Bolívia

No salar de Uyuni, qualquer fruta é uma raridade e precisa ser preservada e celebrada. Quando estas bananas foram devoradas, foi quase como um brinde de champagne. Trazidas desde San Pedro de Atacama.
Ainda sobraram duas bananas pra navegar no salar inundado... vegetais, algo raro por aqui.
Era este tipo de paisagem que nos acompanharia por algumas semanas em nossa entrada na Bolívia.

Era este tipo de paisagem que nos acompanharia por algumas semanas em nossa entrada na Bolívia.

Desde o norte da Argentina, quando começamos a subir para a região do Altiplano, já começamos a notar a pouca variedade de alimentos disponíveis. Passamos um longo período nesta região e só em alguns momentos encontramos alguns “oásis” com variedade de ingredientes, como quando chegamos em San Pedro de Atacama, no Chile. Desta simpática pequena cidade turística que conta com uma excelente e variada feira livre, e alguns pontos de venda de produtos “naturais”, seguiríamos caminho para o inóspito Sudoeste da Bolívia, levamos aproximadamente 15 dias até chegarmos a uma cidade onde fosse possível encontrar frutas frescas e alguma variedade de hortaliças novamente.

No salar de Uyuni, qualquer fruta é uma raridade e precisa ser preservada e celebrada. Quando estas bananas foram devoradas, foi quase como um brinde de champagne. Trazidas desde San Pedro de Atacama.

No salar de Uyuni, qualquer fruta é uma raridade e precisa ser preservada e celebrada. Quando estas bananas foram devoradas, foi quase como um brinde de champagne. Trazidas desde San Pedro de Atacama.

Neste período de 15 dias, enfrentamos as condições climáticas mais extremas de nossa viagem inteira. Aliado à falta de variedade nos alimentos que ingeríamos, enfrentávamos a altitude, secura do ar, as temperaturas negativas, o inclemente vento, radiação solar fortíssima desta região, falta de oxigênio e a falta de fome causada pela digestão lenta na altitude. Neste período encontramos apenas uma pequena cidade onde pudemos comprar algumas batatas, cebolas e cenouras, produzidas e estocadas desde o verão por uma família que encontramos na cidade. Não foi fácil encontrá-los, perguntamos em todas as mercearias onde encontraríamos “vegetales”, já que no comércio não conseguiríamos nada além de arroz, macarrão e enlatados. Ficamos sabendo que há um caminhão que aparece uma vez a cada 15 dias no povoado trazendo maçãs, “mandarinas” (bergamotas/tangerinas) e uma pequena quantidade de hortaliças e que estes produtos são disputadíssimos, era nossa chance de ingerir alguma fruta fresca, enfim! Demos a sorte de cair neste povoado justo no dia em que o caminhão passava, e justo no dia da semana que a padeira do vilarejo preparava pão para o resto da semana inteira. O povoado em questão é San Juan del Rosário, chegamos ali exaustos depois de 9 dias enfrentando as terríveis estradas da rota das Lagunas (região Sur Lipez) sem poder comprar nada neste período além de umas cenouras velhas e “habas” verdes que conseguimos numa hospedaria. Este vilarejo era nossa porta de entrada para o Salar de Uyuni. A próxima cidade seria dali a uns 3 dias, e somente teríamos vilarejos pelo caminho. De San Juan del Rosário até Oruro passamos por alguns vilarejos onde as pessoas vendem frutas e verduras nas praças centrais, improvisando quiosques. Nestes lugares conseguíamos comprar alguma coisa, mas nosso dinheiro estava acabando e só poderíamos sacar em Oruro, então tivemos de nos conter e comprar apenas o que era mais barato, ou seja, não perecíveis e pão.

Estamos na terra da Quinua!

Estamos na terra da Quinua!

O resultado desta nada variada dieta (baseada em arroz, macarrão, pão, aveia e alguns frutos secos), foi muito nitidamente sentida no nosso corpo, nosso humor e nossa disposição. Hoje olhando para as fotos daqueles dias ficamos espantados em ver como tínhamos uma aparência “detonada” e lembramos nossa falta de paciência com coisas bem pequenas do dia-a-dia. O ponto alto deste desgaste causado pela má alimentação foi quando chegamos em Oruro e ambos estávamos doentes ao chegar em La Paz.

Em Oruro André ficou mal da pança, teve vômitos e diarreia, algo relativamente comum entre viajantes que vem para a Bolívia e cedem à tentação da comida de rua super barata. Mas nós mesmos preparávamos com todo cuidado nosso alimento, e nunca comíamos em restaurantes, tampouco havíamos comido hortaliças cruas, toda nossa água era filtrada ou fervida, então não conseguimos identificar a origem da contaminação. Depois foi a minha vez, por conta de André estar mal, pegamos um ônibus para La Paz onde teríamos a casa de um amigo para descansar. Então provavelmente naquele ônibus fechado contraí vírus de uma fortíssima gripe que me derrubou por uma semana, nunca estive tão mal por conta de uma simples gripe. Nosso sistema imunológico estava em frangalhos. O resultado de apenas 15 dias de má alimentação em região inóspita foram quase 10 dias de “molho” na casa do amigo e na Casa de Ciclistas.

Em La Paz tomamos todo o cuidado com a água, sempre fervendo por pelo menos meia hora a água da torneira para cozinhar ou tomar chá (em altitude a água ferve a temperaturas mais baixas, então é preciso ferver por mais tempo que a nível do mar). Investimos em muitas laranjas e fazíamos sucos concentrados várias vezes ao dia na intenção de nos hidratar com água filtrada pela fruta, e fortalecer nosso corpo já que o apetite não andava lá essas coisas. Quando vimos que seguíamos ambos sem melhoras, decidimos que era hora de investir em água comprada até mesmo para cozinhar e tomar chá. Água engarrafada por aqui não é necessariamente “mineral”, algumas tem o rótulo de “Água natural filtrada” apenas, o que não fazemos menor ideia de origem ou qualidade. Mas já devia ser algo melhor que água de torneira.

Batatinhas altiplânicas salteadas, numa hospedagem construída com blocos de sal, San Juan de Rosário, Bolivia

Batatinhas altiplânicas salteadas, numa hospedagem construída com blocos de sal, San Juan de Rosário, Bolivia

Algo que nos agradou muito na Bolívia foi reencontrar a variedade de frutas e verduras que desde que entramos na Argentina não víamos. Esta variedade e oferta seguiu sendo encontrada no Peru, em cidades um pouco maiores que vilarejos já era possível encontrar os Mercados Públicos muito coloridos de alimentos variados. Outro fator que apreciamos muito entre Bolívia e Peru não foi a quinua, a maca ou o amaranto, mas a variedade infinita de batatas andinas. Aliás, nem encontramos tanta quinua assim na Bolívia, e em geral era mais custosa que comprar arroz ou uma variedade vegetais para a refeição. As batatas andinas foram o ponto alto (gastronomicamente falando) do altiplano para nós! Além de saborosas e coloridas (tinha até batata roxa), as batatas são de fácil digestão, ideais para consumir a estas altitudes, além de rápidas para cozinhar. Quando sabíamos que teríamos um passo acima de 4 mil metros de altitude para transpôr, caprichávamos na refeição de batata com muito alho.

Mercados de alimentos em plena rua, nesta área só pipoca doce, os pochoclos.

Mercados de alimentos em plena rua, nesta área só pipoca doce, os pochoclos.

Após passar a capital, continuamos ao norte e começamos a encontrar mercados de rua ainda mais complexos e estruturados que nas cidades anteriores. Imaginamos que já seria influência do vizinho Peru. Em Copacabana o turismo fervilha, assim como as banquinhas de Pochoclos, as pipocas doce gigantes. Aliás, na Bolívia e no Peru milho é um capítulo à parte. Os grãos de milho originais, são variados, coloridos e algumas variações deles são  imensos, chegamos a encontrar grãos de milho do tamanho de um polegar.  Milho é vendido de tantas maneiras nas ruas que fica até difícil lembrar de todas. Outro alimento muito delicioso que encontramos já na Bolívia e seguiu pelo Peru foram as Habasaqui no Brasil mais conhecidas como favas. Eles as consomem verdes em preparações fervidas, tostadas e fritas. Os pequenos pacotinhos de habas fritas eram vendidas a $1 Bs, e eram um perfeito lanchinho pra comer sem sair da bicicleta.

Confira abaixo algumas receitas que ficamos fã com ingredientes que encontramos na Bolívia:

Cozinhando batatas andinas com casca: boa digestão em altitude {Em Breve}
Batatinhas Altiplânicas Salteadas {Em Breve}
Maiz Morado com Chuño, o milho roxo que vira um genérico de sagu {Em Breve}
Salada de Quinua {Em Breve}