

Chegada em Belém, Lupa já nos aguardava com a câmera a postos! Foto: Luiz Paulo Jacob

Fomos recebidos com tanto carinho pelo Luiz Paulo, que veio pedalando na chuva nos buscar! Fomos direto para o apartamento de um amigo do Lupa, o Robinson, que tinha este espaço desocupado para nos acolher. Foi como estar num apart-hotel, nos sentimos envolvidos em Luxo! Hehehe, um apartamento só para nosso descanso, perto de supermercado e do centro, tendo os melhores anfitriões da cidade.

Em Belém o Robinson tinha um cantinho esperando pela gente. Valeu amigo, pela acolhida maravilhosa e pelas pedaladas noturnas na cidade!

13/12/13

Jonise, nos levando pra conhecer os pontos históricos de Belém! Obrigada querida Jô, adoramos o passeio! Foto: Luiz Paulo Jacob

Nos dias seguintes Lupa e sua esposa Jô nos deram toda atenção! Levaram-nos a um tour pelo centro, nos mostraram os pontos turísticos e nos mostraram o paraíso gastronômico na Terra, o mercado Ver-o-Peso! Comemos jaca pela primeira vez! Uma explosão de sabores, ficamos fascinados!

Depois de muitos dias só comendo arroz, foi uma beleza estar numa cidade com mais variedade de alimentos, esse é nosso refogadão de legumes aleatórios dos dias de descanso!

Estávamos nos sentindo bem cansados e foi perfeito poder descansar em Belém. Além do descanso necessitado, estávamos a espera dos pais da Ana que estavam chegando para nos fazer a segunda visita durante a viagem. Seguiríamos com eles por alguns dias novamente de carona, percorrendo parte da região de litoral entre o Norte e o Nordeste. Enquanto esperávamos a chegada, fomos a um passeio noturno com o Lupa e o Robinson, recebemos a visita do Lauro e sua esposa, cicloturistas experientes destas bandas, e curtimos bom papo com o Lupa e a Jô!

Pedal noturno do “Corujão” com o Lupa e o Robinson. Foto: Luiz Paulo Jacob

Lauro e sua esposa, vieram nos fazer uma visita. Eles já viajaram muito de bicicleta, a última, de Belém ao Rio de Janeiro em uma Tandem. Obrigada queridos, pelas preciosas dicas para o trecho de nordeste que nos aguarda!

Também visitamos o parque Emilio Goeldi, seu museu bastante interessante e também a área ao ar livre, que é um tanto triste, porque há vários animais enjaulados e conseguimos perceber como estão malucos lá dentro. No entanto há alguns animais soltos, como as pequenas pacas e também alguns ratões de tamanho avantajado…

Fomos ao parque visitar e conhecer o museu, com as principais espécies amazônicas, mas o que o André viu nesta foto foi um ratão mesmo!

18/12/13

Com a chegada dos pais da Ana nos despedimos e agradecemos aos amigos que nos acolheram em Belém, Robinson, Lupa e Jonise, vocês são demais!
Visitamos o Ver-o-peso outra vez com os pais, até porque não seria nenhum sacrifício ir degustar aqueles sucos maravilhosos de lá. No dia seguinte visitamos o centro e partimos de viagem na carona com a família para uns dias de férias das férias, passaríamos o Natal, o Ano Novo e o aniversário da Ana junto com eles!
Vejam algumas fotos que levaremos de lembrança da linda cidade de Belém!


E então nosso reencontro com os pais da Ana, em Belém eles chegaram depois de 4 dias viajando de carro pelo interior do país.

Visitamos outra vez o mercado Ver-o-peso, desta vez como guias turísticos experientes, pois já havíamos aprendido tudo com Luiz Paulo e Jonise!

Ah, dúvida cruel, que quantidade de castanhas levar? E que tipo, crua, doce, salgada, natural…Paraíso veg!

Sonho de consumo! Ter muitas árvores de açaí onde formos sentar nossa morada futura. Compramos alguns brotos para os pais levarem a Santa Catarina.

As sementes das frutas mais deliciosas que já provamos na vida!

Ah o colorido do mercadão mais famoso do Brasil!

Arquitetura e luz de fim de tarde em Belém.

Vista da loja de sucos, num entardecer no Verópa (apelido íntimo do Ver-o-peso).

Vegetação reclamando seu espaço, na amazônia há fertilidade até nas frestas de uma velha igreja.

Grande Luiz Paulo, Lupa, em nosso abraço de despedida após a chegada dos pais da Ana. Lupa, um queridão! Nos recebeu de bike lá na Balsa quando chegamos, nos levou conhecer a cidade a pé, nos levou numa pedalada noturna com a turma, e foi como um irmão querido pra gente nestes dias em Belém! Valeu Lupa, e também muito obrigado a sua querida esposa Jô, um amor de pessoa também ela, por nos mostrarem sua cidade linda. Que vocês dois continuem estas pessoas maravilhosas que são, sempre unidos e felizes! Abraço grande.

Deixando Belém na carona do carro dos pais da Ana, flagramos o vendedor de Açaí e Bacaba voltando pra casa depois de mais um dia de vendas. Seria nossa despedida quase-difinitiva da iguaria nortista, o “Ouro Negro” da amazônia, Açaí…

Até o próximo post, galera! Obrigado por estarem viajando com a gente!

De uma hidroelétrica a outra pela Transamazônica

{Belo Monte – Tucuruí}

Trajeto: Altamira> Belo Monte do Pontal>Anapú>Pacajá>Novo Repartimento>Tucuruí: 476km

27/11/13

Chegamos em Altamira ainda antes do meio dia, tínhamos o contato de uma pessoa que nos receberia por lá. Assim que chegamos tentamos conseguir sinal, mas demorou a chegar a mensagem do nosso contato dizendo não poderia nos receber naquele dia. Decidimos então sair da cidade, no meio do caos urbano, pedindo informações sobre como sair da cidade toda bagunçada por obras viárias e civis. Um rapaz se aproximou da gente e começou a nos fazer perguntas sobre a viagem, ele também estava de bike e com um saco de açaí fresco nas mãos. Nos convidou para tomar um ali na frente, em sua bicicletaria. Como não aceitaríamos?! Conversando com ele na oficina de sua bicicletaria, contamos a história do desencontro com nosso contato. Prontamente ele ofereceu um quarto vazio da casa, ao lado da oficina, para passarmos a noite. Como já era final de tarde, aceitamos o pouso!

Pagar caro nunca mais?! WTF?! Propagandas bizarras, aliás, qualquer propaganda de funerária é bizarra! Bemvindos a Altamira!

Mais uma família que nos acolhe para uma noite segura. Valeu Geidson e família, pela hospitalidade em Altamira!

28/11/13
Geidson foi quem nos deu essa mãozinha em Altamira, e como se não bastasse a imensa ajuda em nos alojar por uma noite, começou a fazer contatos com seus amigos até encontrar pessoas que pudessem nos receber nas cidades vizinhas. Geidson faz parte da Igreja da Vinha, e nas cidades seguintes haviam sedes da Igreja e pessoas que tomavam conta do lugar. Foi assim que tivemos todo apoio de uma senhora muito amorosa e simpática no povoado de Belo Monte do Pontal, dona Zica. Após um banho de caneca no banheiro improvisado da casa, nos foi oferecido um delicioso arroz com feijão que repousava no fogão. Aceitamos com alegria aquela oferta generosa de solidariedade a nós, estes completos estranhos. Esta senhora em nenhum momento nos fez perguntas, apenas nos recebeu com um abraço apertado como se fôssemos de sua família, sem se importar com nosso estado lastimável de suor e cansaço. Abriu as portas de sua casa para nós com uma confiança inacreditável, ela nem ao menos sabe nossos nomes! Enquanto tomávamos banho e almoçávamos, ela voltou ao trabalho na escola ao lado, deixando a casa totalmente conosco. Ao final da tarde nos acomodamos entre os bancos da sede da Igreja da Vinha, e descansamos como a muitos dias não descansávamos. Pode parecer estranho que sempre paremos por volta do meio dia para pernoitar em algum lugarejo, mas é que por aqui saímos antes dos primeiros raios de sol devido ao calor intenso. A esta hora, já temos geralmente completos 3, 4 ou 5 horas de pedal, mais os intervalos de lanche e pequenos descansos. O resto da tarde usamos para recuperar as forças para conseguir nos despertar antes das 4h da manhã.

Mais bizarrices. Construção da Usina Hidroelétrica de Belo Monte, em Belo Monte do Pontal.

Árvores de metal, elas começam a dominar a paisagem nas margens da Transamazônica no Pará.

Máquinas imensas usadas nos canteiros de Obras da UHE de Belo Monte.

Repetição de máquinas, lendas e promessas não cumpridas.

O rio Xingu em sofrimento

Em Belo Monte do Pontal ouvimos os relatos de dona Zica sobre sua família que mora em uma ilha no meio do rio Xingú. Seu pai tem plantações de Cacau lá e alguns animais de criação. Eles estão para ser desalojados das terras e estão querendo indenizar R$30 para cada pé de cacau produtivo, árvores que levaram alguns anos para começar a produzir. Mas o que é mais triste não é o baixo valor da indenização, e sim o fato de terem de deixar uma terra fértil e que lhes dá sustentando, e mais que isso, que amam tanto, onde até então tinham paz e sossego, trocando tudo isso para ir viver em algum outro lugar mais distante dos familiares, pois tudo próximo da Hidroelétrica subiu astronomicamente os preços. A consequência é que membros de famílias inteiras são forçados a se separar e ir viver distante uns dos outros. O preço pago pelo progresso, pela dita energia renovável.

A casa é pequena e simples, mas o capricho e organização são um espetáculo, sem falar naquela comida boa prontinha no fogão!

Não importa o credo, a cor, a origem. Fomos bem recebidos na Igreja da Vinha.

29/11/13

Chegamos em Anapú novamente por volta do meio dia, o calor era fortíssimo e passava um vendedor de água de coco, geladíssimas. Tomamos um coco cada um em poucos segundos, tamanha a sede, e seguimos a procura de uma escola para tentarmos pouso. Já conseguimos na primeira. Nos cederam uma sala de aula que não seria usada no final de semana e conseguimos autorização para descansar um dia a mais por ali. Tínhamos sinal de wifi na escola, privacidade, só não chuveiro. Mas conseguimos um balde onde tomávamos banho e também lavamos nossas roupas. Para nós, uma hospedagem muito luxo! Antes de nos instalarmos, fomos aos mercadinhos em busca de açaí. Mas só encontramos bacaba, algo tão delicioso quanto açaí mas menos conhecido! Nos esbaldamos em dois litros de bacaba para o almoço.

30/11/13

Queríamos descansar só mais um dia, mas nos atacou a garganta, aos dois! Consequência dos açaís congelados dos dias anteriores e ajudado por aquela água de coco de ontem. Perguntamos se teria problema passarmos também o domingo a noite por aqui para estarmos mais recuperados. Hoje minha vontade era só de dormir e dormir, dores no corpo como começo de resfriado. Jura? Pegar uma dor de garganta e resfriado justo no meio da amazônia?! Parece piada depois de mais de um ano enfrentando temperaturas inferiores ao do inverno catarinense nessa viagem…

01/12/13

Suspeitamos que estamos os dois gripados ou resfriados. Então ficamos naquela preguiça, debilitados e não conseguimos fazer muitas coisas além de zapear pela internet e lavar as roupas mais urgentes. Passamos a tarde a assistir vídeos de outros ciclistas viajantes, já que não tínhamos a mínima vontade de pedalar nós mesmos. Não consegui fazer postagens para o blog, nem colocar muito conteúdo atrasado por aqui. Me sinto meio culpada por isso, porque poderia aproveitar o dia de descanso e a wifi para algo útil também. Mas quando o corpo não está se sentindo bem o cérebro não funciona direito. O melhor mesmo é repousar e deixar o corpo se recuperar sozinho tendo o seu tempo. Melhor não forçar e descansar. Por isso os relatos diários deste diário de bordo vão ficando atrasados e sendo escritos muitos dias, ou semanas, ou meses depois. Gosto de estar em um local calmo e silencioso quando escrevo nossos diários de bordo e relatos. Eu preciso estar prestando atenção ao que o coração diz a respeito de cada experiência que vamos passando, me faz bem tirar este tempo para refletir sobre o que nos passa na estrada. Assim escrevendo eu consigo revisitar as experiências que passamos e organizar algumas ideias. Mesmo tendo o dia inteiro pra pensar na vida, ainda assim me escapa a compreensão total da sequência de acontecimentos, o que tudo isso significa e representa. Mesmo o tempo passando a outro ritmo do que tínhamos quando vivíamos em meio a estudo e trabalho vivendo na cidade, as vezes a sequência dos fatos no desenrolar da viagem também meio que atropela nossa compreensão. Só sei que essa vivência está nos enriquecendo de aprendizado, desse jeito parece que vamos ficando mais tolerantes com as pessoas e com o que acontece conosco, também com nossas próprias fraquezas.

Escola de Anapú que nos acolheu por 3 noites. Sala de aula virando nosso muquifo por uns dias. A barraca é só por conta dos mosquitos que não nos deixam em paz quando a tarde cai.

02/12/13

Dia intenso, mas que rendeu pedal. Foram quase 80 km e chegamos bem perto de Pacajá.

O dia de hoje foi quente demais, tão quente que fritou meu cérebro e comecei a pensar coisas que não são bem acolhidas quando se diz na lata. Passamos por duas escolas e passamos bem perto da realidade dos estudantes rurais de nosso país.

Saímos de Anapú e pegamos grande trecho de estrada de chão e alguns pedaços de asfalto. Fomos achar um descanso quando avistamos uma escolinha fechada bem na beira da estrada. Já havíamos percorrido 50km e ganhado algumas mangas de um senhorzinho. Comíamos mamão e demos um pedaço pra ele, no ato vão de tentar retribuir à altura. Mas ele não esperava retribuição nenhuma ao oferecer aquelas mangas pra gente. Mesmo assim aceitou o pedaço de mamão, estava mesmo doce e delicioso. Na escolinha esticamos nossa rede e deitamos, pensando que estaria desativada, já que a poeira tomava conta e algumas cadeiras estavam jogadas pela varandinha. Quando já pegávamos no sono encosta o ônibus escolar e 3 crianças de uniforme descem. O que mais temíamos aconteceu e nosso cochilo de meio de dia foi pras cucuias. Mas não tem problema. Tiramos a rede e ficamos de papo com um dos meninos, mais velho que os outros. Ele muito curioso, parecia entender de bicicletas e de subir em açaizeiros, coqueiros e outras coisas da roça. Porém, depois que a professora simpática chegou, entendemos que ele é um péssimo aluno e que não gosta de estudar, porque constantemente é chamado à atenção. Como assim? Um garoto esperto e que sabe de tantas coisas… Algo está errado com a educação formal em nosso país. A decoreba impera e percebemos isso enquanto descansávamos e a aula rolava lá dentro. Decorar multiplicação e classificação de terminações verbais. Tudo isso que eu e André admitimos que já esquecemos depois do vestibular e que não faz diferença nenhuma na nossa vida hoje. Porque saber se o verbo amar é da primeira conjugação que termina com “ar”, assim como decorar, memorizar, cansar e detestar? Não sabe a professora que para ser feliz e viver não é preciso saber que estes verbos são da segunda classificação “er”? Esse jeito de ensinar coisas irrelevantes que se sistematizou na nossa sociedade. Ouvi uma das crianças dizer “Eu não quero ser doutor, fessora!”, depois de ela ter repreendido o menino por não ter respondido corretamente o que era um nome próprio e o que era um nome comum. Ninguém pode errar. Se erra leva um chingão na frente de todo mundo, humilhação pública, e se demorar a responder, pior ainda, mais cresce a tensão e a professora apressa “Anda logo Fulana, diga um verbo da terceira classificação, rápido! Não tenho o dia inteiro!”. Esse momento nos fez pensar a tarde toda. Porque as coisas tem que ser assim? Sob pressão, com tanta cobrança? Estudar é tão bom, aguçar a criatividade, porque se desvirtuou o objetivo da educação? Hoje somos formados em escolas que querem nos jogar direto para um mercado de trabalho, não passamos de um tipo de mercadoria! Porque essas crianças que respiram ar puro, fazem exercícios subindo em árvores, comem verduras frescas da horta e correm no mato, precisam ouvir que pra crescer na vida é preciso ser alguém, e ser alguém não significa ser eles mesmos, mas sim ser um doutor, um engenheiro, um dentista, um professor. Porque ser agricultor, ser feliz, estar em paz é igual a não ser ninguém e fracassar na vida. Vencer na vida é viver na cidade, ter um emprego, obedecer ordens de alguém ou obedecer ao dinheiro quando se é patrão de si mesmo, é respirar ar poluído, é reclamar do estresse, é ficar no congestionamento preso, mesmo que o carro seja novo. Uma imagem equivocadamente glamourizada de sucesso. Eu não acredito que ainda sigam esse ideal fracassado e falho de uma vida de “sucesso”. Eu quero não acreditar que seja verdade que as pessoas acreditem nisso. Mas eu estou vendo com meus próprios olhos as pessoas acreditando piamente que a realidade delas não é boa o suficiente, que o bom é o que passa na televisão, e só é verdade o que a Rede Esgoto de televisão disser que é. Porque pode faltar geladeira e ventilador, banheiro e água corrente nas casas, mas não falta televisão nos quatro cantos do país. Bom não é o que você tem, o que você vive, a sua realidade. Bom é o que você não tem, o que você deseja mas nunca terá. É isso o que a mídia televisiva transmite, e que a sociedade como um todo absorve e replica pras crianças.

A varandinha da escola onde tentamos cochilar em nossas redes, fugindo do sol do meio dia.

Mas aí quando íamos saindo de mansinho, nos despedimos da criançada e da “fessora”, mas eles pediram pra contarmos um pouco mais da viagem antes de seguirmos. Ficamos por ali mais uns 20 minutos falando de nossas andanças. A professora perguntou se Santa Catarina era no Paraná. Não pude crer, tentei disfarçar minha decepção com a simpática senhora. Justo ela, ela mesma que estava ralhando com o menino por ele não ter estudado em casa e não ter feito a tarefa, que a leitura dele estava “péssima, péssima”?! Mas pode professora não saber os Estados do seu país decoradinho? Acho que a professora faltou nessa aula, também nem havia um mapa do Brasil na sala de aula. Além do mais, o sul é tão longe daqui. Nem eu sei o nome de todas as capitais de todos os estados do Brasil, antes tão distantes de mim. Ainda bem que me coloquei nessa enrascada de ir andando pelo mapa de bicicleta e aprendendo na prática cada capital dos estados por onde passarmos, mesmo que eu tenha preferência por pequenos vilarejos, aqueles que 99,99% da população brasileira nunca ouvirá falar que existe e onde encontramos as pessoas de coração mais enorme do mundo. Nunca ouvirão falar, a não ser que uma megalomaníaca hidroelétrica se instale polemicamente nesta região, ou que uma freira bem-feitora seja assassinada, o sul do país nunca teria ouvido falar de Altamira, Anapú, Tucuruí… que dirá então de Pacajá, Rurópolis, Uruará, Novo Repartimento, Belterra, Breu Branco e Medicilândia!

Contando histórias pras crianças da escolhida nas margens da rodovia.

Seguimos caminho. Nos acolheram no final do dia na escola rural de ensino médio, que fica a 4km da cidade. Aqui os adolescentes moram por 15 dias, tem aulas pela manhã, tarde, e mais em noites alternadas. Depois ficam 15 dias em casa. Aqui aprendem também o curso técnico agropecuário. Cuidam da horta e do viveiro, limpam a escola e ajudam a cozinhar. De vez em quando fazem visitas a outras fazendas e tem mais contato com os animais introduzidos artificialmente neste clima impiedosamente quente. Enquanto montávamos nosso acampamento, devagarinho e acanhados, porque já perderam a espontaneidade da infância, vinham chegando mais perto até surgir o primeiro corajoso a perguntar, aí então o papo rola solto e perdem o medo de ser curiosos ou fazer perguntas. Depois de deixar eles perguntarem um pouco, fomos nós enchendo eles de perguntas sobre a escola. Era realmente uma escola bem interessante, e ensinava muitas coisas que eles gostavam de verdade, víamos o brilho no olhar deles, e o orgulho em estarem contando sua realidade para nós.

Hoje o dia foi cheio de novos significados pra gente. Tivemos o presentão de poder conhecer estas faces da educação em nosso país. Nem uma, nem outra com menos esforço. Em todas as duas situações pudemos ver pessoas interessadas em dar o seu melhor, mas lhes faltam algumas ferramentas e certo apoio do governo e da própria família dos alunos. Os pais devem pensar que a escola, que a cartilha, é que sabe o que seu filho deve aprender pra vida, e deixam de se envolver e percebem que agora tem uma preocupação a menos, e que na parte da tarde, ou por 15 dias, estão de férias dos filhos! Claro que nem todos os pais são assim. Muitos apreciam a companhia dos filhos, mas é que precisa ter muita paciência e muita energia pra acompanhar o ritmo da molecada. As vezes é mais fácil mesmo passar um tempo sem eles perturbando pela casa a exigir sua atenção. Não os culpo, nunca fui mãe, não sei como é isso de ter uma pessoinha cheia de energia a exigir que você brinque com ela a tarde toda, quando o que você “TEM” a fazer é mais importante, tipo deixar a casa limpa e manter a horta. É que muitos pais não envolvem a criança nestas tarefas porque não vêem a importância que é envolver a criança nestas atividades JUNTO com elas. Sim, criança tem que brincar. Mas já percebeu quantas crianças gostam de brincar com água, de lavar a louça de brinquedo, brincar de revirar a terra e se sujar as mãos, porque não fazer do dia-a-dia uma brincadeira? Imagino que elas possam se interessar se você dar atenção a elas. É claro que se você tiver uma televisão elas vão ficar sentadinhas e quietas e te deixarão em paz até o intervalo dos programas. Mas aí a coisa pode não ficar boa depois de uns anos.

03/12/13

Este dia foi chato e sem grandes acontecimentos. Só aquele esforço desumano de seguir debaixo do sol quente pela poeirenta estrada. Tivemos um começo de dia muito difícil, apesar de termos começado bem cedinho. Tivemos uma sucessão de ladeiras muito complicadas. Passamos a famosa Ladeira da Velha, uma inclinação absurda que há anos vem tentando ser amenizada com ajuda de máquinas. Muitos se acidentam ali. Passamos por um carro carbonizado no meio da estrada, uma pena não podermos fazer uma foto, porque tínhamos que sair logo daquela curva, o movimento era intenso demais. Parecia que fazia muito tempo que estava ali o carro tombado, mas depois nos contaram que tinha sido na noite anterior e que o guincho ainda não chegara para removê-lo. O local é mesmo de poeira fina que tinge nossa cara e nossas roupas. Você pisa e parece talco tinto de vermelho. Mas é terra! O perigo é grande quando somos escondidos pela densa nuvem marrom por alguns segundos. Dez e meia, encontramos um posto de gasolina, decidimos descansar ali e cozinhar um arroz. Nos lavamos e lavamos um pouco as camisetas, teríamos um pedaço de asfalto. Tinha poeira virando argila com o suor pelos nossos pescoços. Ficamos por ali um bom tempo, até julgarmos o sol menos forte. Era quase 15h e ganhamos umas mangas antes de seguir. Só conseguimos percorrer uns poucos quilômetros, não rendeu. O restante do dia não tivemos muitos acontecimentos tampouco. As vezes é assim, um dia cheio de revelações e coisas pra pensar, e outros tantos monótonos em que nada extraordinário acontece. Aliás, como na vida mesma.

André começou a limpar as correntes e…

…foi em vão. A poeira era tão fina que parecia talco. Começo das subidas antes da famosa Ladeira da Velha. Eu acho que se chama assim porque é uma velha história de que vai sair o asfalto ali, mas que há anos está somente em obras.

E o dia tava só começando!

Passamos por uma entrada de travessão, havia uns bares, paramos, comemos algumas mangas, tomamos água gelada, nos refrescamos um pouco e seguimos com a indicação de que haveria uma escolinha dali a 5km, mas que a entrada para Maracajá estava a 25km, muito mais do que nosso errôneo mapa dizia. Não chegaríamos lá hoje de qualquer maneira.

Ficamos na tal escolinha, mas descobrimos com os moradores que era agora uma igreja. Não foi possível saber de que religião. Enchemos uns baldes na casa ao lado, para tomar um banho no altar da igreja, aproveitando a água para tirar o pó encrustado do local onde pretendíamos montar nossa casinha. O local escolhido foi justamente o altar, pois por ali havia mais fluxo de ar e brisa da janela. Com dois baldes tomamos banho os dois e lavamos o chão da igreja todinha. Já fizemos nossa boa ação por nos acolherem por aqui, tiramos a poeira do chão para que no dia seguinte os fiéis usassem o local com maior tranquilidade. Isso serviu também pra refrescar um pouco o chão, já que o local pegava o sol em cheio o dia inteiro, sem nenhuma árvore ao redor para fornecer refrescante sombra. Ali dentro era uma sauna. Logo depois do banho, já estávamos suando outra vez.

04/12/13

Escuro, o despertador toca. Antes do sol nascer já estávamos na estrada. Vimos aquela bola de fogo se levantando, vermelhão no horizonte de árvores esparsadas. Mesmo com a intenção de aproveitar pedalar forte enquanto o dia ainda é fresco e temos disposição, aquela cena nos fez parar e contemplar. Mais um amanhecer na floresta amazônica que o homem insiste em depilar. Pasto, pasto e mais pasto. Somente algumas árvores de castanha e palmeiras ao longe faziam o contraste com a luz do grande astro rei, aquele que vem trazer a beleza do dia mas também o sofrimento aos ciclistas que se aventuram com bagagem e tudo o mais por estas estradas. O sol deu o seu recado, já nos passava a mensagem que hoje ele não estava pra brincadeiras. Para ficar ainda melhor, o trajeto não incluía comunidades a cada 10 ou 20km, o que nos trouxe sérias dificuldades em encontrar sombra na hora em que geralmente fazemos nossa pausa, das 11h até as 13h ou 14h. O jeito foi forçar as pernas pra chegar logo em Novo Repartimento. Chegamos por volta das 12h por lá e nos encostamos atrás de um posto de gasolina, o primeiro que vimos pela frente que oferecia uma sombra discreta para descansarmos e pensar qual seria nosso próximo passo. Ficamos um tempão por ali. Inércia. Pressão baixa. Calor demais… Só deu coragem de sair no sol novamente depois das 15h. Fomos atrás de um açaí e lugar para ficar. Começamos a procurar por escolas. Encontramos duas encostadinhas. Tarefa do André sempre entrar e conversar para conseguir alguma permissão para pernoitar por ali, enquanto eu vigio as bicis. Nada feito. Diretores ausentes.

Amanhecer na Transamazônica. Note que as árvores estão esparsadas para dar lugar às pastagens.

Varal ambulante e mangas. É só parar em frente a uma casa e pedir permissão para coletá-las do chão. Essa colheita rendeu umas belas 12 mangas pra levar pra viagem.

Um dos trechos onde se é possível ver mais densa a vegetação, muito embora predominem estas palmeiras que se utiliza a palha nos telhados das casas.

Foi então que, aproveitando mais uma sombra, desta vez no colégio, fizemos nosso lanche de açaí com rapadura. Nisso a vice-diretora, Teresa, junto com a dona Lucila, se solidarizaram do nossa carcaça sugismunda, sem eira nem beira. Dona Lucila ofereceu sua casa, seu quintal, sua cozinha, onde mais nos sentíssemos bem. Como recusar a oferta generosa de uma senhora simpática como ela? Nem pensamos muito e agradecemos, é claro que aceitamos. Lá fomos nós descendo a ladeira rumo à casa da Dona Lucila. Ela mora com a neta de 13 anos, Alice. O marido vive no sítio, onde produz cupuaçú, a 50km dali, porque as terras deles que eram mais próximas, foram compradas há anos atrás pela hidroelétrica de Tucurí, suas terras alagaram. Até hoje não foram indenizados por completo, sem falar que o sítio teve que ir pra muito longe, com acesso muito precário por uma estrada péssima da qual já tivemos o desprazer de pedalar , a “Ladeira da Velha”. Este é um difícil caminho e muito perigoso para veículos à motor. Muitos acidentes acontecem ali pela dificuldade do relevo e obras que custam a terminar. Ouvindo histórias, nos instalamos na varanda da dona Lucila, só por ser mais fresco, mas poderíamos dormir num dos quartos vazios, pois os filhos já são casados e moram em suas casas, não foi por falta de convite. Compramos uma polpa de cupuaçú que a dona Lucila faz e vende. Uma delícia de polpa artesanal, feita com as mãos e o coração. Nos sentimos como na casa de uma tia da família! Tem pessoas que tocam nosso coração e mechem com nossas emoções, tão grande a generosidade e coração aberto, a confiança, a fé e a falta de medo. São pessoas assim que estão livres para se entregar nas mãos de Deus, vivem em paz, com segurança no futuro, porque sabem que não precisam de muito, e do que precisarem Deus colocará em seu destino na hora certa. São pessoas assim que sempre tem nos acolhido de braços abertos em suas casas aqui no Norte. E isso é muito comovente, torna as despedidas na manhã seguinte muito difíceis e deixam os olhos marejados de lágrimas. Sabemos que pouco podemos fazer por eles, são amigos que muito dificilmente tornaremos a ver. Pessoas que gostaríamos de manter contato com mais frequência, mas isso não está ao nosso alcance devido à escolha desta vida nômade. São pessoas que nos comovem pela história de vida, que em poucos minutos de conversa já nos contaram anos e anos de trajetória, batalhadores de nosso país, muitas vezes maltratados pela condição em que nasceram ou que as circunstâncias fizeram chegar, mas que não deixaram de buscar pelo que sonharam um dia. É difícil sair dali na manhã seguinte, o fato de não sabermos mais como vai ser a vida de dona Lucila e sua família … Só sabemos uma coisa, elas tem confiança que tudo dará certo ao final de cada dia e assim vão vivendo. Assim como nós também, ao final de cada dia sempre encontramos um local seguro para descansar, e o dia seguinte é sempre um aprendizado lindo, e vez ou outra cheio de presentes que a natureza e nossos novos amigos nos dão de graça, sem esperar nada em retribuição.

Dona Lucila e sua neta que nos acolheram em sua residência em Novo Repartimento.

05/12/13

Que dia! Hoje podemos dizer isso em voz alta e daquele jeitão bem louco “Que diiiiia!”. Tudo começou com um sucão de cupuaçú e a despedida da Dona Lucila. Depois veio aquele poeirão levantado pelos caminhões pesados e gigantes na estreita estradinha de terra que nos levaria até Tucuruí. Paramos quando vimos uma mangueira generosa despejando pela terra os frutos maduros no quintal de uma casa. Parada estratégica pra fazer um lanchinho e o menino nos olhou com um sorriso branco e simpático lá da casa. Não perguntou nada, só nos observava com aquele sorriso que não era de gozação com a nossa cara suja de pó, nem das nossas roupas e chapéus estranhos. Era um riso como quem diz “Olha isso, que doidera! Deve ser muito legal viajar assim…” Mas ele ficou num banquinho longe, só nos olhando com aquele sorrisão que dizia tudo. Comemos e nos lambuzamos nas mangas que um dia este menino já deve ter se lambuzado. Acho até que essas mangas ele já está é enjoado. Quando partimos ele abanou empolgado e nos desejou boa viagem. Obrigado menino!

Região alagável pela represa de Tucurí. Como estamos no tempo de estiagem, o vale seca e dá lugar a uma estranha camada de grama verde fosforecente.

Pedalamos sem parar e sem parar. O dia estava levemente nublado e o vento ajudava a refrescar. Parávamos quando víamos pelo retrovisor grandes veículos, que com sua velocidade absurda cuspiam poeira na nossa cara e nos ofereciam risco de vida gratuito. Quando um grande vinha, jogávamos nosso veículo pequenino pro mato ou pra vala mesmo, e esperávamos a nuvem grossa baixar, para então seguir, e finalmente respirar. Não vimos mais nenhuma casa, nenhuma vila, nenhum nada. Só carros que passam pra lá e pra cá naquela pressa que eu não entendo porque tem que chegar tão rápido. Porque não saem mais cedo?

A poeira e o movimento era tanto de Novo Repartimento para Tucuruí que logo na primeira meia hora de pedal a bicicleta já ficou com essa camada grossa de pó.

Foi então que na falta de sombra paramos tomar água no sol mesmo, nisso um caminhão parou e nos ofereceu água, e bem quando a nossa estava acabando. Não perguntou nada, nem de onde éramos, nem pra onde íamos. Que raro! Só nos ofereceu a mão de um anjo, a boa ação dos homens. Nos disse que há 3km havia um assentamento, e a 11 ou pouco mais para adiante do assentamento estava a vila da hidroelétrica. Paramos no assentamento porque havia uma casinha com sombra. Pedimos água e vimos uma horta incomum. Organizada, diversa, regada, parecia um jardim com requintes paisagísticos. Isso não é coisa de gente normal. Então tivemos a sorte do pessoal todo descer e vir conversar com a gente. Esse momento nos deu muita alegria, conhecer mais uma realidade. Trata-se de um acampamento de famílias sem terra, que reivindicam o direito a plantar para subsistência e venda de pequena escala, além de extrair os frutos da floresta sem devastação: castanha, açaí, bacaba e outras frutas. Lutam pelo direito a viver com saúde e água limpa de fonte, a não ser mão de obra barata nas cidades, a se amontoar entre os esgotos da falta de saneamento, fruto do roubo do político que não mandou fazer o esgoto no bairro onde a população se instalou. Então essas pessoas “tão” de outro planeta, que muitos criticam e chamam de vagabundos pelo fato de não terem capital suficiente para comprar uma extensão de terra que lhe forneça sustento, estão ali, vivendo há 9 anos diante da incerteza. Enquanto enormes extensões de outras terras são depiladas para criação de carne, um campo de futebol para cada cabeça de gado. A quantidade de comida vinda da terra que se pode produzir numa área destas? Eu não faço ideia, mas lembro bem do quintal da minha avó, cheio de diversidade e que não passava de uns poucos metros ao lado da casa. Num pequeno trecho próximo à estrada eles plantam sua horta, porque não podem mexer em mais terra para dentro da área do DNIT (alguns metros que margeiam a rodovia) até não ganharem a causa na justiça. Neste jeito simples estão plantando mamão entre as árvores nativas na beira da estrada desde lááá dos distantes quilômetros que vínhamos. Pedalando, achamos estranho bananeiras e mamoeiros misturados à vegetação nativa, avessos ao modelo monocultor depilador de florestas justamente do outro lado da estrada. Eles querem esta terra para viver dignamente dela, já há 9 anos sobrevivem deste jeito, mas não podem construir nada definitivo, só barracos de palha e suas hortas com plantas mais efêmeras. Enquanto isso o suposto dono da terra, que nem na sua “propriedade” vive, está longe, mas possui documentos afirmando que aquele pedaço de vegetação é dele. De quem afinal é a terra, de quem a compra e a deixa para fazer valorizar porque se vai construir uma hidroelétrica nas proximidades? Ou de quem depende do seu cultivo manejado para alimentar a família? Eles vendem parte dos vegetais da horta para as pessoas da cidade vizinha e não fazem uso de agrotóxicos porque dali eles também se alimentam e alimentam as crianças. Este grupo tem apoio da Igreja Católica, através da Pastoral da Terra, e através dela conseguem apoio jurídico para suas reivindicações. Enquanto sua vida vida nessa indefinição e luta permanece, eles vendem o excedente da horta nesta casinha aí, onde paramos para fugir do sol, e também vendem na cidade eventualmente.

O pessoal do movimento sem terras, numa pausa na hora do almoço. André está com a sacola cheia de castanhas que ganhamos.

Aquelas horinhas de conversa no intervalo do nosso dia valeram por uma aula da vida. Perguntamos como fazem o plantio das bananeiras, como fazem pra catar a castanha, se eles vêem muitas onças, se já viram o curupira. Entre aquelas pessoas, gente de vários lugares do Brasil, inclusive lá do extremo sul do país, gente de sorriso fácil e conversa farta! Mas como as bicicletas atiçam a curiosidade também foram momentos de contar histórias de lugares distantes que eles nunca ouviram falar. Saímos daquela pausa revigorados, com a cabeça leve e o coração apertadinho de não poder ficar mais tempo, não tínhamos muito o que comer, nem o que preparar pro começo do dia seguinte, já que esperávamos chegar na cidade no final do dia. Mas a vontade era ficar ali uma semana e perguntar tudo sobre as hortas, sobre a luta deles pela terra, sobre como é viver ali sem energia elétrica, sem as desgraças da televisão, contornando o fato de não terem geladeira, ventilador num clima tão quente como este… Ham e, sem televisão, veja  só que absurdo! Mas não dava pra ficarmos mais. Aí na despedida, nos trouxeram uma sacolada de castanhas recentemente colhidas. Uma sacolada que no mercado se fôssemos comprar seria uma fortuna, e pra eles é simplesmente uns minutos de catação, não aceitaram nada em troca, era um presente pra viagem. Como é grande o coração do ser humano!

Chegamos no asfalto no final da tarde. Estávamos disfarçados de tijolo, porque a poeira da estrada misturou com o suor e fez uma massa igual argila em cima da gente. Não encontramos a entrada da cidade, apesar de ter visto as ruas planejadas de longe. Fomos pedalando contornando o lago da represa até que vimos uma guarita. Paramos e não tinha ninguém. Sentamos ali na sombra pra pensar no que faríamos. Em lugares assim temos receio de acampar na beira da estrada, há muito movimento, e não conhecemos a cidade. Sem falar que precisávamos urgentemente de uma ducha forte, daquelas de lavar carro, com muita pressão de água pra tirar toda aquela sujeira. Não dava pra ir dormir daquele jeito e o acesso ao lago parecia algo de perigoso, íngreme. Aí então parou a polícia pra revistar uns motoqueiros. Perguntamos pra eles se ali dentro era um bairro e se poderíamos entrar. Disseram que sim e que por ali haviam escolas e comércio onde comprar comida.

Assim ficamos no final do dia, bronzeados pela poeira que aderida ao suor formava uma argila. Tratamento estético gratuito e móvel, e além disso não se gasta com loção de proteção solar.

Entramos por um acesso de pedestres, dificultoso para as bicicletas carregadas. Eu com meu pulso ainda ruim não consegui ajudar a levantar as bicis, e o André teve de fazer o trabalho sozinho. Entramos e vimos um lugar bonito, perguntamos aos militares do exército que estavam por ali numa casa. Aquele era um bairro militar. O local era um teto com mesa e cadeiras, banheiro e grama, onde dificilmente incomodaríamos alguém, e pelo fato de ter banheiros não causaríamos nenhum transtorno sanitário ao local norteamericanamente limpo. Mas não tivemos autorização da “otoridade”, que nos mandou procurar as áreas verdes do bairro em algum lugar subindo as infinitas e “íngridis” ladeiras. Perguntamos o que eram as áreas verdes, mas a resposta só serviu pra perdermos mais tempo. Tudo bem, não querem ajudar, então que não atrapalhem, vamos tentar alguma escola…

Começamos a subir rumo a uma escola. Novamente porta na cara, a diretora não está. Então seguimos subindo a “íngridi” rua, “igridnados” com a secura das pessoas que nos deparamos no final do dia, um imenso contraste com aquelas pessoas que nos deram mangas, e depois aquelas pessoas que nos deram castanhas, e aquela senhora que nos acolheu em sua casa. Foi desanimador. Subindo e subindo na marchinha mais levinha com o coração saindo pela boca, final de tarde chegando, a noite vindo, sem ter onde tomar um banho, porque pra dormir a gente planejava já botar a barraca em qualquer grama “norteamericanizada” do bairro, as tais áreas verdes… Foi quando um rapaz pergunta “Vem de longe?”. Eu respondo com um fio de paciência que ainda me restou “de muito longe”. Depois de tantas negativas que levamos, eu tive paciência pra responder ao rapaz, enquanto puxava o fôlego pra subida vagarosa. André também teve paciência de completar “de Santa Catarina”. Aí paramos de tentar pedalar e falar ao mesmo tempo, não estava dando fôlego e pelo visto subir mais rápido a ladeira em busca de um lugar pra ficar antes de escurecer seria em vão. “Paciência”, é preciso buscá-la sempre mesmo nas piores situações, mesmo naquelas em que você julga que executar as coisas rapidamente e com eficiência é que trará algum resultado. Estas nossas andanças só nos tem provado o contrário, então estamos sempre a invocar a paciência!
Nessa instante de reflexão em minha mente, o rapaz se aproxima e pergunta o que estamos fazendo por aquela rua, porque ali não costuma ser passagem. Claro, entramos pela porta dos fundos do bairro. Mas então ele chama a vizinha e depois de contarmos da recusa do exército em nos ajudar, nos dizem pra acampar bem ali, na grama de uma casa desocupada, desocupada porque não liberaram para uma família viver ali, estavam também indignados por algum motivo com as autoridades. Então eles tem uma ideia melhor, a moça nos leva até a casa de apoio aos acompanhantes do hospital, mantido pela Igreja Batista, na quadra ao lado. Vamos até lá e a senhora que cuida do local, pergunta logo “Mas o que vocês querem aqui? (seca e ríspida) Porque aqui não podemos deixar ninguém ficar sem a autorização do hospital confirmando que é acompanhante de algum doente”. Então explico que no exército não nos deram auxílio e que na escola, local que geralmente procuramos ficar, a diretora não estava, que precisamos de um apoio pra tomar um banho e um local seguro pra jogar a barraca, poderia ser até no estacionamento, mas que se não podemos permanecer ali durante a noite, compreendemos e podemos acampar em outro lugar, mas que gostaríamos muito de poder tomar um banho, dado nosso estado. Então ela nos deixa tomar banho, mas fica claro pela atitude da senhora que não poderíamos permanecer ali para passar a noite. Enquanto nos preparamos para o desejado banho, nossa amiga precisa ir buscar as crianças dela na escola, diz que volta em seguida pra encontrarmos um local pra gente dormir, porque a casa dela está cheia também.

Registro do nosso estado de sujeira enquanto esperávamos autorização da senhora do abrigo, para tomarmos banho

Nossa urgência prioritária foi sanada, o banho! Mas ainda estávamos sem local para dormir e um pouco amedrontados com a senhora que cuida da casa de apoio, assim que saí do banho ela me mandou trocar minha bermuda por uma calça, porque ali não era permitido roupas curtas. Detalhe que não havia ninguém na casa a não ser mulheres, e que no caso minha única calça estava imunda de poeira, só me restou a calça rasgada dois dias atrás, por excesso de uso, e levemente suja… ao menos até que resolvêssemos onde dormir. Foi então que o milagre aconteceu. André saiu do banho com seus cabelos molhados e acho que a senhora pensou que se tratasse de uma visão de Jesus, cabelos escorridos, barba grande, sabe como é… Alguns minutos depois ela nos convida a dormir na casa de apoio e oferece até camas pra nós e também nos convida para jantar com todos, haveria arroz e feijão! Nossa, que peso saiu de nossas costas neste momento. Mas ficamos sem entender o que a fez mudar de ideia. A amiga retorna, nos convida a ficar no sítio da família, só que era distante 10km, teríamos de pedalar no escuro… Mas tudo estava resolvido depois da mudança de ideia da senhora do abrigo. Então disse que se quiséssemos descansar uns dias lá no sítio e ir no dia seguinte, poderíamos ficar quanto tempo quiséssemos. Ficamos de pensar esta noite, e ver com ela na manhã seguinte como estaria nossa disposição.

06/12/14

Acordamos tão cansados. O filho da senhora que estava abrigada na casa de apoio falecera durante a noite. O clima estava pesado por lá. Foi mesmo ótimo o convite da Lorena, ter um lugar para acampar no meio do mato, já que há uma grande sequência de dias, ficávamos nas casas das pessoas, escolas, abrigos. Estávamos com saudades de uma bela noite silenciosa em nossa barraca. Ao sair da cidade, nos deparamos com uma tentativa do exército de ser bonzinho. Um apenas não, mas dois Papais-Noéis desfilando levados por um tanque de guerra pelas ruas da cidade. É cada coisa…

Já que eles não autorizam cicloviajantes a dormir sobre o teto de sua área de pique-nique, ao menos compensam a balança das boas ações distribuindo balas de açúcar para as crianças da cidade.

Depois desta cena lastimável, nos mandamos para o sítio da família da Lorena, distante 12km do bairro. Ficamos três noites por lá, acampados às margens do lago da represa de Tucuruí, tomando água de coco dos inúmeros coqueiros do sítio, fazendo tapioca e farofa com coco, até cocada fizemos. Aproveitamos a oportunidade de descanso para comermos saladas e muitas frutas. Esperamos a visita da Lorena, mas ela acabou não podendo vir no final de semana. Agora ficamos na espera da visita dela quando retornarmos pra  Santa Catarina.

Prontos pra MUITA lama e poeira {Pedalando pela Transamazônica}

Trajeto: Rurópolis>Placas>Uruará>Medicilândia>Brasil Novo (~306 km)

Primeiro dia de Transamazônica, limpos e revigorados depois do descanso na escolinha de Rurópolis

18/11/13 – Depois da chuvarada de ontem, o dia amanheceu nublado e a estrada ainda estava bem lamacenta e cheia de poças. Nós com tudo limpinho depois de um dia de descanso, estávamos empolgados em descobrir o que a Transamazônica reservava para nós. Nem bem pedalamos 10km e uma nuvem negra corria o céu. Encontramos uma varanda de uma casa a tempo de correr pra lá. Os pingos de chuva eram grossos e pesados, não teríamos a mínima chance nesse temporal. Por sorte a varanda era grande o suficiente e o menino que apareceu na porta parecia ser a única pessoa na casa. Avisamos eles que iríamos esperar a chuva passar. Uma chuva que lavou o quintal e carregou pra longe o que estivesse pela frente. Uma hora depois o céu voltou ao cinza normal, a chuvarada deu lugar a uma garoa fina, então seguimos depois de fazer algumas tapiocas.
Neste trecho a estrada estava boa, com bastante cascalho compactado e poucos lugares com terra e lama. A pedalada foi mais fresca até parte da tarde, diferente de todos os outros dias anteriores, devido a ausência do sol, mas nas ladeiras mais fortes o suór era inevitável. No final da tarde encontramos uma escolinha, havíamos começado bem cedo então as 15h já estávamos bem desgastados e cansados. Haveria reunião de pais e após poderíamos dormir na única sala. Tomamos banho com a água que estava em uma caixa de água ainda não instalada, jogando água no corpo com canecas, atrás da escola. Quando os pais e alunos começaram a chegar no fim da tarde, a criançada nos rodeou, tímidos no início, foi só o primeiro começar uma pergunta para todos os outros querer perguntar sua curiosidade toda ao mesmo tempo, que confusão alegre. Enquanto a reunião seguia, cozinhávamos nossa janta em meio às perguntanças da criançada.

Uma cicatriz na floresta, ao longe se vê de onde estamos vindo…

…e para frente se vê a cicatriz indicando o caminho para onde vamos.

A cada 10 km era possível encontrar um povoado, com uma escolinha rural sempre presente e de portas abertas para pernoitarmos.

19/11/13 – Na manhã seguinte o jeito era pular cedo pra escapar do sol. Passamos ao meio dia pela cidade de Placas, onde um rapaz insistia em querer nos vender duas motocicletas, porque de bicicleta a gente ia demorar demais pra chegar em Altamira. Ele não entendia porque não queríamos viajar de moto nem de graça, e insistíamos nas velhas e surradas bicicletas. Depois de feita a “feira”, fizemos nossa gororoba de abacate com tomate e farinha de mandioca, pro espanto de um grupo de trabalhadores que estava próximo, novidade por aqui abacate salgado, ainda mais com farinha. Deixamos a cidadezinha sombreada com mangueiras para enfrentar o sol castigador das 13h. Dali pra frente as ladeiras ficaram bastante frequentes e não conseguíamos pedalar, só empurrar. A estrada também não estava das melhores, a trepidação era grande e as descidas eram bem lentas. Depois de Placas estava mais difícil encontrar povoados, estavam mais distantes, e nosso ritmo mais lento também. Conseguimos água em uma casa e depois demoramos a chegar ao próximo povoado. Aqui os pequenos povoados se formam na entrada para as estradas vicinais, todas perpendiculares a Rodovia Transamazônica. Muitas destas estradas seguem por centenas de quilômetros adentro e não tem conexão entre si. As vezes duas propriedades vizinhas estão a 50km de distância uma da outra, mas é preciso fazer uma volta de 300km para conectar uma à outra. Estas vicinais são tão longas, que as casas que se instalam em sua entrada são o ponto de encontro dos moradores, é onde também fica a escola rural, uma mercearia e um bar, as vezes uma igreja também. Por este motivo ficamos tranquilos em pedalar pela Transamazônica depois dos primeiros dias, sabíamos que sempre teríamos apoio de água e uma mercearia com alguma comida com bastante frequência.
No final da tarde chegamos exaustos ao vilarejo do km 201(contado a partir de Altamira), onde havia uma escolinha. Esperamos a aula terminar e conseguimos a autorização da professora para dormir no corredor. Tomamos um banho improvisado na torneira atrás da escola. Neste calor que faz na amazônia, é impossível conseguir dormir sem lavar o corpo depois de um dia de pedal. A sensação é tão ruim que parece que a poeira e o suor impedem a pele de respirar, chega a dar a sensação de que o próprio pulmão não funciona direito. Igualmente as noites são quentes e mesmo acampados só com o mosquiteiro de nossa barraca, debaixo do teto da escola, o calor era intenso. Para o bem de nosso sono, o começo da noite foi de temporal com fortes ventos e trovões, refrescou bastante. Choveu o resto da noite inteira.

Mais uma escola que nos recebe, esta noite caiu um temporal daqueles e foi muito bom estar sobre um teto!

20/11/13 – Como resultado do temporal da noite anterior, o desastre estava anunciado, LAMA! Logo nas primeiras ladeiras víamos caminhões estacionados no topo delas. Imaginávamos o porquê. Se eles descessem a ladeira lamacenta, poderiam desgovernar o veículo, e mesmo que vencessem a descida sem problemas, não conseguiriam fazer a pesada carga chegar ao topo da ladeira seguinte. Neste trecho a Transamazônica é uma planície enrugada, são sequências intermináveis de descidas e subidas íngremes e curtas. Andamos com cuidado, a bicicleta dançando nas descidas, e nós, patinando para conseguir empurrá-las na subida. Depois de exaustivos 12 km dessa maneira, paramos em frente a um bar, onde vimos uma grama sobrevivente ao caos, já partimos pra cima dela tentando limpar as sandálias da bota de lama que elas haviam se transformado. Catamos uns pauzinhos do chão e começamos a tentar desobstruir os freios e os para-lamas, que aliás, deveríamos ter removido assim que vimos a bagunça começar. Enquanto estávamos por ali, só um trator passou na estrada, carregando um carro popular. O assunto entre os locais era de que ninguém estaria conseguindo passar pela ladeira que estava em frente.
Demos o dia como encerrado e perguntamos se haveria um local onde poderíamos passar a noite. Nos cederam um galpão, ao lado do bar. Ele foi usado na época da construção da estrada, como alojamento de trabalhadores. O local era bem interessante, com marcações de onde cada um deveria armar sua rede, por certo era assim que todos dormiam. O Galpão estava bem sujo, e caindo aos pedaços, mas foi um ótimo refúgio para nós, já que continuou chovendo o resto do dia. A chuva foi parar só no final da tarde, o que nos deu esperança de no dia seguinte a estrada estar um pouco mais seca e ser possível chegarmos a Uruará.

Um pouco de chuva do temporal da noite anterior já deixou a poeira desse jeito! Uma cola perfeita para nossas sandálias e pneus.

Depois de apenas 12km avançados no dia, desistimos de lutar contra a lama e preferimos esperar a estrada secar um pouco até o dia seguinte.

21/11/13 – Chegamos em Ururá antes do meio dia, depois de 19km. Estávamos cansados e encontramos um hotelzinho bem simples, mas com wifi e super barato. Fomos pra lá lavar toda a lama, descansar e dar notícias pra família. Se você estiver pedalando e passar por Uruará, procure pelo hotel Junior, pagamos R$15 por pessoa com café da manhã incluso. Encontrar este preço é raro no Brasil…

23/11/13 – Depois do dia de descanso, prontos para seguir, uma nova chuvarada cai na cidade e atrasa nossa saída. Mesmo já perto do meio-dia, compramos nosso litrão de açaí no mercado público e seguimos pela estrada. A lama era grande e fomos encontrar pouso 40 km depois, em uma escola no vilarejo de Caima, onde não há sinal de telefone algum, nem fixo, mas há internet. Tivemos a sorte de terem mangueira para o pátio, então pudemos lavar bonitinhas as bicicletas, que chegaram assim por lá:

Mas no dia seguinte alguns trechos ainda estavam bem molhados, com muitas poças, e a bicicletinha foi ficando assim…

Mais uma escola nos ajuda, desta vez demos sorte que havia uma bela torneira com mangueira, onde pudemos lavar minimamente as partes mais afetadas pela lama.

24/11/13 – A chuva deu uma trégua e fomos bem até a escolinha seguinte, dormimos em Vila União da Floresta.

Uma pausa para ver o cacau secando ao sol, depois de alguns km de muita trepidação, paramos para comer um arroz com feijão e um abacaxi de sobremesa.

Nunca havíamos visto libélulas vermelhas. Estas brincavam na superfície de um igarapé.

A transamazônica é assim, uma linha reta traçada no mapa do Pará, não há muitas curvas contornando os morros, a estrada segue o caminho mais curto, e por isso as madeiras são sofríveis, não só para ciclistas.

25/11/13 – Saímos cedo da escolinha, e chegamos próximo ao meio-dia em Medicilândia. Pegamos muitos trechos de estrada ruim, e as ladeiras de sempre

Mas no topo de cada um dos montes que se vence, é possível ver parte da imensidão que é esta planície de tão rica floresta.

Nos dias que amanhece mais fresco, é possível respirar o orvalho. Mas só antes do sol despertar, porque quando ele desperta faz tudo evaporar.

Elas aparecem cedo pela manhã e também no final da tarde, sempre barulhentas e espetaculosas!

Logo no início do asfalto, demos de cara com uma cooperativa de chocolate. Perguntamos como funcionava o processo e demos sorte do presidente da associação estar por ali, ele nos explicou bem detalhado e nos deu muita atenção, mostrando como o processo desde o plantio até o produto final. Encontramos um excelente chocolate amargo 70% e sem ingredientes de origem animal. Investimos um pouco e levamos um quilo da iguaria, que logo logo iria se transformar em combustível. Além da barra, encontramos um chocolate granulado puro que compramos para experimentar, sensacional

Aqui uma ponte interditada não é motivo para impedir caminhões, carros e ciclistas de passar… coisa normal!

Comemorando a chegada a um trecho de asfalto, finalmente!

Além da recompensa de termos chegado ao asfalto, ainda encontramos uma cooperativa de beneficiadores de cacau, que produzem um chocolate vegano e amargo do jeito que a gente gosta. O jeito foi estocar, levamos um quilo da iguaria…mas foi pouco!

Mas ainda não tínhamos onde ficar na cidade, nos sentíamos muito cansados para seguir. Tentamos na prefeitura, mas nos encaminharam para a Igreja. Lá há um apartamento disponível para o pessoal que vem até a cidade participar de algo da comunidade mas que mora na zona rural, ou simplesmente quem necessita de apoio por algumas noites na cidade. O padre foi muito gentil em nos aceitar lá.

Seu João e suas poesias que nos fazem chorar. Agradecemos a companhia, Seu João, suas sábias palavras e sábia maneira de viver! Um grande abraço, força sempre!

Chegando no local fomos recebidos pelo seu João, que nos fez companhia na tarde e nos contou lindas histórias e declamou uma poesia emocionante sobre a realidade em que vive, sobre o trabalho e falecimento da missionária Irmã Dorothy Stang e sobre suas emoções. Ficamos muito interessados no que seu João tinha a nos contar, e ficamos conversando por um bom tempo. Na manhã seguinte, parecia que éramos velhos amigos de seu João, e foi difícil a despedida. Sempre surgia algum assunto para conversar, e depois a emoção em despedir de uma pessoa tão pacífica como seu João, uma pessoa que emana paz e tranquilidade, bondade e doação. Com certeza seu João é um exemplo de vida que levaremos com muito carinho em nossas andanças. Muito obrigado seu João, pelo seu exemplo de vida e lições que não precisaram ser ditas, mas que captamos no ar só de observá-lo contando sua história de vida

Na casa de acolhida da Igreja, estava seu João, um animador comunitário, pessoa simples mas de uma beleza de coração sem fim. Não sabe ler, mas é poeta, não sabe escrever, mas tem tudo na memória!

O pessoal da Igreja de Medicilândia, nosso agradecimento pela acolhida!

26/11/13 – Depois da difícil despedida do pessoal da Igreja, acabamos saindo com o sol já forte. O rendimento foi baixíssimo porque nossa pressão baixou muito depois das 10h da manhã e não estava fácil vencer as subidas com tanto calor. Foi preciso deitar e tirar um cochilo em um ponto de ônibus de palha que oferecia uma das poucas sombras de todo o caminho. Cozinhamos quiabo enquanto descansávamos, nos revezamos na dormida. Lá pelas 14h nos sentimos melhor em seguir. Uma hora depois já nos aproximávamos de Brasil Novo, onde conseguimos permissão para acampar no Mercado de Produtores, onde o pessoal da zona rural expõe e vende seus produtos nos dias específicos. Amanhã estaremos em Altamira, mas não conseguimos avisar o contato de um amigo de um amigo que mora por lá. O açaí congelado já foi encomendado com o pessoal da vendinha aqui ao lado, eles ainda nos presentearam umas mangas gigantes, que eles chamam coração de boi, são imensas e deliciosas.

Um litrinho de açaí descongelando no alforge enquanto pedala, pra na hora do sol mais forte estar no ponto de ser devorado!

Santarém a Rurópolis {Teste para a Transamazônica}

Se pegar só a geral, rapidinho estaremos em casa, mas assim, diretão, pouco do país vamos conhecer, então o jeito é fazer curvas!

14/11/13 – Igarapé do Km 85

Saímos tarde de Santarém, mas a média de velocidade e o relevo plano ajudaram bastante. O primeiro trecho tem acostamento inexistente, e movimento acima do esperado. Mas assim que passamos Belterra já era possível ter alguns trechos com acostamento, e o restante estava sendo construído, depois disso, acostamento bom até Rurópolis, pelo menos nos trechos onde há asfalto. Encontramos açaí na estrada e também paramos pra comprar mamão numa vendinha na entrada de Belterra.

Depois disso foi só pedal até ver uma santa plaquinha “Água de Coco gelada”, pra quê?! Pedimos logo duas. Aí vimos que estava estupidamente gelada e deliciosa. Aí o dono nos deu mais uma porque a do André tinha menos. Então pedimos pra abrir e comer a polpa. Aí conversa vai, conversa vem, o dono lá ofereceu mostrar pro André como descascava o coco seco com enxada. Acabou nos dando dois cocos secos pra levar, além das polpas dos cocos verdes que guardamos num pote, poque não conseguimos dar conta de tudo. Reidratados, voltamos a pedalar os 5km que nos restavam até o Igarapé do km 85, onde pretendíamos acampar. Nos banhamos nas suas deliciosas águas geladas, um ótimo final de dia depois de um pedal suado.

No Pará, nosso combustível tá garantido a R$5 o litro, ah açaís!

Ainda bem que não consumimos derivados de leite, esse “iogute” aí tá meio suspeito!

Maçã do coco!

Banho merecido no Igarapé!

Pouco lugares de acampe foram tão luxuosos quanto o igarapé ao lado da estrada no km 85.

Além do luxo, mil estrelas neste hotel! Igarapé do KM85

15/11/13 – Começamos a manhã com aquela linda paisagem na janela da barraca, um igarapé lisinho e manso correndo por baixo da estrada. Então já levantamos de bom humor e colocamos a água pra esquentar. Improvisamos uma peneira pra peneirar a tapioca e botamos a frigideira pra esquentar. Por conta dos cocos que ganhamos ontem, recheamos a tapioca com coco ralado fresco banhado em um pouco de leite de soja que compramos em Santarém. Ficou uma delícia, mas também atrasou nossa saída um pouco. Fomos começar a pedalar lá pelas oito e meia, o que para o padrão paraense de sol já é calor demais. O resultado do dia foram 60km cansados até chegarmos ao restaurante do km 140. Pedalar no forte do sol desgasta mais e os quilômetros demoram mais a passar. Lá compramos um feijão cozido pra misturar com o arroz com farinha que sobrou da noite anterior. De tão cansados resolvemos pedir pra acampar no cobertiço dos fundos do campo de futebol. Poderíamos pegar cocos à vontade no quintal do restaurante, então começamos a lida. Nisso aparece um garotinho de 5 anos e começa a dar explicações sobre os cocos. André demorou a confiar no garoto, que só dava dentro “esse coco já tá muito seco”, “os daquela árvore lá estão mais verdes, tão melhor”, e o menininho foi nos cativando com sua inteligência mais além de apenas 5 anos de idade. Ficamos algumas horas ali sentados no chão, tomando água de coco sem parar e conversando com o esperto Luan. Ficamos desejando que todas as crianças fossem assim como o Luan, bem educadas, comportadas e ainda assim espertas e que ainda por cima ensinam a nós, os “adultos”. Ficamos ouvindo as histórias do Luan, que ajuda o pai na roça, ajuda a fazer cocada em casa e presta atenção no mundo ao seu redor. Não é só mais um alienadinho que gosta de personagens de desenho animado enlatados. Ele tem seus próprios heróis. Ainda não frequenta escola, mas sabe tudo de cobras, escorpiões, araras, onças e tem uma galinha e um cão de estimação, este já falecido que tinha o nome de Barão. Segundo Luan seu cão foi comido pela onça numa madrugada escura e barulhenta. Parece que a onça só tirou uma pena de sua galinha, que é mãe das outras galinhas todas do quintal. Por termos parado cedo deu tempo de tostar rapadura com 3 cocos secos que ralamos. Outros dois que nós também tomamos não demos conta de ralar e nem tínhamos mais potes pra armazenar.

Mas sair tarde (depois das 8h da manhã) tem seu preço, o suor do corpo junto com essa poeira tipo talco, faz uma perfeita argamassa que funciona bem como protetor solar.

Fim do pavimento, a alegria acabou! Agora começa a diversão!

16/11/13 – Fizemos por volta de 70km, entre asfalto e trechos de pura poeira fina que mais parecia talco, chegamos vermelhos da cabeça aos pés em Rurópolis, depois de duas tentativas de acampar antes de chegar na cidade. Tentamos numa casa, que mais de perto não pareceu uma boa ideia, parecia que estavam bêbados. Tentamos numa base da IcmBio da Flona, os vigias não deixaram porque não havia ninguém da IcmBio na hora lá. Ainda demos uma olhada no posto de gasolina, mas pareceu movimentado demais. Então perguntamos pela escola e nos indicaram uma bem pertinho, bem no centro. O portão estava aberto e o vigia disse que era só esperarmos pra falar com o vigia da noite, mas que podíamos ir tomando banho enquanto isso. Então, lá fomos nós tirar a grossa camada de poeira do corpo. O dia de pedal foi muito duro, estava quente e nenhum vento como nos dias anteriores. O relevo aqui é muito mais acidentado do que imaginávamos e era só subidas seguidas de descidas, pouco trecho plano, o que tira o rendimento em quilometragem. No meio do dia paramos na sombra de umas árvores na frente de uma casa e colocamos as redes. Tiramos uma soneca revigorante e fizemos suco de limão, que ganhamos do pessoal da casa. De almoço fizemos farinha de mandioca com pedacinhos de coco que já estavam começando a estragar. O resultado de muito coco pode ser um pouco desastroso nos dias seguintes, melhor ter uma boa moita em vista ou estar próximo a um banheiro.

Você vê o fim do martírio?! Muita poeira até encontrar os próximos poucos quilômetros de asfalto. Aqui quem constrói o pavimento é o exército.

Assim bem lindos chegamos em Rurópolis. Ainda bem que o vigia da escolinha não se assustou com nossas caras feias!

Sujos da cabeça aos pés!

17/11/13 – Escola Estadual em Rurópolis – dia de descanso, tapiocagem e lavação de roupas imundas. Também conseguimos um precário sinal de telefone onde conseguimos comunicar por e-mail a família de que estava tudo bem. Amanhã seguimos pela famosa estrada Transamazônica, que nos levará mais pra perto de Belém, a capital do estado, passando por lugares como Anapú, onde assassinaram a Irmâ Doroti, e por Altamira e Belo Monte, onde as controvérsias são grandes acerca da construção de uma certa hidroelétrica…Expectativas grandes para enfrentar este pedaço de chão!

Limpinhos outra vez, depois de um dia de descanso na escolinha, prontos pra enfrentar a lama (vide as poças) depois de um dia de chuvaradas no Pará. Transamazônica, aí vamos nós!

A Árvore avó da Floresta {Samaúma Vovózona}

Casinhas de Palha no povoado dentro da Reserva Nacional do Tapajós

Saímos para o local onde pegaríamos o ônibus de Santarém para a comunidade de Maguari, em Belterra. No dia seguinte será a trilha com o guia para conhecer a árvore gigante da Samaúma. Hoje enquanto não anoitecia visitamos a fábrica da borracha. Aqui é uma comunidade extrativista dentro da reserva FLONA do Tapajós, então muitos moradores extraem a borracha. É necessário pagar uma taxa de R$6 por pessoa para ingressar na reserva. Depois tivemos o custo com o guia R$50 por grupo, mas como estávamos sozinhos no local, não tivemos com quem dividir o valor. Mesmo assim, seria uma trilha de 6h ou mais de duração, então consideramos o valor justo, e até baixo para o guia.

No galpãozinho rústido da fábrica de látex desenvolvem sandálias de borracha, brinquedos e bolsas artesanais. Na frente há uma casinha onde fizeram uma lojinha dos trabalhos dos artesãos da comunidade, além dos produtos da borracha há colares e pulseiras feitos com sementes da região pelos próprios moradores.

Que tal um corte de cabelo em um salão de beleza todo cheio de estilo no meio da floresta amazônica? Só que não!

Chegamos cedo na comunidade, e logo fomos direcionados a casa do Seu Joaquim e da dona Maria. De início queriam que ficássemos dentro da hospedagem familiar, mas não tínhamos dinheiro pra isso. Explicamos que viajamos de bicicleta e que preferiríamos acampar no quintal, mas que poderíamos pagar uma contribuição pelo uso do quintal, chuveiro e banheiro. Seu Joaquim não quis ceder no preço, queria cobrar o mesmo valor da hospedaria. Mas depois que dona Maria se aproximou, o homem amoleceu e nos cobrou R$10 o pernoite. Tivemos o resto da tarde livre, e eles mesmos se encarregaram de avisar algum guia da comunidade para nos levar até a Vovó na manhã seguinte.

Crianças e a bicicleta, o melhor meio de transporte depois dos próprios pés!

Visitamos uma fábrica de látex artesanal dentro da própria área da reserva. As sandálias ainda estavam secando.

Produtos do Látex e da fabricação artesanal dos próprios extratores de látex. Produtos muito originais e interessantes.

Linha de fabricação de bolsinhas de pescoço.

Nosso guia até o encontro da Samaúma, explicando sobre os Jatobás.

Começamos a trilha as 8h da manhã, mesmo tendo combinado com o guia as 7h, para evitar a hora de sol muito forte na volta. Mas tudo bem, seguimos com sorte, o dia ficou nublado e a temperatura agradável. Numa das paradas de descanso, o guia disse que iria buscar um lanche pra gente. Foi-se, e em 5 minutos retornou com 5 grandes mamões para nosso lanche, e nós lhe oferecemos algumas paçocas de amendoim. O guia foi sempre muito gentil, e nos contou diversas histórias da floresta, nos explicou sobre diversas plantas e árvores, e nos esclareceu muitas dúvidas. Ele estava sempre acompanhado de um aprendiz, um rapaz mais novo que ainda está aprendendo o nobre trabalho. Nos explicou sobre a extração da seiva de diversas árvores, seus usos e aplicações. Na metade do trajeto, o guia parou de súbito, era uma cobra que cruzava a trilha, e era venenosa. Como ainda estávamos muito próximos às roças da comunidade, provavelmente esta criatura estava perdida em virtude de algumas queimadas controladas que aconteciam nas proximidades. Mesmo assim a pobre criatura foi sacrificada.

Não há lugar mais cheio de borboletas que a Amazônia!

Finalmente começamos a encontrar árvores gigantes, primeiro foi a Samaúma filhona, depois a mãezona, e por fim, a vovózona. Todas estão bem próximas, e o tamanho vai aumentando conforme a proximidade com a vovó. Ficamos muito felizes e estarrecidos ao encontrar com esta gigante da floresta. Foi um prazer enorme conhecê-la, há tempos queríamos ter um encontro com um ser tão imenso e imponente. A magnitude desta árvore nos lembra o poder da natureza, e foi uma alegria imensa visitar esta avó amazônica. Dizem que tem mais de 900 anos, outras fontes dizem que já passa dos mil anos, outros ainda dizem que tem apenas 300 anos. Seja como for, a idade que tiver, este paredão rumo ao céu sem dúvida é algo que nos marcou, e deu um valor ainda maior a nossa visita a maior floresta do mundo!

Grande êxtase ao encontro da Avó da Floresta! Samaúma, uma gigante, uma maravilhosa obra da natureza.

Retornando da trilha armamos novamente equipamento no quintal do seu Joaquim. Acertamos os preços com ele e nos preparamos para acordar bem cedo, pois o ônibus de volta para Santarém só passa uma vez por dia, e entre 4h e 5h da manhã. O final de tarde foi curtindo o Pôr-do-sol numa das praias nas margens do Tapajós, e nos distraindo com os netos do seu Joaquim e as crianças da vizinhança, que tinham uma curiosidade imensa com a barraca e nossas parafernálias de cozinha. De madrugadinha o ônibus nos tirou deste pedacinho paradisíaco e nos levou de volta para o caos e a confusão da cidade grande. Era hora de nos despedirmos também de Dona Júlia e Jone, uma despedida difícil depois de tantos dias de convivência tão amorosa com esta família querida.

Momento triste de despedida de uma família querida! Dona Julia foi uma mãe emprestada com muito carinho, e Jone um irmão! Queridos, sem palavras pra agradecer tudo que fizeram por nós, toda a acolhida e atenção, as conversas e os momentos, não vamos nunca esquecer!

Pela manhã seguimos nosso rumo, desta vez sem barcos. Vamos por terra rumo a Belém. Vamos enfrentar a tão famosa Transamazônica por alguns bons dias. Poeira e lama nos aguardam!

Manaus-Santarém-Alter do Chão

Porto de Manaus, perto do Mercado Municipal, partiu Santarém!

Em Manaus embarcamos novamente, seguindo agora o Rio Amazonas. A viagem foi de longe muito mais tranquila que a viagem de barco de Porto Velho pra cá. Muito mais espaço e nada de bar com caixas de som gigantescas. Foi fácil descansar e dormir boa parte do tempo. Ainda conseguimos comprar uns açaís frescos quando o barco parava em algum povoado. Neste barco não eram servidas refeições, mais foi fácil se virar com os açaís frescos e um pouco de farinha de mandioca.

Vendedores de quentinha em uma das paradas do Trajeto Manaus-Santarém

Rio Negro e Solimões no encontro das águas.

Em Satarém chegamos no final da tarde, já havíamos feito contato prévio com a família da Ju, uma amiga pedalante que só conhecemos do mundo virtual, e ela acionou seu irmão e sua mãe para nos receber na cidade. Não bastasse a hospitalidade, fomos ainda apresentados a outra família, a Lobos MTB, que nos abraçou como velhos amigos. Lá na Oficibike do Pião fomos convidados pra um delicioso almoço e provamos pela primeira vez o feijão verde, que delícia. Enquanto estávamos distraídos com as delícias culinárias do Pião e de sua esposa, o mesmo levou nossas bicicletas lá pra frente, na oficina, sem nos darmos conta. Quanto menos esperamos, lá estavam as magrelas com cabos de marcha e freios trocados e tinindo! Prontos pro longo pedal que nos aguardaria na Transamazônica. Valeu galera, foi lindo demais essa acolhida! Dormimos uma noite na casa de Dona Julia, mãe da Juliane e do Jone, e no dia seguinte, Jone e Italo nos deram uma carona até Alter do Chão, com as bikes e tudo. Disseram que era muito perigosa a estrada e não nos deixaram pedalar pra lá. No povoado, chegamos e fomos acolhidos por um outro casal querido demais, Marcão e Laís, ele também da família Lobos MTB. Este pessoal todo já recebeu também outros amigos pedalantes, que fizeram esta conexão de hospitalidade para nós. Somos muito gratos ao Kiko Zaninetti (www.novaorigem.com.br) por esta ponte! E a Juliane Oliveira, por mesmo sem nos conhecer, apresentar sua mãe e irmão, que foram nossa família nestes dias em Santarém. Quantas pessoas de coração imenso, não temos palavras!!!

Chegada calorosa em Santarém, com os amigos do Lobos MTB e Oficibike do Pião. Valeu Doni, Jone, Pião pela atenção e carinho conosco!

Internet livre e energia grátis na Praça de Alter do Chão.Primeiro mundo!

Em Alter do Chão aproveitamos para curtir o paraíso que é este lugar, indo muito às praias de água cristalina e areia branca, curtindo a sombra dos cajueiros, e relaxando bastante.

Vida boa debaixo dos cajueiros, na praia de Alter do Chão. Ao fundo Rio Tapajós.

Batismo no Rio Tapajós ao entardecer, dizem que quem se banha nessas águas não quer mais ir embora. E realmente foi difícil…água quentinha e cristalina.

Ilha em Alter do Chão

Turistas atravessando o canal entre a Ilha e o povoado.

Atravessando para a ilha, experimentando se a água tava mesmo boa…

Quiosques na Ilha de Alter do Chão

A imagem fala por si. Não sabia que motorista podia tirar a carteira sem saber ler, sem entender placas de trânsito. Expedição Ford sem nenhum respeito pela área de proteção ambiental.

Na varanda da casa de Laís e Marcos, os passarinhos vinham a toda hora beliscar as frutas que deixávamos sobre a mesa. Foi então que armamos uma armadilha fotográfica pra eles, colocamos a isca, e preparamos a câmera. Quando eles se aproximavam, clap! A variedade de aves é encantadora por aqui!

Vizinhos um pouco malandros, que vinham comer nossas frutas na varanda.Canarinho.

Vizinhos um pouco malandros, que vinham comer nossas frutas na varanda. Bem te Vi.

Vizinhos um pouco malandros, que vinham comer nossas frutas na varanda.


Marcão e Laís, gratidão imensa pela hospitalidade e companhia, dicas e tudo o mais neste paraíso que é o lugar onde vocês vivem. Que assim permaneça! Abraços e saudades!

Despedida do Rio Tapajós, já dá saudades. Difícil seguir…

As bikes queriam ficar, olhando para o “mar” Tapajós!

Depois de uma semana em Alter, conhecendo todos os recantos e cantos encantadores do lugar, partimos em retorno para Santarém pedalando. Mas fomos atrapados pelo Camping Agroecológico na saída do povoado. Como era baratinho e queríamos experimentar como seria acampar na selva, sem precisar abrir mato a facão, e também aproveitando pra aprender um pouco sobre os processos de permacultura do lugar, ficamos por ali mais duas noites. Vimos como eles trabalham com o banheiro seco, e com a reutilização da urina humana para adubação de algumas plantas.

No caminho para Santarém, encontramos um pedaço de paraíso amazônico, um camping ecológico delicioso, uns dias de mato depois de vários dias de praia de rio, não fazem mal a ninguém.


Acordar com estas sombras e esta luz batendo na casinha de pano não tem preço! Amazônia!

Igarapé de águas geladas no camping, tinha que segurar na corda pra correnteza não levar embora. Delícia de banho revigorante!

Depois de alguns dias no paraíso, voltamos à civilização. Logo na entrada de Santarém demos de cara com um conjunto habitacional que ia até o infinito com telhadinhos iguais. Casinhas amontoadas no calor paraense sem chance para uma sombra de árvore. Devem estar mesmo todos loucos!


Bizarrices da urbanidade, voltando à civilização: Santarém e um novo bairro que surge.

De volta a Santarém, de volta à casa de Dona Julia, nos preparamos para ir conhecer a árvore gigante, a Samaúma Vovózona, que mora dentro da Floresta Nacional do Tapajós, ao sul de Santarém. Como os diagnósticos da estrada não estavam favoráveis para bicicleta, e há um ônibus de linha toda manhã a preço acessível, nos programamos para ir até lá e conhecer este ser centenário. Como foi este encontro contaremos no próximo post.

Porto Velho a Manaus {4 dias e 3 noites no Barco}

A viagem começou assim que chegamos a Porto Velho. Nem tivemos tempo de conhecer melhor a cidade. O barco estava para sair, e ainda haviam vagas. Mas teríamos pouco tempo para nos organizar. Comprar as redes onde iríamos dormir nestas 3 noites de viagem, providenciar os alimentos para os 4 dias de navegação, comprar uma marmita pra nosso almoço e sacar algum dinheiro pra comprar a passagem. Como não teríamos tempo hábil pra tudo isso em menos de uma hora, o pessoal do escritório de venda de passagens nos ofereceu uma gentil carona de carro, para ir atrás de tudo isso.

Lendo o livro que ganhamos de presente do amigo José, de Assis Brasil.

Quando chegamos no barco, o pessoal foi muito bacana nos ajudando a subir as bicicletas no terceiro andar, através de cordas e músculos. Chegando na área das redes, constatamos que o que diziam “Haver vagas” nada mais era do que uma expressão para designar que ainda poderiam espremer mais um cidadão ali no meio. Ficamos com um espaço terrível bem de lado para a mesa onde serviriam as refeições a todos. Mas ingênuos que fomos! Foi só servirem a primeira janta que percebemos porque ninguém ainda havia armado a rede por ali. A pressa para comer fez com que as pessoas da fila nos acotovelassem, pisassem nas nossas bagagens, nos sufocando naquele espaço minúsculo. Era insustentável ficar por ali. Decidimos então mudar de estratégia. Por um lado, foi bom, mas por outro…

Pegamos nossas coisas e fomos armar nossa rede no último andar. Incrivelmente, estava vazio. Soubemos que era porque ali ficava o bar e ligavam música a maior parte do tempo. Mas ao menos não seríamos soterrados 3 vezes por dia, que era quando serviam as refeições. Mesmo com som, decidimos encarar. Seria mais ventilado e mais espaçoso.


Mineração no Rio Madeira

No início a viagem foi ok. Toda aquela pressa para pegar o barco foi inútil. Esperamos parados no porto mais de 3h até começar a navegar. Logo que começou a girar os motores, a música no bar começou. Era tão alta, mas tão alta, que não chegávamos nem a decifrar o que estavam cantando. Os primeiros bêbados começaram a dar seus sinais de chatice pouco depois da meia noite. Um deles teve até uma experiência mística em alto volume, estava vendo seu pai, e só gritava isso. Resumindo, só fomos conseguir pegar no sono lá pelas 2h da manhã. Mas, as 6h o bar abriu, e já com música alta rolando… Por aí você já pode ter uma idéia do que foi todo o resto da viagem.


Ribeirinhos, param para ver o barco passar, atração que só acontece duas vezes por semana.

Se pudéssemos fechar os ouvidos da mesma maneira que conseguimos fechar olhos e boca, a viagem teria sido perfeita. Por sorte ainda podemos contar com outros sentidos para experimentar sensações na vida. Acho que se dependesse somente dos ouvidos, eu não teria sido feliz nesta viagem. Então sou feliz por poder ver, ver toda essa beleza natural ao nosso redor. Foi muito emocionante navegar no Rio Madeira, ver de longe os ribeirinhos vindo para a beira abanar ou simplesmente nos olhar de volta, ver os mineiros descansando nas suas casas flutuantes, ver os botos cor de rosa (que não conseguimos fotografar, humpf!), ver nascer do sol seguido do por do sol, um mais lindo que o outro…Isso sim vez a viagem valer a pena, e superar todo o nervosismo causado por músicas chatas em looping e em volume de estourar tímpanos. Ah se valeu!


Um pouco de descanso para as pernas. Mas nenhum sossego para os ouvidos.

Também foi muito bom ter tempo de pernas pro ar, balançando na rede. Pudemos atualizar nossas leituras, descansar as pernas. Nosso ritmo desde que deixamos Rio Branco foi pedal forte, madrugar, ir até o final da tarde, fazer distância, pois sabíamos que viriam muitos dias de navegação pela frente.


Assim que o sol nasce todos os dias da viagem, deslumbrante! Ao fundo, a delicada faixa de floresta amazônica. Já estamos no estado do Amazonas.


Os mais bonitos finais de tarde da viagem foram a bordo do barco Porto Velho-Manaus.


Sem ter muito o que fazer, crianças tem que inventar alguma traquinagem.

Fizemos alguns amigos no barco, em meio a tanta cerveja, e por estarmos colados ao bar, o pessoal perdia a inibição e vinha conversar conosco. Mas em geral, a maior parte do tempo ficávamos lendo, já que não conseguíamos mesmo dormir. Um dia pegamos uma tempestade, e as lonas de proteção da chuva não deram conta frente ao vento. O barco chacoalhava bastante e lá se foram as cordas rasgadas. Nossas coisas molharam bastante, já que não tivemos tempo suficiente para guardá-las. A nuvem negra simplesmente desabou, ninguém viu de onde ela veio. Foi bom pra quebrar a monotonia. Muita gente aproveitou pra tomar banho de chuva, que caia como aos baldes, já que o chuveiro do banheiro do barco utiliza água diretamente do rio Madeira, escura, e o cheiro lá dentro não é nada amistoso. É, foi uma boa tomar banho de chuva mesmo.


Águas cor de chocolate do Rio Madeira.

No último dia, quase chegando ao porto de Manaus, um senhor arrumou encrenca com a esposa. Ambos vinham bebendo a tarde inteira, e pra nos encher o saco, colocaram a caixa de som bem em nossa direção e pediram a moça do bar pra aumentar o volume. Quando o cara deu uma vacilada, André foi lá virar a caixa pro lugar outra vez. O cara se enfureceu e André disse “Se quer ouvir alto, senta lá com o ouvido colado na caixa de som, não vira essa merd@ pro meu lado não!”. Aí o cara já bêbado, não falando coisa com coisa, protestou e virou a caixa outra vez. Desistimos de argumentar com bebum e fomos pra ponta do barco, onde o vento levava pra trás o som. Mas o dono do barco sempre vinha expulsar quem ficava por ali, porque dizia que atrapalhava o capitão o barulho de passos. E essa caixa de som absurda, atrapalhando até pensamento, aliás devia estar até matando alguns neurônios! Voltando pras redes, presenciamos o tal senhor bêbado batendo na sua mulher, em frente a sua filhinha. Muita gente subiu pra ver o barraco, nós ficamos ali nas nossas redes mesmo, mas outras pessoas tentaram apartar a briga, levaram tapas. Uma hora o bebum quase veio cair em cima de nós, mas alguém empurrou ele a tempo. Aí se seguiu uma ameaça de morte atrás da outra. Mas ninguém com coragem de cumprir. Foi então que o barco atracou no porto e todo mundo ficou ocupado com suas bagagens, sem dar mais nenhum ibope pro fiasco.


Ainda bem que tem boia salva-vidas


Futebol com bola de latinha de cerveja. Só as crianças não caem no tédio dos 4 dias de viagem de barco.

Chegamos em Manaus no final da tarde. Ficamos em dúvida quanto a pernoitar no barco ou contactar nosso anfitrião do Warmshowers. A região portuária parecia um pouco barra pesada, e o barco ali não oferecia nenhuma segurança. Achamos melhor tentar um contato com o Nicolas. Ao que ele respondeu e prontamente veio nos buscar. Levamos as bicicletas no topo do carro até a sua casa. Foi um grande alívio ter conseguido contato com o Nico. Não dormiríamos nem um pouco sossegados por ali. Todos diziam para ter muito cuidado com furtos nesta travessia, pois as bagagens ficam somente no chão, sem nenhum tipo de armário para fechá-las a chave. Assim, por estarmos em dois, sempre que um saía para refeições, banheiro ou uma caminhadinha pelo convés, o outro ficava com as mochilas. Mas durante a noite, não havia muito o que fazer.


Chegando em Manaus, a nova ponte e as embarcações em um dos portos.

Em Manaus festejamos o aniversário do André, que caiu no domingo. Nico e Lili nos levaram conhecer o centro comercial da cidade, passamos pelo teatro mas estava fechado, e visitamos as feirinhas de rua onde pudemos provar a famosa bebida “Guaraná da Amazônia”, a qual consideramos o “bolo de aniversário” de André. Uma bebida deliciosa, que mistura uma montanha de ingredientes energéticos. Dá água na boca só de lembrar…


Praias urbanas de Manaus no final de semana.

Conhecemos também alguns bairros, e uma das mais famosas praias urbanas da cidade, mesmo com dia nublado, estava cheia e movimentada.


André no Teatro de Manaus


Interior luxuoso deste famoso Teatro.

Como teríamos mais dois dias de barco até Santarém, e esperávamos conhecer Alter do Chão também, isso significaria muitos dias parados, fazendo as pernas amolecerem. Então não fomos a nenhum passeio mais turístico em Manaus, e ficamos poucos dias na capital amazonense. Até porque descobrimos que os passeios são bem caros para apenas um dia de diversão. Mas ficamos com aquela vontade enorme de conhecer as gigantes samaúmas. Também não fomos a nenhuma tribo indígena, nem nadar com os botos. Já fico contente que as tribos estejam lá sossegados, e os botos idem. Então no próximo barco mais barato pra Santarém, embarcamos.

Grande agradecimento ao Nico, pela incrível recepção que nos deu em Manaus, nos resgatando no confuso porto onde desembarcamos e nos mostrando sua nova cidade.

Muito gratos a Lili, esposa do Nico, por sua simpatia de sempre e acolhida em sua casa.

Um grande abraço pra Nicolas e Lili, sejam felizes na nova morada amazônica! Obrigado por todas as dicas de filmes e troca de informações desse mundo da bike e boas pedaladas!

Acre-Rondônia

Seringueiras no Parque Capitão Ciríaco, em pleno centro de Rio Branco

Saímos de Capixaba bem cedinho pela manhã, fazendo a Ana Paula e o Estevão pular da cama e bater nossa tradicional foto de despedida. Todos prontos para ir ao trabalho! Lá vem mais estrada, teríamos uns bons 70km até a capital acreana. Por azar, nossa lembrancinha aos que nos ajudam pelo caminho haviam acabado, então saímos meio assim de mãos abanando, mas com a certeza de que levaríamos conosco novos amigos.

Assim foi o Acre do começo ao fim, amizades que levaremos pra sempre! Foi por conta de um amigão querido lá de Floripa que encontramos um porto seguro pra descansar dos dias de pedal intenso pelo calor amazônico. Calor que não está só por conta do clima, mas pela sua gente.

E não é que chegamos em Rio Branco e nosso amigo terceirizado nem sabia quem éramos e porque raios estávamos enviando mensagem a ele pedindo ajuda? Só sabia que éramos amigos de um amigo dele. Só! É que pensamos que nosso amigo em comum havia introduzido a história ao passar o contato de seu amigo acreano para nós. Mas de fato isso não aconteceu. No entanto, quando o coração é grande, a solidariedade é imensa, daquela que não tem medida mesmo.

Assim que chegamos nos arredores de Rio Branco e com sinal de wifi do Parque Chico Mendes, com a senha gentilmente cedida pelo pessoal de lá, conseguimos enviar mensagem pro nosso amigo do amigo, o diálogo digital foi mais ou menos assim: “Chegamos em Rio Branco, tem como dar uma força pra gente?”. Pensando que o rapaz já sabia que chegaríamos de bike e precisaríamos de um lugar pra esticar os isolantes e guardar as bikes. Aí a resposta “Posso ajudá-los sim, mas me digam como.” Pensamos, “Ué?! Será que ele não recebeu mensagem nenhuma?” Aí foi “Chegamos de bicicleta, estamos de viagem, Dudu não falou nada? Teria um espacinho pra uma barraca e duas bikes no seu quintal? Ou conhece algum camping na cidade?”

Bom, o que se segue é a demonstração da mais gente-finisse, se é que essa palavra existe. Mas como se trata de um cara poeta, acho que ele nos permitirá uma expressão assim inventada e possivelmente inexistente pra descrever o que ele fez por nós. Veio até o parque onde estávamos e nos guiou até sua casa, em meio ao intenso, porém nada desrespeitoso trânsito de Rio Branco. Cidade que desde o começo nos impressionou pelas ciclovias e pelas estruturas de parques arborizados. No caminho passamos conhecer o Parque Capitão Ciríaco, bem no meio da cidade, onde vimos pela primeira vez a seringueira e o látex amazônico. A partir do primeiro contato com o poeta, toda experiência que vivemos nestes dias foram muito bons. Quando a energia de uma pessoa nos contagia, tudo fica mais bonito.

Me deliciando com as publicações na Biblioteca Pública de Rio Branco, enquanto André acessava a internet. Tive até a companhia de uma amiguinha de fita adesiva.

Tivemos então a alegre companhia de Félix César, sim este grande feliz amigo, que está no nosso coração! Aprendemos tanto contigo amigo, não temos palavras suficientes pra agradecer tudo que fizeste por nós, portanto, vamos deixar as palavras sobrar pras tuas poesias, aquela que nos deste e que vai virar um quadro um dia lá em casa:

“Quando menos nos vestimos da gente, mais precisamos de roupa” (Félix César)

César nos guiou pela cidade, mostrando com orgulho cada cantinho da capital acreana. Mas o cantinho que vimos o brilho no olho do amigo foi mesmo a Biblioteca Pública. E não é pra menos. Se eu fosse acreana, teria um imenso orgulho de contar com tal estrutura facilitadora, inclusiva, convidativa, fascinante e instigante. Mas como Acre é Brasil, embora muitos tripudiem, posso ter orgulho da biblioteca de Rio Branco também. Eram tantos e tão bons livros que consegui mapear com o olhar nos primeiros passos dentro da biblioteca, que fiquei imaginando quanto não tem então de escondido, guardadinho, organizado em prateleiras no fundo de tantos corredores. Realmente foi a melhor experiência dentro de uma biblioteca que tive até hoje, uma vontade de acampar por ali, pernoitar nos pufes, e passar o dia a ler de tudo, tantas publicações maravilhosas, até uma sessão inteirinha de HQ’s. E se não bastasse o acesso a cultura escrita, há também sessões de cinema gratuitos em uma pequena sala de cinema, mas com toda qualidade e conforto. O mais lindo de tudo, foi ver aquele movimento, aquela multidão andando pelos corredores, muitos apenas parados contemplando um livro, alguns de passagem, mas sempre cheia. Biblioteca pública, no centro comercial da cidade, cheia de gente?! É!

Caldo de Tucupi, um subproduto da mandioca/macaxeira, muito comuns no Norte do Brasil.

E o amor e orgulho do acreano estão bem estampados. Nas ruas, não era raro ver carros e estabelecimentos adesivados com a bandeira acreana dentro de um coração. A população sente orgulho de ter conquistado este pedaço de chão. Além do orgulho pela terra linda, há o orgulho pelas tradições e manifestações da cultura bem amazônica, como a culinária e alimentos típicos, que é algo que nos encanta pelo estômago. Nosso amigo nos levou em um dos mercados de frutas, nos deliciamos com toda aquela variedade de frutos da floresta, enquanto ele nos contava da sua experiência trabalhando com o pessoal da Reserva Extrativista Chico Mendes. Uma história a parte, que agora ficará só na nossa curiosidade, porque não sabíamos antes e passamos direto pela entrada da reserva, sem ir conhecê-los e ver como é possível viver apenas do extrativismo consciente, sem desmatamento, sem monocultura, sem devastação e desrespeito com aquela que fornece nosso alimento saudável de cada dia, a mãe terra!

Foi uma dificuldade muito grande decidir a hora de seguir viagem. A vontade era ficar mais e aprender mais com nosso amigo poeta/professor e guia turístico especializado em nos mostrar os trajetos mais agradáveis de se fazer a pé, pela sombra. Porque Rio Branco também é arborizada. De nos despedir de Dona Raimundinha, um amor de pessoa, nos tratando como filhos também. É sempre dolorosa a despedida quando ganhamos mais uma família do caminho. Mas estamos indo ao encontro de nossas famílias de origem, e isso também nos apressa um pouco, nos faz nos demorar menos. Também há a sazonalidade das chuvas, que nos fez apressar porque pretendíamos ainda pedalar um bom trecho pelo Pará . Há várias forças em jogo, as que nos fazem querer ficar, e as que nos impulsionam a partir, outra e outra vez ao desconhecido. Cada casa que deixamos a cada nova manhã e um desapego doloroso mas necessário, um constante não saber o que será do final do dia.

Na casa do poeta! Nossa família acreana por uns dias, já temos saudades…

Assim tivemos de seguir o fluxo da Ciclo Via Chico Mendes, que nos levaria para a saída da cidade, rumo ao estado de Rondônia. Por termos nos demorado em sair, devido a todas as despedidas e novos assuntos que surgiam a cada início de tentativa de dizer tchau, acabamos pedalando pouco neste dia e conseguimos avançar ínfimos 30km até dar de cara com um igarapé convidativo na beira da estrada. Justo naquela hora de maior calor, o meio do dia.

Ciclovias de Rio Branco, muito convidativas e funcionais, facilitam a visão do ciclista em relação ao cruzamento de automóveis, bem como facilita ao motorista ver a trajetória do ciclista com antecedência.

Foi no Balneário Quinauá que o desconhecido destino do dia teve fim com um belo banho de águas negras e refrescantes. Montamos nossa casinha pedindo licença pros mosquitos e fomos tratar de absorver todas aquelas experiências que tivemos em Rio Branco. Dia seguinte, novo dia. Onde iremos parar?

Igarapés convidativos na beira da estrada tem uma consequência: pouco rendimento do pedal diário. Ah! Que refresco!

Depois de umas poucas horas de pedal, encontrar o Balneário Quinauá foi uma delícia! Refrescante banho nas suas negras águas.

Pedal duro o dia todo, sol na moleira, nenhuma sombra. Passaram a gilete na floresta. Sobraram só árvores metálicas gigantes conectadas por uns estranhos cipós elétricos, que nem o mais valente Tarzan se aventura em pendurar-se. Já chegando a noite, encontramos uma escolinha em reforma, os trabalhadores nos levaram até o responsável, que nos concedeu autorização para pernoitar dentro da sala de aula, já que as nuvens escuras e pesadas já anunciavam uma bela tempestade.

Escolinha perto da divisa de estados Acre/Rondônia, que nos abriga em mais uma noite. Final de semana é bom para conseguir uma ajuda para o pernoite.

Noite também partimos, eram 5:20 e já estávamos rodando, com as lanternas ligadas a não ver nada no asfalto cheio de buracos. Odeio pedalar de noite, mas tínhamos pressa em chegar até a Balsa no final do dia. Se deixássemos pra pegar pela manhã, lá se ia meia hora do horário fresco, horário que preferíamos estar pedalando. Mas por informações erradas que tomamos na estrada, e um pequeno e incoerente mapa de poucos detalhes, não conseguimos chegar até a Balsa. Em Vista Alegre de Abunã nos informaram que ainda faltavam 30km até a balsa, e já havíamos pedalado 130km. Buscamos mais uma vez abrigo nas escolas da cidade. Na segunda tentativa, fomos acolhidos em meio a uma confusão. O ventilador da despensa havia dado curto circuito e pegou fogo e derreteu o forro. Por conta disso o vigia teve de chamar a diretora. Para nossa sorte, com a presença da diretora pessoalmente, ficou mais fácil conseguir a autorização para dormir na escola. Só que por conta do pequeno incêndio, a bomba de água não estava funcionando, e devido ao movimento do evento que acontecia na escola, a caixa d’água havia esvaziado. Não teríamos água, muito menos banho. Mas o eletricista veio trabalhar mesmo no final de tarde do domingo, e por mais uma vez, ela, a dona sorte, tivemos então água com pressão de cachoeira nos chuveiros do vestiário do ginásio da escola. Ah, maravilha, um belo banho depois de 130km de pedal nesse calor não é nada mal!

Agora sim, finalmente um trecho reto, sem morros. Só que péra, cadê a floresta? Depilaram a Amazônia!

Mais uma escola,Vista Alegre de Abunã, já em Rondônia. Desta vez, acampados no ginásio de esportes, depois de um dia de 130km de pedal. Chegamos a noite, e saímos ainda de madrugada rumo a Porto Velho.

Outra manhã de madrugar. deixamos a escola antes das aulas começarem, antes do sol raiar e as 8:20 já estávamos dentro da balsa, cruzando pela primeira vez o Rio Madeira. Depois de atravessar de balsa, as estradas ficam planas por um bom tempo. Só mais próximo de antiga Mutum Paraná é que começam algumas serrinhas. Sem saber que esta cidade não existia mais, pois foi movida para outra região em virtude da área que será alagada pela Hidroelétrica de Jirau, fomos parar só com sofridos 110km percorridos no dia, quando encontramos um restaurante e bar. A família nos contou de toda a movimentação em decorrência da construção da hidroelétrica, das indenizações de terras, e das lutas que os moradores locais em vão lutaram. Uma pequena cidade inteira tirada do mapa e incorporada como um bairro de outra cidade. Moveram Mutum Paraná de uma região arborizada, na beira do rio, vimos as mangueiras a dar frutos para ninguém, construções abandonadas, tudo irá alagar. E os antigos moradores movidos para Nova Mutum, um terreno aplainado, no topo de uma subida, a beira da estrada, nenhuma árvore nos quintais, casas todas iguais, ruas planejadas, nenhuma mangueira a dar frutos, de frente para uma fábrica já desativada, nenhum rio a correr ao lado. Uma realidade triste. A população pouca chance tem diante destas grandes corporações que acham que com dinheiro resolvem tudo.

A família do bar que nos abrigou, vive a 2km de uma subestação da hidroelétrica. Mas eles mesmos não tem energia elétrica instalada na residência. Tudo funciona a gerador. Ligam só a noite, para economizar. Toda comida do restaurante deve aguentar no refrigerador que só vai funcionar durante a noite. Não há telefonia, nem sinal de celular, eles não tem comunicação com o mundo ali, apesar de os cabos de fibra ótica passarem a poucos metros de sua propriedade, ali do outro lado da pista. As incoerências deste país. Para quem mesmo estão produzindo esta energia? Pra população brasileira. Aham, sei…

Planícies de Rondônia, antes de pegarmos a balsa para travessia do Rio Madeira.

Próximo a antiga ponte de Mutum Paraná, muitas máquinas trabalham na remoção da madeira das árvores que irão atrapalhar a hidroelétrica. Será que os antigos moradores destas terras sabiam disso? Que vão fazer com toda essa madeira as empresas responsáveis pela usina? Embora esta realidade que vimos e ouvimos da população local nos entristeça, o que nos dá forças para seguir conhecendo nosso país é a esperança de que a natureza se regenerará algum dia deste ferimento profundo. Em pequenos pedaços de mata isolados por um mar de desmatamento, os animais resistem e se exibem em todas suas cores. Como é possível que nossa espécie tenha coragem de acabar com essa beleza em nome do dinheiro, desse desenvolvimento atrapalhado?

Onde ainda há algum pedaço de floresta, abundam aves coloridas, como este barulhento tucano. Lindo demais!

Por conta do desmatamento em virtude da hidroelétrica e também da extensiva área de criação de gado, as sombras na estrada são escassas. Durante os horários de sol mais intenso temos que parar nas poucas oportunidades que temos, e geralmente são estas casinhas de teto de palha, construídas por moradores das margens da rodovia, geralmente próximo a assentamentos ou entradas de estradas vicinais.

As poucas sombras ficam por conta dos abrigos que os moradores de assentamentos da beira da estrada constroem para esperarem os transportes coletivos.

Um solitário cajueiro no acostamento. É claro que não tivemos dó nem piedade só porque o caju era bonito e lustroso. Mandamos pra dentro! Delícioso!

Já chegando próximo a Porto Velho, nos deparamos com uma imagem de uma arara, sentadinha no pilar do portão de uma casa. Sem ter certeza se era de verdade ou de mentira, devagar fomos nos aproximando dela. Logo depois de conversar um pouco com a arara e os donos da casa, fizemos uma pausa de descanso em um ponto de ônibus de frente para um imenso descampado com umas cabeças de gado invisíveis. Da estrada que leva até a fazenda, um imenso caminhão carregado de toras de madeira com diâmetro muito acima de 1m e comprimento absurdo, passa por nós. Não conseguimos tirar a máquina fotográfica a tempo de registrar a cena. Não havia nenhuma placa de registro nas toras. Isso pode indicar que sua extração possivelmente é ilegal.
Não conseguimos chegar em Porto Velho neste mesmo dia, paramos então no Balneário do Souza, mesmo local onde o amigo Thiago Fantinatti relata que pernoitou em sua jornada no livro Trilhando Sonhos. Infelizmente o seu Souza não é mais proprietário do local e não pudemos conhecer a figura. Mas tivemos um delicioso final de dia, bela paisagem e água refrescante de igarapé pra esfriar a cuca de tantas desilusões.

Você seria capaz de dizer se é uma arara de verdade ou um enfeite sobre o portão?

Mas era a Lara! Uma arara muito simpática, que vem se aproximando conforme nos aproximamos. Ela foi capturada quando pequena e sofria maus tratos. Foi então adotada por uma família que lhe dá liberdade, mas ela não soube mais se adaptar à vida selvagem outra vez. Contaram que no Natal ela saiu, ficou 3 dias fora. Quando voltou, dormiu por 3 dias, exausta que estava. Dizem os fofoqueiros que foi em busca de um namorado…

Faltavam pouco mais de 40km até Porto Velho, que conseguimos tranquilamente cumprir na manhã seguinte. Chegamos sem ter onde ficar na capital, pois nosso contato por lá não estava na cidade. Fomos então buscar informações do barco até Manaus, e soubemos que estava para partir em uma hora. Ainda teríamos que providenciar muitas coisas, mas o próximo barco seria só dali a 3 dias. Decidimos nos apressar e o pessoal da agência nos ajudou, levando André de carro para sacar dinheiro, comprar as redes onde dormiríamos no barco, uma marmita de arroz com feijão, e um bom estoque de comida para os 4 dias de viagem. Não pudemos conhecer muito bem Porto Velho, e a parte que conhecemos no caminho até o porto não foi muito agradável. Esperamos que em outra oportunidade possamos conhecer melhor esta capital, não foi desta vez. No próximo post contaremos como foi essa viagem maluca de barco até Manaus.