Tierra del Fuego al fin del mundo

Primeiro dia na terra do fogo e o vento já dizia a que veio. O dia todo o vento nas costas não nos fez sentir quão mal estava o rípio. Apesar do relevo oscilante no início, o restante do dia foi de média de 20km/h sem fazer muita força. Cada parada de lanche e descanso era uma odisseia  voava aveia pra todo lado, só sobrava um pouco na caneca para nos alimentar, apesar do esforço em nos proteger da ventania e tentar salvar algumas migalhas de comida.

Haviam nos dado a dica de pedir pouso em algumas das estâncias no caminho, já que com esse vento é impossível que qualquer barraca resista. Contrariamos a preciosa informação levados pela empolgação do vento a favor. Já as 21h da noite havíamos feito 100km no rípio e chegávamos a um ponto de ônibus com as janelas quebradas onde mal cabíamos. Mesmo assim, o André insistiu em colocar as bicicletas pra dentro, “Segurança ao invés de conforto” era o que ele me dizia. O céu estava ameaçador e o vento desta vez não diminuiu ao cair da noite como no dia anterior. Pior, ele só aumentava e trazia consigo pingos de chuva que para a nossa sorte e falta de juízo não chegou a cair. No ponto de ônibus onde nosso mapa marca “Onaisin” tivemos a segunda pior noite da viagem. A primeira foi essa aqui, se vocês não lembrarem.  Bivacamos naquele frio dentro do ponto de ônibus e todas as tentativas de tapar as janelas com toldo ou isolante de dormir foram frustradas, assim dormimos com o vento na cara e caso aparecesse algum puma, seríamos lanchinho fácil pra ele, dado o desprotegido do “abrigo” e nosso extremo cansaço.

Dia seguinte, ao abrir os olhos é uma benção sentir-se vivo, mais um dia presente, um presente de Deus, uma benção continuar a jornada. Eu só me sentia grata por estar me sentindo bem apesar de muito cansada e sonolenta. Acordei com a cara do tamanho de um balão bem inflado e vermelho. Seguimos nosso caminho cedinho, pois não havia muito o que fazer por ali.

Cinquenta quilômetros de rípio nos aguardavam antes de encontrar o pavimento, e no fim do rípio as aduanas. O vento já estava fortíssimo, até porque não parou a noite toda. Chegando ao asfalto ele estava de lado, meio em diagonal, e mesmo assim nos ajudou a manter uma média alta. A idéia era fazer 80km mais até Rio Grande e lá procurar um camping ou alojamento. Chegamos na cidade ao cair da tarde e tratamos de procurar mantimentos e buscar um lugar para ficar. Tentamos de tudo, até o albergue municipal, que estava vazio mas nos disseram que estava cheio. Não tínhamos onde ficar e o hostel mais barato saía a preço de hotel de luxo. Tratamos de ir ao posto de gasolina que uns amigos indicaram que havia ducha quente de graça. Aí tomamos um belo banho e usamos internet. Já as 21h saímos da área urbana em busca de um lugar para acampar, o sol estava para se pôr mas ainda havia algumas horas de claridade, pelo menos até as 23h. Estávamos preocupados, sem ter onde ficar e com um vento louco para atazanar as idéias. Assim mesmo, tiramos um pouco de paciência do fundo da alma para apreciar um dos mais belos entardecer de toda a viagem.

A periferia de Rio Grande não é nada bonita ou amigável, principalmente quando a noite se aproxima. Fomos encontrar abrigo na última construção da cidade, já bem fora da área urbana. Havia um quadradinho de grama protegido do vento e ninguém atendia ao nosso chamado “Holaaaaa”. Até que no prédio em frente um senhor nos chamou. Nos ofereceram ficar dentro da estufa, era o horto municipal que a comunidade queria transformar em camping. Depois conversando com eles, ofereceram a cozinha, e depois ofereceram usar o fogão. Quanta sorte! Até o banheiro tinha água quente nas torneiras.

Este foi o dia mais longo da viagem até agora, mais de 8h de pedal e 150km acumulados, começamos a pedalar as 7h e 30min e terminamos as 22h. Dormimos na cozinha do horto municipal, com calefação e fogão a disposição, quentinhos e bem acolhidos.

Dia seguinte, que novidade! O vento não parou. Até Tolhuin queríamos e precisávamos fazer em um dia. O vento nos golpeou de lado o tempo todo. Por termos dormido pouco, não haviam muitas forças. Nos primeiros 20km encontramos um caminhão estacionado, paramos comer algo e o sono nos pegou. Fizemos uma siesta tomando sol e apoiados nas rodas do caminhão que funcionava agora para nós como um barravento.

Recomeçar a pedalar foi tão difícil! Mesmo assim conseguimos chegar a Tolhuin no final da tarde. Aos poucos a paisagem de pampa foi dando lugar a um bosque. Bandos e bandos de guanacos nas áreas mais abertas e alguns que nos seguiam, rindo de nosso infortúnio, o vento!

Em Tolhuin procuramos pela famosa Padaria, ou a Padaria dos Famosos. As cozinheiras e os padeiros nos mostraram o lugar onde acolhem os ciclistas que vêm de todas partes do mundo. Um quarto quentinho, com as paredes todas desenhadas, banho quente, beliche, cama e colchão de casal. Quando já adormecíamos, chegou um casal de mochileiros italianos que também foram acolhidos.

Na manhã seguinte alcançamos chegar ao camping livre do lago Escondido. Aí ficamos um dia a mais de descanso. Depois de descansar neste lugar tão tranquilo e maravilhoso, estávamos recuperados para enfrentar o Paso Garibaldi, uma subida gradiente e suave que assusta a muitos, mas que se revelou amigável e charmosa. No entanto até Ushuaia esta não seria a única subida, e chegamos ao famoso centro urbana austral no cair da tarde, depois de pegar um pouco de chuva pelo caminho.

Ushuaia! Finalmente! Esta cidade que a tantos ciclistas atrai por ser o ponto urbano mais ao sul do continente, coroada por montanhas de neve e picos tão íngremes e de formatos tão estranhos. Mas toda esta magia se perdeu ao sermos forçados contra o intenso movimento do transito de veículos. O acesso ao centro nada amigável aos ciclistas, nenhum acostamento, pista estreita, vento e frio. Talvez se tivéssemos chego mais cedo, não em horário de rush teríamos nos sentido mais calmos e seguros.

Enfim chegamos ao centro e a primeira  coisa a fazer seguramente é buscar comida, supermercados, abastecer o tanque. Nas informações turísticas apenas nos informaram os campings privados e nos disseram que o camping municipal, supostamente gratuíto não recebia estrangeiros, apenas argentinos, e que não poderíamos acampar aí. Além disso era afastado demais do centro, 4km por estrada de chão e com vento contra. Bom, assim mesmo fomos ao camping municipal, olhando cada cantinho promissor pelo caminho para acampar, caso nos recusassem no local. Já na saída da cidade havia um camping privado, mas o preço era proibitivo, arriscamos outra vez seguir com aquele vento na cara. Chegamos ao camping municipal e a informação da Desinformação turística se revelou totalmente equivocada. É permitido sim acampar ali, estrangeiro ou residente. Mas não há conforto nenhum. Não há água, os banheiros são nojentos (sem água!), e o camping municipal é o local onde os munícipes descarregam suas energias, ou em outras palavras, é o lugar permitido para bagunçar.

Então dormimos protegidos do vento atrás de um arbusto, mas na manhã seguinte não nos protegia da falta de noção de certos pais de família. As 6h da manhã um ruído horrível nos desperta. Vontade de matar um! Quando abrimos a porta da barraca o que vemos: uma menina de não mais de 10 anos dirigia um quadriciclo barulhento para todos os lados. O jeito foi desarmar acampamento e tentar encontrar uma ducha pela cidade. Não logramos. Então fomos ao camping Pista del Andino e ficamos uma noite aí, era preciso lavar roupa e tomar banho. O camping era lindo, mas igualmente caro. Esperávamos o amigo Arthur que chegaria por estes dias. Compramos um vinho e cozinhamos uma janta o esperando. Por azar fomos nos encontrar somente no dia seguinte. Seguimos novamente ao camping municipal os três na intenção de visitar o Parque nos dias seguintes. Nos agarrou a preguiça e a avareza e acabamos ficando no camping municipal todos os dias e não fomos ao parque só para bater aquela famosa foto na placa da Bahia Lapataia. Preferimos ficar curtindo a chuvinha no camping municipal na compania do amigo Arthur e no dia seguinte também deixamos Ushuaia com apenas um destino: o norte!

Puerto Natales – Punta Arenas – Terra do Fogo

Íamos ficar um dia no camping Casa Lili, o mais barato do lugar. Mas eram os últimos dias na companhia dos amigos Marco e Ellen. Eles decidiram ir ao Parque Torres del Paine e depois pegariam o barco de Puerto Natales até Puerto Montt e seguiriam sua viagem pela Argentina, um pouco de Uruguai, Bolívia e Peru. Acabamos ficando mais uma noite, e mais uma, e mais uma. Todas regadas a muita lentilha e deliciosas receitas com Cochaiuio, uma alga do mar que parece pele de porco frita, mas que bem preparado pelo nosso Cheff italiano de plantão,  Marco, fica “Muy rico”.

Nos despedimos dos amigos depois de alguns dias de preguiça e muita ventania em Puerto Natales, as barracas no camping pareciam que iam levantar vôo, apesar de toda proteção de muros e árvores. Ficamos pensando como seriam as noites a partir dali, na estrada, sem proteção contra esse vento insano. Por sorte pegamos ele a favor até Morro Chico, onde passamos nossa virada de ano regada a macarrão com molho de tomate pronto dentro de um galpão abandonado em frente ao posto de carabineiros. No dia seguinte o vento lateral não ajudava e fomos encontrar um abrigo a uns 30km antes de Villa Tehuelches para fazer nosso almoço de Primeiro de ano: Purê de batatas instantâneo com alguns tomates secos picadinhos.

Em Tehuelches compramos um doce de Nalca e seguimos até o cruzamento de ruta em Governador Filipe, onde passamos a noite acampados atrás do posto de gasolina, junto com carcaças de carros velhos e um monte de lixo metálico acumulado. Ao menos estávamos escondidos da estrada e bem protegidos do forte vento. Não havia possibilidade de usar banheiro pois aí não havia nenhum, apenas conseguimos um pouco de água.

A manhã  estava  emburrada, mas felizmente com menos vento que a tarde anterior, chegamos a Punta Arenas antes do meio dia. Como a barca para a Terra do Fogo seria só no outro dia as 8h da manhã, decidimos procurar um camping pra ficar. O lugar era legal e a cidade oferece alguns entretenimentos turísticos, e o dono do Camping Independência, o Eduardo, era muito simpático e amigável, apesar do camping ser esprimidinho e a cozinha um aperto quente, nos sentimos muito bem por ali. Em Punta Arenas fomos visitar o cemitério e o Museu Sara Braun. Haviam outros museus, mas estavam fechados. Outro lugar que é visita obrigatória, a Zona Franca, encontramos punhados de brasileiros para todos os lados, muitos carregando televisores LCD gigantescos debaixo do braço. Eu não teria coragem de levar um desses no avião de volta pro Brasil, tendo em conta o carinho com que eles tratam as caixas de bicicletas nos aeroportos, eu já visualizo uma televisão estraçalhada chegando pela esteira…

Assim ficamos mais uns dias em Punta Arenas, de preguiça regada a manteiga de amendoim norte americana, para só no sábado pegar a barca que sairia as 15h, teríamos mais tempo para desmontar acampamento e chegar com mais tempo pra comprar o ticket para a Terra do Fogo.

DICA: em Puerto Natales e Punta Arenas conseguimos muitas garrafas de gás para fogareiro de graça, porque os mochileiros vão ao TDP acampar e não gastam toda a garrafa, e ao voltar, no avião não podem embarcar com combustível, então deixam nos hostels e campings as latas em meia vida ou quase cheias. Assim compramos um mini-fogareiro a gás na zona franca e carregamos algumas garrafas de gaz. Ficamos com um fogareiro de emergência e pudemos poupar o nosso multi-combustível por uns dias, já que ele andava entupindo muito com os combustíveis aqui do sul.

Sábado então nos despedimos do Eduardo e do pessoal do camping/hostel independência com quem fizemos amizade. Na barca para a Terra do Fogo pagamos o equivalente a uns R$20 e não nos taxaram as bicicletas. Uma viagem confortável de umas 4h sem muitos atrativos paisagísticos. Em Porvenir chegamos no final da tarde com uma bela ventania nas costas e nos deparamos com um Italiano em bicicleta que corria contra a corrente para pegar a barca de volta a Punta Arenas. Nos espantou seu bom humor, há dias que vinha enfrentando uma estrada terrível segundo ele, com vento contra e pneus ultrafinos em sua bicicleta de corrida adaptada e com pouca bagagem em sua jornada de Ushuaia ao Alaska.” Esse é o espírito!”, pensamos, mesmo com tanta dificuldade, escolhemos estar aqui, é preciso encarar com bom humor e coragem.

Nesta noite deixamos Porvenir e acampamos logo após a saída da cidade, em um terreno sem cercas e desprotegido do vento, afinal ao cair da noite este incansável companheiro já diminuía suas forças.

Parques Nacionais para sugar sua grana?

…ou porque não fomos à Torres del Paine, Perito Moreno, e muitos outros parques na Patagônia.

Ficamos com este gosto amargo de trapaça na boca até Puerto Natales e por isso nos recusamos a servir de capacho turístico , e também pelo mesmo motivo não vamos pagar pra ver a Natureza sendo domesticada e comercializada em larga escala, massificada e enfiada goela abaixo. Torres del Paine pode ser bonito, estonteante e magnifíco, mas foi feito para quem tem grana sobrando ou para aqueles que se sujeitam a caminhar em meio à muita gente (muita gente mesmo), para um tipo de turista high-teck com suas coloridas roupas novas e seus tec-tec bastões de caminhada. Não foi feito para quem curte o silêncio, a paz, a contemplação da natureza.

Não sei se ele não foi feito pra pessoas como nós, ou se aos poucos os olhos cresceram e ficaram gordos para o dinheiro dos estrangeiros. Sulamericanos ainda pagam menos que os europeus. Não acho isso justo. Sei que o parque tem seus custos, e é por isso que são NACIONAIS, não privados, assim como as universidades públicas. Que eles precisem manter as trilhas, que precisem manter um bocado de estrutura, ok. Mas acho que TDP passou dos limites em relação aos preços. É um parque para uma elite.

Não estivemos lá e não podemos avaliar a sua beleza. Apenas não concordamos com a politica da coisa. Na minha opinião, o parque só é o que é devido ao Marketing. Fecharam a grande parte dos campings livres com a desculpa do incêndio que destruiu metade do bosque do parque. E quão ecológico é um hotel  chique lá dentro? E estão compensando as emissões de CO2 que os ônibus que trazem e levam embora os turistas do parque emitem? E o barco que leva à galera até o Glaciar só para evitar uma caminhadinha de algumas horas?

Sim, o parque tornou-se acessível à pessoas que não estão dispostas ou não podem fazer exercícios físicos, mas acabou excluindo aqueles que estão dispostos a fazê-lo, tirou o ‘tesão’ da coisa.

Falamos com um bocado de mochileiros que estiveram em TDP e em outros parques do Chile, nenhum estava feliz de ter ido ao TDP, principalmente depois de terem visitado também o Parque Cerro Castillo (Em Villa Cerro Castillo, +ou- 80km ao sul de Coihaique, Chile) ou o Los Glaciares (El Chaltén, Argentina). Nos falaram da multidão pelas trilhas, dos campings caros, de ter que fazer uma caminhada muito mais longa por dia pra poder economizar um dia de camping pra chegar a um dos últimos campings livres ainda abertos.

Estivemos no Parque Cerro Castillo, e também no Pumalin, ambos no Chile, e também no gratuíto Los Glaciares na Argentina, de onde contemplamos a beleza do Cerro Torre e Fitz Roy. Nenhum deles precisamos pagar para entrar ou acampar. Como estes parques mantêm suas trilhas limpas e abertas? Os acampamentos livres? A sinalização? Eles não estão no guia do planeta solitário? Porque para ver as TDP, e tudo o que digo se aplica também ao Glaciar Perito Moreno e ao Parque Lapataia em Ushuaia, é tão absurdamente caro? Se você tiver uma resposta pra nós, ficaremos agradecidos. Talvez um dia a gente consiga entender o que tem por trás de tudo isso. Espero que seja a tempo de poder visitar estes parques sem ter que vender nossos rins, ou ter que apelar a práticas consideradas criminosas como entrar nos parques escondidos no meio da noite, sentindo como se fôssemos nós os criminosos e não eles.

A discussão está aberta, esperamos sua opinião.

(Abaixo algumas fotos de Parques onde não nos foi cobrado para conhecer)

Rumo ao Extremo sul do Continente

De El Chaltén foi um pulinho até a casa Rosa, uma grande casona abandonada, um antigo parador. Dica de um ciclista alemão que encontramos a poucos quilômetros da cidade. Se não fosse ele, talvez teríamos parado em qualquer barranco pra passar a noite. Mas apuramos o passo e cumprimos os 130km até ali mesmo tendo saído depois das 13h.

Antes do Parador La Divina Luz, que é uma casa como de filmes de terror, há um outro parador, este ativado, que cobra uma exorbitância pelo camping. Nem quero saber quanto deve ser por um quarto com cama. Então fiquem atentos, depois deste parador, há 10km ao sul há a casa abandonada, você pode escolher acampar na beira do rio, debaixo de um salgueiro, em algum dos coloridos quartos, perto da lareira na sala ou até mesmo no porão.

Eu preferiria mil vezes ter acampado perto do rio. Não consegui dormir nadinha. Ficava me lembrando do filme “The Road” depois de ter visto a portinhola do porão sendo aberta pelo André e revelando a escuridão. Demorei a pregar o olho e quando dormi só tive pesadelos. Que noite.

Neste dia tivemos compania de Dieter e Trien da Bélgica, que mais inteligentemente botaram a barraca lá fora e dormiram como anjinhos. Tomamos um café da manhã juntos em uma agradável manhã de sol e sem ventos. Sem ventos! Um milagre! Seguimos rumo à El Calafate.

Abortamos a Missão Calafate porque à tarde o vento contra começou, e seriam 40km até a cidade, mais o custo dos caros campings, conforme já haviam nos informado. De modo que já havíamos sido esfaqueados o suficiente em El Chalten, partimos pra El Bote passar nossa noite de Natal comendo pipoca com cobertura de açúcar queimado e nhoqui com molho de tomate e lentilhas com temperinho de milhares de mosquitos que iam caindo na panela.

Dia de Natal o vento estava doidinho doidinho. Acho que ele não ganhou presente do Papai Noel e decidiu descontar a raiva nos ciclistas neste dia. Não dava nem pra parar pra comer. Então levamos a fome em banho maria até encontrar um poste de SOS, colocar as bicics e o toldo como barravento e cozinhar um macarrão. Nossos lanches rápidos já haviam terminado, e como não entramos em El Calafate, não tínhamos muita comida para chegar até Puerto Natales.

No meio do almoço quem aparece? Isso mesmo. Marco e Ellen que vinham de El Calafate juntaram-se à nós neste almoço de Natal ventoso e frio. Em Cerrito nos disseram que todos ciclistas ficam abrigados do vento com a ajuda do Claudio. Mas a família dele estava fazendo festa na garagem fechada então nos contentamos com a garagem aberta mesmo. Já perto das 23h, e ainda dia, chega um ciclista alemão viajando super leve, havia saído de Puerto Natales naquela manhã, e havia cumprido 180km. Algo que levaríamos 3 dias para fazer no sentido contrário.

De Cerrito a Tapi Aike foi um dia inteiro de sofrimento e novamente muitos palavrões em italiano. Ao menos conseguimos ver flamingos rosados bem de perto e alguns graxains bem mansos ao lado da pista. Em Tapi Aike também deixam colocar barraca, e o Valter, que trabalha pra compania Vial, até nos convidou a tomar uma ducha quentinha. Muito amável, ele até preparou uma mesinha no quintal e um barra vento para bem alojar os ciclistas. Pessoas que estão na história do cicloturismo patagônico por suas atitudes simples, solidárias e humanas.

O vento continuava a soprar e decidimos mesmo assim pular bem cedo. Só nos restava um pouco de farinha de trigo e de milho, um pouco de arroz e um pacote de macarrão. Polenta com farinha de trigo e açúcar já havia sido nossa refeição no dia anterior, então só sobrou tomar café da manhã comendo macarrão puro, sem molho nem nada, nem óleo nos sobrou. De emergência, os amigos Ellen e Marco ofereceram um pacote de polenta que carregavam como extra. Por sorte ainda não havia sido necessário, ainda tínhamos um pacotão de pipocas estouradas pra lanche.

Fomos nos arrastando até Cerro Castillo, sempre revezando a ponta a fim de pouparmos esforços. Ao chegar à aduana Argentina, Marco vê um ônibus cheio de turista se aproximando e grita “Go before the fucking BUUUUSSSSS”. Obedecemos a ordem de “Ir antes do maldito busão” debaixo dos risos do motorista. Realmente teríamos que esperar 40 pessoas caso nossas pernas não tivessem cooperado nesse sprint final. (Corking não é útil somente em Massa Crítica!)

Ainda pedalamos mais 30km este dia. Não foi possível ver as Torres del Paine de longe porque o tempo estava feio. Conseguimos autorização pra acampar num recuo de grama um pouco escondido da rodovia. De quebra ganhamos um pão caseiro do estancieiro, ele mesmo havia feito. André trouxe com a missão de deixar o pão aos amigos ciclistas não veganos, já que o pão levava ovos. Não temos vergonha em admitir que não resistimos ao pão caseiro do tio, quentinho e caseiro de forno à lenha. Estávamos famintos e não havíamos conseguido comprar muita coisa em Cerro Castillo, já conto o porque. Devoramos o pão! Pobres futuras vidas galináceas tolhidas pela fome ciclística. Tentaremos fazer com que isso não se repita! Carregaremos mais comida da próxima vez!

Mas, nos recusamos a ser esfaqueados por mercenário turísticos. Estávamos com frio e paramos pedir um café na El Ovejero, em Cerro Castillo. Pedimos 3 cafés e em troca esperávamos usar a wifi pra enviar um e-mail de alívio aos familiares. A wifi caiu e solicitamos ao dono verificar pra gente. Ele devolveu com um rude “Mas vocês só compraram 3 cafés!”. E não se deu ao trabalho de reiniciar o modem pra gente. Queríamos comprar alguma comida, mas estava proibitivo. Um pacote de bolachas que costuma custar R$1,20 estava a R$6,00 no estabelecimento do nada simpático sujeito.  Depois descobrimos que havia uma vendinha mais modesta e conseguimos comprar uma geléia lazarenta e o  pacote de bolacha referido por uns R$4,00. Realmente há algo de errado com a exploração turística em Torres del Paine. E é sobre isso que talvez venhamos a falar no próximo post.

Estatísticas de Viagem até dia 304

 Aí estão alguns números de nossas pernoites durante os 304 dias de viagem até então. Fizemos esta planilha para ter uma ideia inicialmente de quantas noites a barraca está aguentando, dos custos com campings, etc. Mas depois pensamos que estes dados podem ser úteis pra quem está planejando uma viagem de bicicleta e pensa que vai precisar de muita grana, então decidimos compartilhar os gráficos com vocês. Abaixo da imagem algumas explicações sobre a tabela.

Estatísticas da viagem até o dia 304

Camping Livre: campings municipais ou dentro de parques onde é permitido acampar, porém não há custo, é permitido acampar gratuitamente.
Camping selvagem: quando acampamos no meio da natureza sem precisar pedir permissão a ninguém, ou mesmo ao lado da estrada, escondidos da vista ou não.
Camping doméstico: quando pedimos permissão para alguém para acampar em seu quintal/fazenda/terras.
Bivaque Selvagem: quando encontramos algum abrigo na estrada e não é preciso montar a barraca e nem pedir permissão a ninguém.
Bivaque Doméstico: quando pernoitamos em abrigos com a permissão de alguém e sem montar a barraca.
Hospedagem Solidária: noites em que fomos recebidos dentro da casa de alguém com todos os confortos como cama, banheiro, cozinha, etc.
Camping Privados: campings em que pagamos para pernoitar.
Preços camp.Privado: preço por noite por pessoa para depois calcularmos a média de preços entre os campings que ficamos.
Média de preços: ficou uma média bem baixa, como R$9 por noite dormida em camping privado por pessoa, incluindo alguns campings em que ninguém apareceu pra cobrar.
Total gasto com camping pago: agora sim o nosso gasto com campings pagos por duas pessoas.
Total gasto por pernoite: aqui incluímos o preço que investimos em nossa barraca e contabilizamos todas as noites acampadas mais os custos de campings privados e fizemos o cálculo médio por noite. Com base neste número concluímos que valeu muito a pena o investimento em uma boa e espaçosa barraca, assim nosso custo por noite de aproximadamente R$9 para os dois (R$ 4,50 para cada um de nós), ficou muito abaixo do que imaginávamos. E como a barraca ainda está em prefeito estado, este número ainda vai continuar diminuindo!

Esperamos um dia ter pique para fazer uma tabela com o custo total da viagem por dia. Entretanto sabemos que além do gasto desta tabela, apenas gastamos com alimentação e algumas entradas de parques nacionais e alguns barcos/balsas.

Com esta tabelas tivemos a certeza de que é possível realizar uma viagem de bicicleta com baixo custo, ou ainda em baixíssimo custo se você se esforçar mais que nós. Com isso verificamos que gastamos menos no dia-a-dia pedalando, do que quando vivíamos em uma cidade.

Turistando em El Chaltén

Depois de dois dias “Into the wild” chegamos a El Chalten. Nos decepcionamos com os preços de comida e hospedagem e nem o Fitz Roy pra ajudar um pouco, ficou lá escondido feito um covarde atrás das nuvens. Decidimos que se quiséssemos ficar na cidade teríamos que deixar as bicicletas em algum lugar seguro e subir acampar nos campings livres do Parque Los Glaciares. Qualquer birosca queria nos cobrar pra “guardar” as bicicletas ao relento em quintais sem cercas ou muros. Tivemos que recorrer aos bombeiros.

Lá nos deram a autorização para deixar as bicicletas. Eram 16h e pretendíamos subir ao acampamento Capri, o mais próximo dali. Ainda teríamos até pelo menos as 21h de luz clara pra subir com as mochilas carregadas. Mas o bombeiro simpatizou conosco, nos disse que o genro dele é brasileiro, e nos convidou a ficar no abrigo dos bombeiros. Então decidimos ficar ali, com todo o luxo de camas e banho quente. Até aquecedores haviam. Então no dia seguinte pela manhã partimos rumo ao camping livre perto do Cerro Torre.

Fizemos de conta que éramos trekkers experientes e caminhamos sem os incríveis bastões de caminhada com nossas mochiladas carregadas com as bugigangas mais indispensáveis. Os outros trekkers, mesmo sem peso estavam todos fazendo tec-tec pela trilha, com os tais bastõezinhos acompanhando os passos nas trilhas bem marcadas e sinalizadas, perfeitamente seguras, do Parque Los Glaciares.

No meio da trilha, ouvimos vozes familiares. Sem combinar nem marcar nada, lá  estavam Marco e Ellen outra vez, desta vez sem breteles,  à paisana como nós. Subimos ao mirador do Cerro Torre. Mas eu, Ana, desisti pelo meio do caminho e fiquei guardando as mochilas e apreciando a vista do laguinho, porque nada do Cerro Torre sair detrás das nuvens. Essas montanhas são muito excêntricas e tímidas, sempre se escondendo atrás de alguma nuvem moderninha que teima em aparecer em todas as fotos de turistas que passem por ali, umas fanfarronas exibicionistas, é isso que estas nuvens são!

Nossos amigos voltaram entristecidos por ter conseguido ver a bola de sorvete sobre o Cerro Torre por apenas alguns segundos, e somente por detrás de uma fina cortina de névoa. Nós levantamos acampamento junto com um monte de outras barracas muilticoloridas notavelmente extrangeiras, no intento de abrir nossos sacos de dormir quentinhos em plena 5h da matina pra talvez ter uma chance de ver o amanhecer alaranjado na montanha em forma de agulha com uma bola de sorvete que parece um cogumelo no topo. E felizmente conseguimos. Parece que até as 7 e 15 da manhã as nuvens exibicionistas estavam dormindo em formato de orvalho ou gelo, então o Torre não podia fazer nada a respeito, e se contentou em ficar exposto às criticas dos olhos humanos, cliques e flashes fotográficos.

No dia seguinte seguimos rumo às Lagunas Madre e hija, para finalmente descansar nossos corpos no campamento Poincenot, com vista para o Fitz, que já nos esperava semi-desnudo de nuvens, um fofo! Armamos nossa carpinha, eu, Ana, tratei de ficar mal de coisas de todo mês e não aproveitei quase nada. Fiquei o dia seguinte inteiro dentro da barraca enquanto nevava lá fora. O André pegou uns lanchinhos e a câmera e foi sozinho ao Glaciar Piedras Blancas e à Laguna de los Tres e a laguna escondida também. Estava nevando por lá, em pleno 23 de dezembro. Ele gravou um relato em vídeo pra me mostrar. Queria tanto ter ido até lá!

Depois de 3 noites nas montanhas, descemos à civilização turística. Fomos aos bombeiros retirar as bicicletas torcendo para que nos convidassem a ficar mais uma noite. Mas era outro bombeiro de plantão e ele não deixou que ficássemos. Então o jeito foi ir para o camping privado mais caro que já ficamos, e olha que era o mais barato da cidade! Não tinha wifi e não podia cozinhar nada muito cheiroso na cozinha comum, só macarrão e ferver alguma água (o que diga-se de passagem não é nada que um fogareiro de mochila não faça), então não havia nenhuma vantagem em ficar ali a não ser pela energia elétrica pra recarregar toda tranqueira teconológica dispensável à sobrevivência, mas não indispensável para dias mais confortáveis na estrada. Afinal são coisas que nos fazem sentir mais perto de uma vida como se estivéssemos no conforto do lar e não numa beira de estrada como forasteiros ignorados pelos transeuntes.

Dia seguinte amanhece feio outra vez, mas sem nenhum vento. Saímos só depois do meio dia e no caminho do camping até a placa de boas vindas ouvimos um punhado de gente falando português brasileiro. É, somos uma praga e estamos em todos os lugares. Em qualquer lugar mais ou menos turisticozinho que estivemos o pessoal sempre comentava que é cheio de brasileiros. Saímos de lá sem dizer tchau pro Fitz, fica pra outra vez né Fitz? Nos vemos ainda, até logo!

A Temida Trilha

Então deixamos o conforto do camping com cozinha aquecida, wifi, banho quente, e descanso pra enfrentar uma manhã fria e úmida. Partimos de Villa O’higgins depois de alguns dias chuvosos esperando pelo barco que nos atravessaria diretamente para o meio do nada. Mas alguém decidiu colocar nome em um ponto no meio do nada, só para os outros pensarem que lá é alguma coisa, aí vem um espertinho e pinta o nome lá no seu mapa. Mas não é nada lá. Candelario Mancilla é só uma pier, e depois tem uma casinha dos Carabineiros de Chile só pra controlar a saída e entrada de pessoas locais, mochileiros e a mais variada sorte de coloridos ciclistas.

Esperávamos muito ansiosos por fazer esta trilha. Imaginávamos muita aventura,  perigos, idealizávamos o bosque perfeito que sonhávamos através da fotos de tantos outros ciclistas viajantes, pensávamos que teríamos dificuldades extremas de carregar a bicicleta morro acima, morro abaixo, por cima de troncos caídos, lama, matagal, que choraríamos de dor e cansaço. Mas não foi tudo isso, sinto desapontá-los. O que fez toda a diferença neste trecho da viagem sem dúvida nenhuma não foi o bosque lindo, nem a dificuldade do terreno, ou as maravilhosas paisagens de cinema. Foi sim a companhia de pessoas que podemos considerar amigos para toda a vida.

Ao entrarmos no barco o céu foi abrindo seu lindo azul, e depois de mais de semanas de céu cinzento sobre nossas cabeças, nos sentimos os verdadeiros sortudos. A viagem transcorreu sem muitos balanços até o Glaciar O’Higgins, e ao chegarmos lá fizemos de conta que o barco era um iatchi muito chic e tomamos wisky com gelo caído do glaciar. O barco fica ali nas bordas do glaciar um tempinho esperando o espetáculo do gelo despencando. Nisso a turistada fica trincando de frio fora da salinha aquecida do barco só pra fazer trocentas fotos iguais, só que em coordenadas diferentes.

Na volta, dormimos deitados no chão do barco, não sabendo se foi o wisky ou o balanço do barco, já que na volta o vento afetava mais do que na vinda e estávamos a ponto de desperdiçar todo o café da manhã, se é que você me entende. Acordamos com respingos de ondas e nos mandamos pra dentro da salinha com aquele ar viciado. Lá dentro a turistada dormia e roncava, estávamos junto com um grupo de turistas anciãos de Santiago. Não que ciclistas sejam os seres mais bem cheirosos do universo, mas o cheiro de naftalina lá dentro tava um pouco demais. Acho que a galera teve que tirar os casacos de lã do fundo do baú. E esse cheiro só piorava o fígado, o estômago, tava tudo revirando e dando nós dentro da gente.

Chegando a Mancilla, havia mais ciclistas do outro lado esperando pra ir a O’Higgins. Vimos que um deles limpava carinhosa e metodicamente sua bicicleta. Nosso amigo soltou a célebre frase “Só pode ser alemão”, porque o cara estava limpando descontroladamente cada raio da bicicleta. Para nosso azar fomos descobrir mais adiante que a limpeza da bicicleta não tinha nada a ver com as origens do referido ciclista. Pobres de nós!

Os primeiros 6km da “trilha” são uma estradinha bem lazarenta onde só passam cavalos e essas motocas de 4 rodas que os carabineiros usam pra ir ao shopping pra lá e pra cá. Terríveis pedras soltas e uma inclinação estapafúrdia. A galera fez tanta força pra empurrar, que eu e André tivemos que seguir enquanto o casal de amigos nos avisou delicadamente que a força era demais, e o papel higiênico estava sendo solicitado, bem como a pá de jardim, como manda o figurino do bom viajante de áreas remotas desprovidas de banheiros providos de descarga de água..

Decidimos acampar ao final da subida mais forte, onde encontra-se o mirador ao FItz Roy, e ao que parece muita gente acampa por ali também porque encontramos uma caneta esferográfica em perfeito funcionamento. Lindamente protegidos do vento dormimos como bebês. No dia seguinte pulamos cedo e comemos nossas gororobas antes enfrentar o que tanto nos afligia, a temida trilha. Colocamos tudo quanto foi possível nas mochilas e tratamos de deixar os alforges bem murchos. Isso foi muito útil!

Fizemos a trilha em meio dia, muito calmamente e aproveitando cada minuto e cada metro percorrido. Observando tudo ao nosso redor, cada detalhe, pra não deixar escapar nada deste precioso lugar. Aos poucos fomos pulando troncos, atravessamos brejos cheios de lama até os joelhos, pontes feitas com troncos empilhados, morro acima e morro abaixo, enroscação de alforges em galhos de árvores, em arbustos espinhentos, em pedras, atravessando riozinhos de água gelada, tudo sobreviveu intacto até a magnífica margem da laguna Desierto. Menos a bateria da câmera fotográfica. Ainda bem que os Gendarmeiros foram gente fina e toparam dar uma carga de eletricidade em nossa desfalecida câmera.

O lado norte da Laguna desierto não tem camping, mas é permitido acampar de graça e tem grama pra dedéu lá. Não cometa o equívoco de pegar o segundo barco sem acampar uma noite neste lado da laguna. Do outro lado só tem um camping e é pago, a estrada pra El Chaltén estava em péssima condição pra pedalar, e demandou muita paciência, então deixe pra fazer ela no dia seguinte. Também não tem nenhum lugar cenográfico pra acampar nessa estrada. Então pegue este conselho, que só é de graça porque é o conselho que qualquer um que esteve aí vai te dizer.

Ao chegarmos na Laguna Desierto, pensávamos que éramos os heróis de nossos egos. Mas nosso orgulho lentamente desmoronou assim que fizemos nossa foto triunfal pulando no heliponto dos gendarmeiros. Assistíamos aproximar-se um ciclista que vinha em direção sul-norte, fazendo a trilha brutal ao redor da laguna Desierto em menos tempo que nós fizemos a trilha até aqui. Era um cara belga gigante e de cabeça raspada, trazia pouquíssima bagagem e falava com palavras contadas, ou melhor, arrancadas.

A história dele é mais ou menos assim. Veio pra Am.Sul pra trampar no Torres del Paine de Voluntário, descobriu que teria que pagar pra trabalhar então decidiu simplesmente fazer o trekking de 10 dias, mas ao terceiro dia se entediou e voltou pra Puerto Natales. Encontrou um alemão viajando em bicicleta que o convenceu a comprar uma bicicleta no mesmo dia e seguir sua viagem assim, porque ele afinal odiava viajar de ônibus. E assim  pretendia ir até o Peru, com sua nova bicicleta. Apesar de não falar muito, cativou a todos nós com sua história. E a gente que pensa que está vivendo com tão pouco, se depara com um cara viajando com menos ainda. Eu pensei na hora que não seria capaz de sobreviver em uma viagem de bicicleta com apenas uma muda de roupa e agradeci aos quilos extras que levo nos alforges, apesar de eles me fazerem sofrer nas subidas e bestemar em trilhas como esta.

Bom, mas ao menos esta noite vou dormir com uma roupa limpa e seca olhando para o Fitz Roy. Queridinho, nos vemos logo, logo. Alguns dias mais e estaremos aos seus pés, espere aí plantado feito uma pedra que a gente já chega. Ah, Cerro Torre, você também queremos ver, então não saia daí, e diga pra sua bola de sorvete não derreter enquanto a gente não chegar!

Esta aventura é um agradecimento aos amigos e companheiros de viagem que tanto nos divertiram com seus palavrões em italiano e suas risadas contagiantes. O trecho teria tudo pra nos deixar de mal humor pelo esforço, mas estas pessoas tornaram o caminho uma festa e cada dificuldade uma piada. A esta hora eles já terminaram sua aventura de 6 meses pela América do Sul e estão à caminho de sua casa. Abraço enorme Ellen e Marco, nos vemos qualquer dia destes, no Brasil, na Itália ou na suécia, ou em qualquer trilha muito doida por este mundo afora. E que as moscas não nos acompanhem desta vez!

Últimos dias na Carretera Austral

Neste trecho final da famosa ruta 7, ou Carretera Austral, ficou bem claro o famoso ditado que martela na cabeça de ciclistas que se metem a pedalar nesta úmida região chileno-patagônica. Repitam comigo o versinho que provavelmente também vai martelar sua cabeça, caso você esteja por estas bandas neste momento, e é muito provável que também estará chovendo:

“Tudo o que está úmido pode ser considerado seco,
Tudo o que está molhado pode ser considerado úmido,
E se ainda restar alguma coisa seca,
Considere-a um milagre!”

Então saímos de nossa confortável cabana Mil estrelas em Rio Bravo debaixo de chuva. O relevo que nos esperava era estupidamente confuso e extenuante. Ainda bem que os primeiros 20km quase planos fizeram adiantarmos o atraso que aquelas próximas estupidamente íngremes subidas nos trariam. No chalét da noite anterior recebemos a visita do rapaz que faz a manutenção, e ele nos contou deste próximo abrigo, a uns 40 ou 50 km dali, e que fica do lado de um lago com o nome de algum padre que não me lembro mais o nome. Eram a exatos 48km de onde estávamos na noite anterior, e porque chovia tanto resolvemos ficar um dia descansando e fingindo que havíamos alugado uma carérrima cabana rústica na chiquérrima Patagônia Chilena, com vista para glaciares pendurados, mas sem nenhuma estrela, porque o clima estava pavorosamente chuvoso e úmido.

Por sorte os gaúchos chilenos que tomam conta da cabana/refúgio mantém sempre um bom estoque de lenha seca para os desafortunados e molhados ciclistas que vem descansar por ali eventualmente toda santa noite durante a temporada de “verão”, se é que esse tipo de inverno fora de época pode ser chamado de verão. Tratamos de cozinhar uma polenta bem cozida, e ficar assistindo filme enquanto a bateria do notebook não chegava ao fim, como se estivéssemos mesmo em um luxuoso resort selvagem aos pés de uma lareira luxuosamente rústica feita com concreto bruto, e com fogo não cenográfico, em que geralmente pessoas muito ricas que não tem mais onde gastar sua fortuna, costumam mesmo pagar uma bagatela pela experiência inusitadamente rústica e selvagem, só para depois contar aos amigos como foi uma aventura dormir em um lugar tão rústico em meio a uma natureza tão selvagem, mas controladamente domesticada e segura, segundo os padrões do último guia do Planeta Solitário que está estampado na tela do seu chiquérrimo leitor de livro digital.

Então por ali brincamos também de construtores para espantar o tédio da chuva de granizo que caía com um barulhão no telhado de metal. Fizemos um belo banquinho na varanda e reformamos o acesso esquerdo com umas pedras, a fim de que os próximos hóspedes cicloturísticos não molhem ainda mais seus pés na gigantesca poça de água que se forma quando chove mais do que 2 dias seguidos. O que pode ser considerado muito comum.

No final da tarde ouvimos vozes e adivinhamos que eram nossos amigos que haviam entrado na armadilha turística de Tortel, mas que foram um dos poucos sortudos que conseguiram sair daquele buraco carregados por um simpático motorista de ônibus que se compadeceu da lastimável situação em que eles se encontravam em meio a uma estrada cheia de pedras grandes com suas bicicletas aro 700 com pneus finos feitas para asfaltos europeus. Então nos esprememos em 5 pessoas e 2 bicicletas dentro do abrigo (ou você acha que bicicleta brasileira também não passa frio?!), enquanto outras 3 bicicletas ficavam lá fora dormindo na varanda (porque são bicicletas européias e não passam frio como as brasileiras). Mas deu tudo certo, com exceção de que amanheceu chovendo a baldes e tivemos cometer outra heresia cicloturística e ficar comendo polenta sapecada e tomando chá enquanto a chuva não ia embora, e só começar a pedalar após as 13 horas e 30 minutos, que foi quando a chuva virou uma fina garoa só para nos enganar, e começar a chover novamente 5 minutos depois de termos efetivamente partido para pedalar.

Era nosso último dia pedalando na Carretera Austral, e só faltavam 53km chuvosos quilômetros até Villa O’Higgins. Mas, chegamos bem. Era final de tarde e nossos amigos que chegaram por lá um pouco antes escolheram justo o camping mais caro da paróquia. Felizmente era muito confortável e a proprietária muito simpática. Mas tudo isso não foi capaz de tirar do André a sensação e a expressão de desgosto ao se deparar com a situação de a água quente do camping ter acabado justo na hora em que ele iria tomar banho de chuveiro, depois de mais de um mês de banho de lencinho.

Agora mais um dia e estaremos finalmente a caminho da Argentina outra vez.