Tierra del Fuego al fin del mundo

Primeiro dia na terra do fogo e o vento já dizia a que veio. O dia todo o vento nas costas não nos fez sentir quão mal estava o rípio. Apesar do relevo oscilante no início, o restante do dia foi de média de 20km/h sem fazer muita força. Cada parada de lanche e descanso era uma odisseia  voava aveia pra todo lado, só sobrava um pouco na caneca para nos alimentar, apesar do esforço em nos proteger da ventania e tentar salvar algumas migalhas de comida.

Haviam nos dado a dica de pedir pouso em algumas das estâncias no caminho, já que com esse vento é impossível que qualquer barraca resista. Contrariamos a preciosa informação levados pela empolgação do vento a favor. Já as 21h da noite havíamos feito 100km no rípio e chegávamos a um ponto de ônibus com as janelas quebradas onde mal cabíamos. Mesmo assim, o André insistiu em colocar as bicicletas pra dentro, “Segurança ao invés de conforto” era o que ele me dizia. O céu estava ameaçador e o vento desta vez não diminuiu ao cair da noite como no dia anterior. Pior, ele só aumentava e trazia consigo pingos de chuva que para a nossa sorte e falta de juízo não chegou a cair. No ponto de ônibus onde nosso mapa marca “Onaisin” tivemos a segunda pior noite da viagem. A primeira foi essa aqui, se vocês não lembrarem.  Bivacamos naquele frio dentro do ponto de ônibus e todas as tentativas de tapar as janelas com toldo ou isolante de dormir foram frustradas, assim dormimos com o vento na cara e caso aparecesse algum puma, seríamos lanchinho fácil pra ele, dado o desprotegido do “abrigo” e nosso extremo cansaço.

Dia seguinte, ao abrir os olhos é uma benção sentir-se vivo, mais um dia presente, um presente de Deus, uma benção continuar a jornada. Eu só me sentia grata por estar me sentindo bem apesar de muito cansada e sonolenta. Acordei com a cara do tamanho de um balão bem inflado e vermelho. Seguimos nosso caminho cedinho, pois não havia muito o que fazer por ali.

Cinquenta quilômetros de rípio nos aguardavam antes de encontrar o pavimento, e no fim do rípio as aduanas. O vento já estava fortíssimo, até porque não parou a noite toda. Chegando ao asfalto ele estava de lado, meio em diagonal, e mesmo assim nos ajudou a manter uma média alta. A idéia era fazer 80km mais até Rio Grande e lá procurar um camping ou alojamento. Chegamos na cidade ao cair da tarde e tratamos de procurar mantimentos e buscar um lugar para ficar. Tentamos de tudo, até o albergue municipal, que estava vazio mas nos disseram que estava cheio. Não tínhamos onde ficar e o hostel mais barato saía a preço de hotel de luxo. Tratamos de ir ao posto de gasolina que uns amigos indicaram que havia ducha quente de graça. Aí tomamos um belo banho e usamos internet. Já as 21h saímos da área urbana em busca de um lugar para acampar, o sol estava para se pôr mas ainda havia algumas horas de claridade, pelo menos até as 23h. Estávamos preocupados, sem ter onde ficar e com um vento louco para atazanar as idéias. Assim mesmo, tiramos um pouco de paciência do fundo da alma para apreciar um dos mais belos entardecer de toda a viagem.

A periferia de Rio Grande não é nada bonita ou amigável, principalmente quando a noite se aproxima. Fomos encontrar abrigo na última construção da cidade, já bem fora da área urbana. Havia um quadradinho de grama protegido do vento e ninguém atendia ao nosso chamado “Holaaaaa”. Até que no prédio em frente um senhor nos chamou. Nos ofereceram ficar dentro da estufa, era o horto municipal que a comunidade queria transformar em camping. Depois conversando com eles, ofereceram a cozinha, e depois ofereceram usar o fogão. Quanta sorte! Até o banheiro tinha água quente nas torneiras.

Este foi o dia mais longo da viagem até agora, mais de 8h de pedal e 150km acumulados, começamos a pedalar as 7h e 30min e terminamos as 22h. Dormimos na cozinha do horto municipal, com calefação e fogão a disposição, quentinhos e bem acolhidos.

Dia seguinte, que novidade! O vento não parou. Até Tolhuin queríamos e precisávamos fazer em um dia. O vento nos golpeou de lado o tempo todo. Por termos dormido pouco, não haviam muitas forças. Nos primeiros 20km encontramos um caminhão estacionado, paramos comer algo e o sono nos pegou. Fizemos uma siesta tomando sol e apoiados nas rodas do caminhão que funcionava agora para nós como um barravento.

Recomeçar a pedalar foi tão difícil! Mesmo assim conseguimos chegar a Tolhuin no final da tarde. Aos poucos a paisagem de pampa foi dando lugar a um bosque. Bandos e bandos de guanacos nas áreas mais abertas e alguns que nos seguiam, rindo de nosso infortúnio, o vento!

Em Tolhuin procuramos pela famosa Padaria, ou a Padaria dos Famosos. As cozinheiras e os padeiros nos mostraram o lugar onde acolhem os ciclistas que vêm de todas partes do mundo. Um quarto quentinho, com as paredes todas desenhadas, banho quente, beliche, cama e colchão de casal. Quando já adormecíamos, chegou um casal de mochileiros italianos que também foram acolhidos.

Na manhã seguinte alcançamos chegar ao camping livre do lago Escondido. Aí ficamos um dia a mais de descanso. Depois de descansar neste lugar tão tranquilo e maravilhoso, estávamos recuperados para enfrentar o Paso Garibaldi, uma subida gradiente e suave que assusta a muitos, mas que se revelou amigável e charmosa. No entanto até Ushuaia esta não seria a única subida, e chegamos ao famoso centro urbana austral no cair da tarde, depois de pegar um pouco de chuva pelo caminho.

Ushuaia! Finalmente! Esta cidade que a tantos ciclistas atrai por ser o ponto urbano mais ao sul do continente, coroada por montanhas de neve e picos tão íngremes e de formatos tão estranhos. Mas toda esta magia se perdeu ao sermos forçados contra o intenso movimento do transito de veículos. O acesso ao centro nada amigável aos ciclistas, nenhum acostamento, pista estreita, vento e frio. Talvez se tivéssemos chego mais cedo, não em horário de rush teríamos nos sentido mais calmos e seguros.

Enfim chegamos ao centro e a primeira  coisa a fazer seguramente é buscar comida, supermercados, abastecer o tanque. Nas informações turísticas apenas nos informaram os campings privados e nos disseram que o camping municipal, supostamente gratuíto não recebia estrangeiros, apenas argentinos, e que não poderíamos acampar aí. Além disso era afastado demais do centro, 4km por estrada de chão e com vento contra. Bom, assim mesmo fomos ao camping municipal, olhando cada cantinho promissor pelo caminho para acampar, caso nos recusassem no local. Já na saída da cidade havia um camping privado, mas o preço era proibitivo, arriscamos outra vez seguir com aquele vento na cara. Chegamos ao camping municipal e a informação da Desinformação turística se revelou totalmente equivocada. É permitido sim acampar ali, estrangeiro ou residente. Mas não há conforto nenhum. Não há água, os banheiros são nojentos (sem água!), e o camping municipal é o local onde os munícipes descarregam suas energias, ou em outras palavras, é o lugar permitido para bagunçar.

Então dormimos protegidos do vento atrás de um arbusto, mas na manhã seguinte não nos protegia da falta de noção de certos pais de família. As 6h da manhã um ruído horrível nos desperta. Vontade de matar um! Quando abrimos a porta da barraca o que vemos: uma menina de não mais de 10 anos dirigia um quadriciclo barulhento para todos os lados. O jeito foi desarmar acampamento e tentar encontrar uma ducha pela cidade. Não logramos. Então fomos ao camping Pista del Andino e ficamos uma noite aí, era preciso lavar roupa e tomar banho. O camping era lindo, mas igualmente caro. Esperávamos o amigo Arthur que chegaria por estes dias. Compramos um vinho e cozinhamos uma janta o esperando. Por azar fomos nos encontrar somente no dia seguinte. Seguimos novamente ao camping municipal os três na intenção de visitar o Parque nos dias seguintes. Nos agarrou a preguiça e a avareza e acabamos ficando no camping municipal todos os dias e não fomos ao parque só para bater aquela famosa foto na placa da Bahia Lapataia. Preferimos ficar curtindo a chuvinha no camping municipal na compania do amigo Arthur e no dia seguinte também deixamos Ushuaia com apenas um destino: o norte!

Parques Nacionais para sugar sua grana?

…ou porque não fomos à Torres del Paine, Perito Moreno, e muitos outros parques na Patagônia.

Ficamos com este gosto amargo de trapaça na boca até Puerto Natales e por isso nos recusamos a servir de capacho turístico , e também pelo mesmo motivo não vamos pagar pra ver a Natureza sendo domesticada e comercializada em larga escala, massificada e enfiada goela abaixo. Torres del Paine pode ser bonito, estonteante e magnifíco, mas foi feito para quem tem grana sobrando ou para aqueles que se sujeitam a caminhar em meio à muita gente (muita gente mesmo), para um tipo de turista high-teck com suas coloridas roupas novas e seus tec-tec bastões de caminhada. Não foi feito para quem curte o silêncio, a paz, a contemplação da natureza.

Não sei se ele não foi feito pra pessoas como nós, ou se aos poucos os olhos cresceram e ficaram gordos para o dinheiro dos estrangeiros. Sulamericanos ainda pagam menos que os europeus. Não acho isso justo. Sei que o parque tem seus custos, e é por isso que são NACIONAIS, não privados, assim como as universidades públicas. Que eles precisem manter as trilhas, que precisem manter um bocado de estrutura, ok. Mas acho que TDP passou dos limites em relação aos preços. É um parque para uma elite.

Não estivemos lá e não podemos avaliar a sua beleza. Apenas não concordamos com a politica da coisa. Na minha opinião, o parque só é o que é devido ao Marketing. Fecharam a grande parte dos campings livres com a desculpa do incêndio que destruiu metade do bosque do parque. E quão ecológico é um hotel  chique lá dentro? E estão compensando as emissões de CO2 que os ônibus que trazem e levam embora os turistas do parque emitem? E o barco que leva à galera até o Glaciar só para evitar uma caminhadinha de algumas horas?

Sim, o parque tornou-se acessível à pessoas que não estão dispostas ou não podem fazer exercícios físicos, mas acabou excluindo aqueles que estão dispostos a fazê-lo, tirou o ‘tesão’ da coisa.

Falamos com um bocado de mochileiros que estiveram em TDP e em outros parques do Chile, nenhum estava feliz de ter ido ao TDP, principalmente depois de terem visitado também o Parque Cerro Castillo (Em Villa Cerro Castillo, +ou- 80km ao sul de Coihaique, Chile) ou o Los Glaciares (El Chaltén, Argentina). Nos falaram da multidão pelas trilhas, dos campings caros, de ter que fazer uma caminhada muito mais longa por dia pra poder economizar um dia de camping pra chegar a um dos últimos campings livres ainda abertos.

Estivemos no Parque Cerro Castillo, e também no Pumalin, ambos no Chile, e também no gratuíto Los Glaciares na Argentina, de onde contemplamos a beleza do Cerro Torre e Fitz Roy. Nenhum deles precisamos pagar para entrar ou acampar. Como estes parques mantêm suas trilhas limpas e abertas? Os acampamentos livres? A sinalização? Eles não estão no guia do planeta solitário? Porque para ver as TDP, e tudo o que digo se aplica também ao Glaciar Perito Moreno e ao Parque Lapataia em Ushuaia, é tão absurdamente caro? Se você tiver uma resposta pra nós, ficaremos agradecidos. Talvez um dia a gente consiga entender o que tem por trás de tudo isso. Espero que seja a tempo de poder visitar estes parques sem ter que vender nossos rins, ou ter que apelar a práticas consideradas criminosas como entrar nos parques escondidos no meio da noite, sentindo como se fôssemos nós os criminosos e não eles.

A discussão está aberta, esperamos sua opinião.

(Abaixo algumas fotos de Parques onde não nos foi cobrado para conhecer)

Estatísticas de Viagem até dia 304

 Aí estão alguns números de nossas pernoites durante os 304 dias de viagem até então. Fizemos esta planilha para ter uma ideia inicialmente de quantas noites a barraca está aguentando, dos custos com campings, etc. Mas depois pensamos que estes dados podem ser úteis pra quem está planejando uma viagem de bicicleta e pensa que vai precisar de muita grana, então decidimos compartilhar os gráficos com vocês. Abaixo da imagem algumas explicações sobre a tabela.

Estatísticas da viagem até o dia 304

Camping Livre: campings municipais ou dentro de parques onde é permitido acampar, porém não há custo, é permitido acampar gratuitamente.
Camping selvagem: quando acampamos no meio da natureza sem precisar pedir permissão a ninguém, ou mesmo ao lado da estrada, escondidos da vista ou não.
Camping doméstico: quando pedimos permissão para alguém para acampar em seu quintal/fazenda/terras.
Bivaque Selvagem: quando encontramos algum abrigo na estrada e não é preciso montar a barraca e nem pedir permissão a ninguém.
Bivaque Doméstico: quando pernoitamos em abrigos com a permissão de alguém e sem montar a barraca.
Hospedagem Solidária: noites em que fomos recebidos dentro da casa de alguém com todos os confortos como cama, banheiro, cozinha, etc.
Camping Privados: campings em que pagamos para pernoitar.
Preços camp.Privado: preço por noite por pessoa para depois calcularmos a média de preços entre os campings que ficamos.
Média de preços: ficou uma média bem baixa, como R$9 por noite dormida em camping privado por pessoa, incluindo alguns campings em que ninguém apareceu pra cobrar.
Total gasto com camping pago: agora sim o nosso gasto com campings pagos por duas pessoas.
Total gasto por pernoite: aqui incluímos o preço que investimos em nossa barraca e contabilizamos todas as noites acampadas mais os custos de campings privados e fizemos o cálculo médio por noite. Com base neste número concluímos que valeu muito a pena o investimento em uma boa e espaçosa barraca, assim nosso custo por noite de aproximadamente R$9 para os dois (R$ 4,50 para cada um de nós), ficou muito abaixo do que imaginávamos. E como a barraca ainda está em prefeito estado, este número ainda vai continuar diminuindo!

Esperamos um dia ter pique para fazer uma tabela com o custo total da viagem por dia. Entretanto sabemos que além do gasto desta tabela, apenas gastamos com alimentação e algumas entradas de parques nacionais e alguns barcos/balsas.

Com esta tabelas tivemos a certeza de que é possível realizar uma viagem de bicicleta com baixo custo, ou ainda em baixíssimo custo se você se esforçar mais que nós. Com isso verificamos que gastamos menos no dia-a-dia pedalando, do que quando vivíamos em uma cidade.

Bolsa de água de baixo custo

Sabemos da dificuldade de encontrar equipamentos aqui no Brasil. Ou os impostos são ridículos, o que pode chegar a triplicar o preço original do produto a ser importado, ou ainda a falta de interesse das empresas de vender no Brasil, justamente pela inviabilidade que os impostos nacionais impõe, e aí os produtos ficam encalhados nos estoques das lojas.

Por isso é preciso dar o seu jeitinho. No nosso caso, muitos equipamentos para a viagem que estamos realizando foram improvisados, tiveram baixo custo e nós mesmos fizemos. É o caso das bolsas de água que carregamos. Numa trilha que fizemos ao Cambirela, com o amigo Luciano, ele nos mostrou sua invenção: uma bolsa feita retalhos de jeans para carregar sua bolsa de água. A tal bolsa de água foi aproveitada de sacos de vinho, vendidos dentro de caixas aí no Brasil.

Resolvemos preparar duas bolsas para os sacos de vinho de supostamente 3,5L cada um. O que acabamos descobrindo é que eles podem carregar até 5L cada um quando bem cheios. Estamos usando os mesmos sacos há 9 meses de viagem, jogamos eles de qualquer jeito pra lá e pra cá, inclusive um dia o saco cheio caiu da bike enquanto pedalávamos e por sorte ou providência divina, os dois ainda estão em perfeito estado.

Tivemos a oportunidade de viajar algumas semanas com outro casal de ciclistas que carregava uma bolsa de água comprada, capacidade de 10L. Ficamos tentados a trocar as nossas bolsas feitas em casa por um destes, que são relativamente acessíveis no Chile, mesmo ainda não sendo um produto barato. Mas desistimos ao constatar que a tal bolsa deixa um gosto terrível na água. Mesmo assim, o sistema deles de torneira é muito mais prático que  o da bolsa de vinho, e o revestimento é uma espécie de cordura resistente a abrasão, além de oferecerem uma série de acessórios, desde torneiras mais práticas ainda, a filtros de água que podem ser acoplados. Não negamos a qualidade do produto, mas se seu objetivo é economizar no equipo de viagem, ou não cair na tentação consumista e fazer à mão os equipos que puder, então a bolsa de vinho é uma boa alternativa.

Esta bolsa de água caseira tem inúmeras vantagens:

  • Ocupa nenhum espaço quando vazia;
  • É muito leve, e fácil carregar alguns sacos extras na bagagem, caso algum venha a furar;
  • Possibilita carregar muita água extra para grandes travessias em áreas desérticas;
  • A capa preta facilita o aquecimento da água com luz solar possibilitando um banho morninho nos dias em que não pedalamos;
  • Muito prático para lavagem de louça;
  • Lhe dá a oportunidade de beber alguns litros de vinho;
  • Se você não bebe, pode conseguir esses sacos facilmente em restaurantes, e aí estará colaborando com o meio-ambiente através da reutilização de um ítem que iria virar lixo.

Se você está convencido a fazer um pra você, veja a sequência de fotos abaixo que demonstra como costurar a bolsa, e como adaptar o bico para facilitar a remoção do mesmo para recarregar de água. (Clique nas fotos para ver maior e ler as instruções)

Com os pés no Rio Grande, Thchê!

Cruzamos a fronteira entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul de balsa pelo Rio Uruguai, e sem custo nenhum.  Mas precisamos passar por uma revista do exército, que estava a realizar alguma operação anti-drogas que não ficamos sabendo, pois não assistimos televisão. Na verdade a tal revista foi ver nossos RG’s e aproveitar a deixa para curiosar o de sempre “deondevempraondevaiquantosquilômetrosequandochove?”. Na  estrada até Vista Gaúcha alguns caminhões cheios dos verdinhos passaram pela gente com muita simpatia, sempre reduzindo a velocidade e acenando.

Os primeiros quilômetros no território gaúcho ainda foram de muitas montanhas para subir e descer, e paisagens ainda muito parecidas com as do oeste catarinense. Aos poucos, a paisagem montanhosa e verde escura foi dando lugar a pequenas colinas quase planas de cor verde clara e cor de areia, dêem as boas vindas às lavouras, os desertos verdes que servem para alimentar esses seres herbívoros. Não, eu não estou falando dos vegetarianos e veganos comedores de soja, estou falando dos cavalos de corrida, do gado e de todos os animais que servem ao homem como fontes de prazer ao paladar e ao lazer de muitos apostadores. Ficamos muito indignados ao saber que os cavalos de raça, cujos donos os usam para corridas de aposta, são tratados a aveia e alfafa, comida que nós mal conseguimos comprar de tão cara nos supermercados. Ao ver tanta lavoura eu ficava me perguntando “Será que existe tanta gente assim pra comer tanta aveia?!” é claro que não, “You idiot”! Essa aveiarada toda é pros cavalinhos de corrida, e outros animais criados para engorda e abate.  Não tem nada mais desprazeroso do que pedalar quilômetros e quilômetros debaixo do sol, numa rodovia cercada de lavouras sendo pulverizadas de veneno a todo instante, sem nenhum refúgio de sombra ao longo da estrada a não ser uns poucos pontos de ônibus em uma vilazinha ou na frente de alguma mega empresa cerealista. Sabe o que é precisar fazer xixi e não encontrar nenhum matinho pra se esconder? Pois é, aí você torce pra não passar ninguém enquanto você tiver com as calças abaixadas.

Desde Tenente Portela até São Miguel das Missões a paisagem tem sido lavoura. Ao menos até chegarmos em Ijuí os acostamentos eram pedaláveis e o movimento, comparando com a BR que pegamos em seguida, até que pequeno. Neste trecho batemos o recorde de animais exóticos abatidos nas estradas. Conta comigo: vários cães do mato, um gato do mato ainda quente, um tamanduá já inflando, um pássaro de bico fino e longo de grande porte que não conseguimos identificar, um tatu, uma lebre, um surucuá, além dos costumeiros gambás, passarinhos, pombinhas, cães e gatos domésticos.

Passamos alguns apuros para encontrar um local para pernoitarmos em Ijuí, apesar da cidade ter mais de 7 CTG’s (todos pareciam estar em festa, sábado a noite sabe como é), fomos parar no pátio da Polícia Rodoviária Federal após outro recorde, mais de 80km pedalados no dia. Para alegrar o dia de sofrimento, ganhamos um pão de milho numa padaria da cidade, pois o padeiro foi com a nossa cara e quis nos presentear. Foi a sorte do dia seguinte, pois domingo era dia dos pais e estava difícil encontrar mercadinhos abertos pelas pequenas cidades ao longo da BR-285. Já caindo a tarde o acostamento começa a piorar pra valer, e estava sendo preciso empurrar até mesmo na descida. Essa tensão aliada ao movimento da data comemorativa deixava nossa moral ainda mais baixa, e parecia não haver lugar propício para passarmos a noite. Mas como esperávamos um final feliz, lá no topo da montanha tinha uma Igrejinha e uma cancha de bocha coberta. A pequena colina parecia o Evereste e não chegava nunca, empurra e empurra.

Armamos acampamento sem pedir autorização e sem avisar ninguém, estávamos tão cansados que não tínhamos humor para procurar os vizinhos e conversar. Só queríamos saber de um belo banho de caneca, janta e saco de dormir. Mas eis que, nem tudo são flores num dia tão lindo. E lá pelas 23h, já nos idos do sono profundo, o barulho das telhas de zinco batendo anunciaram um desastre que felizmente não aconteceu. A estrutura do  local parecia balançar com o vento, mas graças à chuva que logo ca

De Santa Rosa de Lima a Urubici

Chegamos em Santa Rosa pela manhã, tratamos de nos abastecer de mantimentos e informações. Fomos ao escritório da Acolhida na Colônia, em busca de dicas sobre estradas que cortassem caminho, para que não fosse preciso passar por Rio Fortuna e Grão Pará. Conseguimos as dicas por lá, mas acabamos errando parte do caminho indicado. A estrada ainda não tem mapeamento pelo Acolhida e nem aparece no google maps, mas estava sinalizada em algumas partes. Como no momento da encruzilhada não encontramos ninguém para perguntar, seguimos em frente. De qualquer maneira o caminho que pegamos sai no mesmo local, em Aiurê. Mas pelo que nos informaram acabamos pegando o caminho mais difícil. Enfim, subimos e descemos, mas o caminho era lindo! Não passou nenhum veículo por nós no trecho que pegamos errado, a não ser uma tobata.

Acampamos em Rio Chapéu, ao lado da Igreja e centro comunitário. Para nos certificar de que não haveria bolas voando em nossa direção pela segunda noite consecutiva, fomos perguntar a dona Erica. Limpeza, nada de jogos. Nada de jogo uma ova! Haha, menos mal que era dentro do ginásio, mas como a galera vinha de moto, a bagunça foi garantida até as dez e meia da noite. Como nosso dia é muito cansativo, essa hora já é madrugada pra gente, e já estaríamos no quinto sono caso estivesse silencioso. Que nada, duas noites conscutivas de futebol é só pra testar a paciência.

Lá fomos nós em direção a Aiurê. Enquanto esperamos o mercado abrir, conhecemos o seu Fernando, uma figura centenária, acabava de completar 100 anos e está muito lúcido. Contou-nos histórias sobre sua juventude e sobre a região. Nos revelou o segredo de sua saúde: comer pouco, quase nada de carne. Aeeeee seu Fernando, bate aqui! Tamo junto, hehehe.

De Aiurê enfrentamos o começo das subidas mais brutais até agora. Acampamos aos pés da Serra do Corvo branco, em um gramado digno dos teletubies. Como não era plano, garantido que não haveria futebol por ali esta noite. Certeza! Bingo, acertamos. Noite calma e silenciosa. Ao amanhecer, assistimos o espetáculo do nascer do sol, e começamos a subir. A Serra do Corvo Branco é magnífica, e subindo assim devagar é o ideal, pois só assim há tempo para contemplar. Em cada curva um descanso, em cada descanso alguém estacionava para conversar conosco. Assim, passou rápido e logo estávamos lá em cima. Logo sim, demoramos 4h para subir com esse peso todo. Mas chegamos!

Descer a serra e tratar de seguir até Urubici, mas no meio do caminho uma placa para conhecer a furna do Rio do Bispo. Infelizmente a entrada é fechada somente para grupos com guia, sob o aluguel de cavalos, para percorrer 1km até lá. Desistimos de conhecer a furna, mas conhecemos o seu Antonio, senhor de uns 80 anos, morador das margens do rio do Bispo, que nos cedeu um pedaço de gramado para acamparmos. E sabe o que mais, o seu Antonio foi aluno do seu Fernando, lá em Aiurê, na época em que a vila nem tinha ainda este nome.

Dia seguinte seguimos para o centro de Urubici, pela nova estrada asfaltada. Quando estivemos aqui em 2009 ainda era estrada de chão. Agora parece até outra cidade. Paramos novamente na propriedade de outro Antonio, um velho conhecido, pois já acampamos aqui outras duas vezes. Ele e sua família nos acolheram novamente em sua fazenda, e no domingo até nos convidaram para o almoço. Pela tarde, o filho mais novo do seu Antonio nos levou conhecer as cavernas que ficam em sua propriedade. Um pouco de medo, mas acabamos entrando. Muito louco o que vimos lá dentro, além de aranhas bem esquisitas, uns cogumelos que jamais vimos antes.

Vamos ficar uns dias em Urubici, para conhecer alguns pontos turísticos que não conseguimos conhecer das outras vezes que estivemos na cidade. Depois seguimos rumo a Urupema, para tentar pegar algum frio, pois por enquanto só estamos é passando calor por aqui.

De Florianópolis a Santa Rosa de Lima

Conseguimos partir, que alivio, depois de inúmeros contratempos estamos finalmente na estrada por tempo indeterminado. Agora, cada dia a mais de viagem, é um dia a mais. Não como antes, quando viajávamos com tempo certo para voltar, cada a dia a mais na estrada, era um dia a menos de estrada.

Antonio Carlos a Angelina

Começamos a viagem bem devagar. Estes primeiros dias não passávamos de 15km. Com as bicicletas muito carregas, demoramos a acostumar, e logo no início enfrentamos estradas sinuosas e sempre para o alto. Também estamos evitando estradas de asfalto, quando é possível, optamos pelas estradas de terra que passam pelo interior. Além de ser mais fácil encontrar local para acampar, sempre ganhamos frutas e verduras. Também tem a questão do menor movimento, o que deixa a pedalada mais agradável.

 

Primeira noite nem foi preciso armar barraca, bivacamos na varanda de uma casa em construção. Amanhece o segundo dia chovendo, pra testar a força de vontade. Andamos em círculo a manhã toda por conta de informações desencontradas. Pedalamos na chuva a toa, mas ao menos testamos se tudo iria ficar seco dentro dos alforges. Estiou e pegamos um estrada linda e plana até o abrigo da próxima noite. Aí as árvores de laranja e bergamota estavam só começando.

Os primeros dias tardamos a sair pela manhã, ainda estamos (com preguiça de levantar no frio) adaptando e acomodando as bagagens, de maneira que fique melhor organizado e mais fácil pra localizar. Em Rancho Queimado despachamos mais de 4kg de bagagens que se comprovaram pouco úteis. Ficar um pouco mais leve não faz mal a ninguém. Lá em Rancho, enquanto o André colocava o pacote nos Correios, e eu guardava as compras de mantimentos, conhecemos o Etienne, há dois meses na estrada de bicicleta, este francês estava vindo de Buenos Aires, e passava uns dias de descanso por ali. Primeiro cicloviajante que encontramos.

Em Anitápolis, passamos a noite numa casa em construção ainda sem vidros, mas o fogão a lenha estava pronto, e o proprietário ainda deixou uma montanha de madeira para usarmos. Antes de Santa Rosa de Lima paramos aos pés de uma gigantesca figueira, ganhamos um banho quente grátis na casa da Dona Zenaide, que ainda nos liberou laranjas e bergamotas do quintal à vontade. Quanta generosidade e hospitalidade! Pela manhã um espetáculo por conta da diversidade de aves que vinham se abastecer no quintal da Zenaide.

Mais fotos desta parte da viagem na nossa página de Fotos, clique aqui.

No próximo post mais sobre a viagem: de Santa Rosa de Lima a Urubici por estradas que não estão no mapa.

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Até o próximo post!

Alô Alô, testando…

Assim que o André terminou a montagem das bicicletas e a barraca estava nas mãos decidimos fazer um pedal teste para Bombinhas. Não estávamos com absolutamente tudo ok ainda (e nem agora estamos), mas tínhamos muita curiosidade para ver as bikes em ação e o desempenho da nova casa.

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Para chegar e sair do local onde acampamos foi preciso uma hora de trilha íngreme levando as bagagens aos poucos, fazendo várias idas e voltas até levar tudo. Mas o pior foi enfrentar o trecho de Porto Belo até Bombinhas depois de um temporal. Coisa de maluco, a rua inundada completamente, muitos buracos enormes e o pavimento um horror, nenhum acostamento e além disso nenhum motorista respeitando os ciclistas. É estranho uma cidade turística e por onde passa inclusive um roteiro de cicloturismo acolher desta maneira os visitantes.

Apesar dos percalços do caminho, passamos um par de dias bem tranquilos no acampamento, testamos algumas receitas, lemos deitados nas pedras na beira do mar, na rede e na barraca, e eu até levei uns bordadinhos pra fazer. Ainda conseguimos recolher dois sacos cheios de lixo que o pessoal que pesca por perto do local sempre deixa pra trás, um nojo, tinha de tudo largado por lá, não conseguimos tirar tudo, era uma montanha de lixo. O que mais tinha era garrafa PET e de catuaba, sem falar na grande quantidade de pilhas e baterias. Terrível! É incrível a falta de consciência das pessoas.

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Saímos de casa sem ver a previsão do tempo, mas tivemos sorte por ter chovido, pois era o que precisávamos pra saber se a barraca aguentaria chuva forte sem precisar passar silicone nas costuras. Aliás, não foi uma chuvinha qualquer, pegamos um baita temporal. Nada passou, ainda bem!

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Apesar do local ser mais lindo em dias de sol, ficamos muito satisfeitos por ter chovido estes dias. Agora falta pouco para estarmos na estrada definitivamente, uma semana bem cheia de afazeres nos espera. E algo me diz que ela passará voando!