Travessia Transmantiqueira {2 de 4}: Marins – Itaguaré

1. Preparação para a Travessia Transmantiqueira 2016
2. Marins X Itaguaré
3. Serra Fina
4. Parque Nacional Itatiaia: Ruy Braga {Em Breve}

Percurso a pé: de Piquete-SP ao portão da parte baixa do Parque Nacional Itatiaia-RJ
Período: 3 a 17 de Maio de 2016

2. Marins X Itaguaré

 

Acampamento base do Itaguaré, fim de tarde como poucos, com tempo limpo.

Acampamento base do Itaguaré, fim de tarde como poucos, com tempo limpo.

Transporte: Terminal Tietê, São Paulo-SP ônibus pela viação Cometa até Lorena-SP. Ônibus circular de Lorena até Piquete.

Tracklogs e relatos de referência: Cocô no Mato, A Montanhista, Mochileiros.com (Tiago Korb)

Resgate: não utilizado, vide referências acima para contatos.

Trajeto a pé: Piquete-SP até bairro Pinheirinho, Passa Quatro-MG

Distância percorrida neste trecho: aprox 50km

Pontos de água utilizados:
  • Estrada até início da trilha muitos pontos, principalmente na parte alta.
  • Início da trilha antes do morro careca
  • Base do Marins (água cagada)
  • Base do Itaguaré (igualmente cagada mas sem propaganda)
  • Riacho cristalino no final da travessia
Resumo Pernoites:
  1. Estrada, recuo próximo de ponto de água ~3km após bairro Marins
  2. Mesmo local da noite anterior por complicações de saúde
  3. Base do Marins, mais adiante da água em um platô.
  4. Após Pedra Redonda, acampamento pequeno sem água.
  5. Cume lateral ao Itaguaré, próximo da água.
  6. Igrejinha bairro Sertão dos Martins

1°dia

17~18km por estrada asfaltada e chão 

Despertamos as 6h em São Paulo e as 7h nos despedimos de nosso amigo com instruções de como pegar o Metrô, seria nossa primeira vez. Mesmo com uma mochila imensa conseguimos chegar ao terminal Tietê sem grandes esbarrões e muitas pessoas se prontificavam a nos guiar por entre o mar de gente assim que percebiam nossa cara de perdidos. (#ExisteamoremÉssepê). As 11:30 chegamos em Lorena e ao meio dia pegamos o circular para Piquete.

Subidão após descer do ônibus em Piquete.

Subidão após descer do ônibus em Piquete.

Ao meio dia e meia saltamos em um pequeno trevo e começamos a andar. Antes paramos num restaurante consultar o preço do almoço. Sem chance, muito caro e sem desconto pra vegetarianos.

No asfalto sem acostamento e nada acostumados à mochila pesada, sofremos os primeiros quilômetros com um sol de rachar até encontrar a bifurcação à direta que leva ao bairro do Marins. Logo adiante sob a sombra de uma árvore cozinhamos um arroz com tomate e milho em conserva.

Desde Piquete, o ponto de bifurcação onde entramos para sentido da trilha.

Desde Piquete, o ponto de bifurcação onde entramos para sentido da trilha.

Assim que retomamos a marcha compreendemos a dinâmica entre rango+mochila, muito diferente da dinâmica de cicloturismo. Não é possível comer muito, a barrigueira aperta o estômago e numa íngreme subida tínhamos vontade de vomitar. Nas refeições seguintes adotamos nova tática: ao longo do dia pequenos e intervalados lanchinhos, somente a noite nos alimentaríamos em maior quantidade.

Esta foi a maneira que encontramos para andar rápido, não perder tempo de luz do dia à toa, deixando pra cozinhar algo mais demorado só com acampamento montado.

Marins ao fundo. Estrada de asfalto até o bairro.

Marins ao fundo. Estrada de asfalto até o bairro.

Não sentimos tanta necessidade de descansos longos, parecia mais eficiente pequenos e curtos descansos de no máximo 15 minutos, sendo que a maioria era de só 5 minutos. Era tirar a mochila, vestir um agasalho, ventilar um pouco os pés e dar umas bocadas em frutas passa e chocolate. Depois disso, tirar agasalho, vestir mochila e botas e tocar pra cima da montanha.

O trajeto pela estrada foi penoso, paisagem que não muda, chegou neblina, chuva e vento e uma quilometragem que não constava em nossos relatos. Falavam entre 12 e 15km e chegamos a fazer quase 18km sem chegar ao acampamento base onde pretendíamos pagar um pernoite e ganhar uma ducha quente.

Andamos noite adentro até encontrarmos um local pra montar a barraca perto de um riachinho, já que os moradores do entorno nos negaram água até para beber depois que a noite caiu. Também pudera, se um estranho bate à sua porta no escuro pedindo pra entrar porteira adentro pra pegar água, o pessoal fica desconfiado. (hehehe)

Sinalização ao terminar o asfalto, já a noite.

Sinalização ao terminar o asfalto e chegada na bifurcação, já a noite.

Tomamos banho pelados no riacho congelante cobertos pelo breu da noite e a certeza de que nada passaria por ali. Pois bem, foi tirar a roupa que surge um veículo com motor desligado descendo a ladeira. Agora já era, se esconde no mato!

A mesma lei que diz que ao fazer xixi na estrada deserta sem esconder-se, aparecerá um veículo, serve pra mochiladas também. Esta lei comprovamos com 100% de eficiência durante nossa viagem de bike, tática usada para estradas desérticas onde surge uma bifurcação sem placa e é preciso pedir informação. Por isso nunca nos perdemos ou pegamos bifurcações erradas (risos).

Limpos e cheirosos entramos na barraca e cozinhamos o rango. André começou a sentir coceiras pelo corpo. Fiquei assustada ao ver que era o mesmo tipo de alergia que ele teve ano passado e que o forçou a tomar remédios fortes, usar só roupa de algodão e ficar de repouso. Ele esqueceu de cumprimentar a aroeira brava, deve ter esbarrado em alguma durante o dia sem realizar o ritual.

Pensei comigo “Já era travessia, vamos ter que voltar pra casa, ou no mínimo adiar o início”. Só tínhamos roupa sintética, nenhum remédio específico no kit primeiros socorros, e estávamos longe de qualquer ajuda. Seria arriscado demais continuar a travessia sem cuidados médicos, sem falar no desconforto de ter o corpo coçando apertado por uma mochila com praticamente 15kg e tendo que cumprir certa distância em trilhas difíceis, com pouca água e sem poder lavar o corpo.

Deixamos pra tentar resolver o problema pela manhã, já que a noite ninguém nos daria qualquer ajuda, tendo em conta que até água nos negaram.

2°dia: 0km

Então cedinho André resolver sair sem café da manhã, e descer os 3km até o bairro e tentar uma carona até a cidade. Lá as pessoas o ajudaram, ligaram ao hospital e chamaram a ambulância. Eu fiquei na barraca e aproveitei pra recuperar e até adiantar o sono, reli todos os relatos e revisei todas as informações dos mapas.

Acampados ao lado da estradinha antes de iniciar a trilha.

Acampados ao lado da estradinha antes de iniciar a trilha.

 

Tomei mais um banho de luva no riachinho, enchi as bolsas de água e lavei algumas pecinhas de roupa no acampamento com auxílio do tripé com bastões de caminhada e bolsa de água.

Passou por ali um senhor com uma foice indo trabalhar em meio a neblina, e um veículo com motor desligado, esse movimento para todo o dia. Estava organizando umas coisas quando uma sirene tocou alto ao lado no meio da tarde. Minha surpresa quando vi que o André estava na carona, era a ambulância o trazendo de volta “pra casa”.

Ele chegou tão grogue que era impossível seguir caminhando neste dia. Se enfiou dentro da barraca, me deu um chocolate, falou alguma meia dúzia de palavras com a língua enrolada e dormiu o resto da tarde até anoitecer.

Acordou pra comer e me contou toda a saga agora recuperado do “dopping”. Lhe deram medicamento na veia junto com soro, e receitaram um remédio. Ainda meio grogue foi até o mercado e comprou mais suprimentos enquanto esperava o retorno da ambulância. Antes de dormir a alergia já dava sinais de retrocesso, então ficou decidido que no dia seguinte seguiríamos para a travessia.

Algumas semanas depois, ele encontrou o comprovante do supermercado e perguntou quem havia comprado chocolate, macarrão e molho. Ele não se lembrava do que havia acontecido no mercado, pelo visto o medicamento foi forte mesmo.

3°dia

3km por estrada + trilha até acampamento na base do Marins, depois da água.

Pra adiantar o trecho não feito no dia anterior, acordamos ainda de madrugada para partir pernada o mais cedo possível. Mas ainda não estávamos acostumados com a rotina de desmontar acampamento e acabamos começando por volta de 8h.

Não tivemos qualquer visual, a neblina fechava tudo e conforme subíamos mais frio ia ficando. Ouvimos um bando de macacos ao longe e andamos debaixo de uma densa floresta até chegarmos ao acampamento e estacionamento privado por volta das 10h. Lá há alojamento, área de camping, estacionamento, banheiros e energia elétrica. O dono não estava, mas as pessoas que trabalhavam numa obra nos deixaram carregar o celular e utilizar o banheiro. Por sorte pegava sinal e conseguimos atualizar a previsão do tempo para o cume do Marins e do Itaguaré, que era de poucos milímetros, mas nada de limpar o céu.

Trecho de escalaminhada sem corda

Trecho de escalaminhada sem corda subindo ao Marins

 

Acampamento base do Marins

Acampamento base do Marins

Onze horas da manhã retomamos caminhada agora por trilha. A mata seguia a mesma até atingirmos o primeiro cume onde haveria um mirante. Abastecemos de água no primeiro ponto, andamos um pouco fora da trilha para chegar a um pequeno córrego cristalino.

Neblina. Ela foi uma constante nesta travessia, com poucos intervalos que não chegavam a nos permitir ver as montanhas, apenas víamos alguns metros mais adiante.

Como procuramos ver o lado bom de algo ruim, ao menos com pouco visual concentrávamos na caminhada e fazíamos poucas pausas para fotos, o que fez render o trecho e nos fazer chegar cedo ao acampamento na base do Marins, por volta das 15h.

Seguimos um pouco mais pois não gostamos muito do acampamento próximo da água e tínhamos muitas horas de luz, apesar do cansaço.

O tempo havia limpado um pouco e pretendíamos verificar se era possível acampar no cume. Ao avistar um platô de área ampla de acampamento entre o ponto de água e o cume, não tivemos dúvida de que ali já estava bom o suficiente.

Armei a barraca enquanto André voltou pra pegar água no riachinho com a famosa placa de coliformes fecais. As 16h começamos o ataque ao cume, com uma linda luz de entardecer estávamos animados e fizemos várias paradas para fotografar, já que não fizemos isso o dia todo.

 

Novamente ela, a neblina veio acabar com a festa, escondeu o sol, trouxe um vento gelado e tapou a montanha e até nossa visão dos totens. Em questão de 5 minutos a paisagem mudou completamente. Desistimos de fazer cume e voltamos até a barraca já anoitecendo.

Informe de coliformes na água, tratando não há perigo algum, tem muita água de poço artesiano por aí mais contaminada que esta.

Informe de coliformes na água, tratando não há perigo algum.

Um comentário sobre a água na base do Marins:

Se ela contém mesmo coliformes, a taxa é baixa, porém pela norma isso já indica imprópria para consumo sem esterilização por cloro ou outros métodos.  Até os poços artesianos na região onde a gente mora tem mais contagem que isso devido ao lençol freático estar sujeito a contaminações sazonais.

Através dos relatos de diversas pessoas na internet, se vê que essa placa está há anos sem ser atualizada, ou seja, não se sabe se estes testes a cada 60 dias estão sendo feitos, ela pode estar melhor, como também pode estar pior.

De qualquer maneira, sempre que se vai à montanha, trilha, etc é recomendado levar algum método de esterilização da água. Nós levamos um esterilizador que utiliza pilhas para alimentar a lâmpada que emite o UV e interrompe o processo reprodutivo dos patógenos. É mais pesado e sujeito a quebra, mas é um peso que carregamos satisfeitos pois não gostamos de ingerir cloro, apesar de levar algumas pastilhas de clorin como backup caso o aparelho quebre no caminho. Além de o tratamento UV não deixar gosto residual na água, ele não acaba com sua flora intestinal. 

esterilização uv água

Esterilização de água por raios UV. Aparelho portátil utiliza pilhas comuns e leva só um minuto para esterilizar um litro.

Porém nem toda água com coliformes te fará mal. No entanto não é recomendável correr esse risco durante uma travessia longa e difícil. Uma diarreia forte seria um fator a mais para complicar tudo.

 Como havíamos feito uma análise de uma nova fonte de água no nosso terreno dias antes, estávamos cientes de que essa água do Marins informada na placa tem uma contagem até inferior a água que já bebemos lá em casa, mas a esta estamos acostumados e não nos causou nenhum mal estar. Como não estamos acostumados aos bixinhos de outros locais, optamos por esterilizar a água. Lembrando que água natural sem tratamento clorado possui bactérias benéficas ao nosso organismo, já a água clorada além de matar as bactérias ruins matam também as boas e lentamente pioram nossa flora intestinal. 

4° dia

Acampamento base Marins até pequeno acampamento após Pedra Redonda

Novamente precavidos quanto ao tempo de travessia, resolvemos começar a caminhar muito cedo, assim que o dia clareasse. A neblina tem a incômoda habilidade de causar preguiça aguda. Não se vê nada, molha a vegetação que por consequência vai molhar sua roupa toda, e ainda deixa o clima mais frio.

O caminho de volta até a água é um pouco confuso, mas com o GPS instalado no celular foi fácil encontrar. Carregamos a água para o dia todo de caminhada, noite de acampamento, mais parte do dia seguinte de caminhada, pois o próximo ponto de abastecimento seria só na base do Itaguaré.

Descida por corda do Marinzinho

Descida por corda do Marinzinho

A trilha subindo ao Marinzinho estava confusa e algumas vezes perdemos os totens e fomos parar numas encostas perigosas e sem marcas de uso. Liga GPS e volta, ou as vezes escalaminhamos encosta acima até encontrar o rastro de trilha alguns poucos metros.

Pode parecer bobagem, mas a energia gasta tentando varar pedra ou vegetação em busca da trilha certa gasta uma energia imensa que nem sempre a gente coloca na conta. Você está com quase 6 kg a mais de carga por conta da água, e o caminho inexistente geralmente é muito mais difícil que o caminho batido. Óbvio que compensa retornar, mas bate aquela preguiça e a trilha está aparecendo tão perto no GPS… Mas não caia nessa tentação! Depois de inúmeras erradas, aprendemos a lição, voltar e encontrar os totens ou marcações é sempre mais fácil, embora mais demorado talvez.

A subida do Marinzinho parecia infinita, claro, destreinados e só olhando pro chão! E novamente não podemos falar nada de como é a vista de lá, apesar de podermos afirmar que estivemos no cume do Marinzinho, não havia referência visual nenhuma. Não fosse a corda para descer dali, não teríamos muita noção de que local estávamos percorrendo especificamente.

Pedra Redonda desde a descida do Marinzinho

Pedra Redonda desde a descida do Marinzinho numa breve limpada de nevoeiro

Por termos nos desviado da trilha correta algumas vezes, perdemos tempo e nos cansamos a toa. Chegamos na Pedra Redonda e a tentação era montar acampamento ali mesmo. Como não tínhamos visão ampla, pensamos que em caso de chuva aquela pedra ali seria um excelente pára-raios, então a contragosto seguimos um pouco mais. Nosso mapa informava mais dois acampamentos adiante não muito longe dali.

Era super cedo, 14h30 quando atingimos o primeiro acampamento. O segundo não encontramos, ou ele foi tomado pelas moitas de capim gigante. André estava estranho, suspeitamos que algum efeito colateral do remédio, e decidimos ficar ali mesmo ao invés de carregar aquele peso de água todo por mais algumas horas. Nosso raciocínio foi que no dia seguinte andaríamos mais rápido sem essa carga de água, e compensaríamos ter parado cedo. No final, efeito colateral ou não, é só sentar pra bater a preguiça.

Itaguaré ao fundo, vista desde proximidades do acampamento após Pedra Redonda.

Itaguaré ao fundo, vista desde proximidades do acampamento após Pedra Redonda.

Deste ponto de acampe onde não caberiam mais que 3 barracas super apertadas não há visual atrativo. Novamente lá pelas 15h o tempo limpou e subimos um pequeno cocoruto ao lado direito do acampamento de onde tínhamos vista para o Itaguaré e Pedra Redonda. Curtimos o pôr-do-sol ali até o momento que nos foi permitido. Outra vez chegou próximo das 17h e o nevoeiro tapou tudo. O jeito é ir dormir cedo!

5° dia

Acampamento após Pedra Redonda até acampamento Base Itaguaré no cume ao lado.

Tentativa de sair super cedo outra vez. O nevoeiro foi tão forte na noite anterior que quando encostávamos em qualquer bambuzinho chovia. Isso nos deu uma boa ideia para economizar água. Lentamente íamos passando a caneca pelas folhas dos bambus e coletamos água para lavar a louça e lavar a cara pra acordar de verdade.

Começamos a trilhar assim que a primeira luz alaranjada coloriu o ambiente. Mesmo assim tudo estava completamente molhado e deveríamos era ter vestido os abrigos impermeáveis. Ficamos com a roupa completamente molhada, e a cada pausa para lanche sentíamos muito frio.

Passamos por diversos pontos de acampamentos amplos neste trecho de começo do dia, mas todos parecerem bastante expostos. Tivemos alguns breves visuais do entorno, o nevoeiro ia e vinha. Até que adentramos numa florestinha densa e descemos muito. Em certo momento subimos muito outra vez e com outro breve intervalo de nevoeiro conseguimos ter uma noção de por onde andamos e para onde deveríamos seguir.

Avistamos também uma cobrinha peçonhenta, tomando banho de sol na pedra que planejávamos fazer um descanso. Cabeça triangular mas muito lentinha. Deixamos ela de boa e ficamos mais aliviados de ter lembrado de trazer as polainas anti-cobra que usamos no sítio. (Na travessia que fizemos ano passado vimos tantas jararacas na trilha, que desta vez ficamos “cabreiros” e trouxemos proteção).

Ao chegar no local onde é necessário tirar a mochila e passar debaixo de umas pedras imensas, nosso GPS marcava um ponto de água, mas não havia nada lá. Por sorte ainda tínhamos um litro para tomar e encontramos um grupo fazendo a travessia ao contrário, nos informaram que a água do Itaguaré estava a uns 20 minutos. Eles haviam perdido um cantil e não voltaram pra procurar.

A poucos metros do encontro, em uma pedra que não consegui subir por ter pernas curtas, decidi ir por baixo mesmo e encontrei o cantil da moça caído. Eles já estavam longe e guardamos o cantil e a água. Seria mais meio litro de emergência. Espero que não falte a eles.

Chegamos ao ponto de bifurcação do Itaguaré: ou sobe ao cume, ou desce ao acampamento. Fiquei descansando, André tentou chegar ao cume pois o tempo dava algumas brechas de visibilidade. Observei que havia já uma barraca no base, mas algumas pessoas subiam o outro cume lateral.

Não havia marcação no track GPS que utilizamos, mas ali havia um local amplo de acampamento com um visual muito melhor do que o base: Itaguaré de um lado, Itatiaia de outro e as cidades lá em baixo.

trilha-suja

A quantidade de lenços “umedecidos” largados ao longo de toda a trilha é absurda! Eles não se decompõe tão rápido pois a maioria das marcas não são fabricados de fibras naturais.

Abastecemos no riachinho toda a água já para a noite e a descida do dia seguinte. Sinceramente, ela não pareceu de melhor qualidade que a água do Marins, amarelada também e muito próxima de onde as pessoas acampam.

Mas como não tem placa nenhuma ali, o pessoal abastece sem nojinho. Deve estar na mesma qualidade, se for basear na quantidade de lencinho umedecido que se encontra nos becos ao redor, aqueles locais propícios para a pessoa se esconder da vista e realizar as tarefas diárias…sabe como é. Apelidamos os lencinhos abandonados de “Alerta de Coliformes”.

O acampamento lá em cima era muito bacana, protegido pelas moitas de capim elefante, e com várias pedras altas para ficar contemplando a paisagem lá em baixo e ao redor. A noite até pudemos apreciar um breve céu estrelado e um clima calmo. Havia muita gente lá em cima para uma sexta-feira, pensamos.

6° dia

Acampamento base Itaguaré até Igrejinha do vilarejo entre campinho e Pinheirinho de P4.

A noite um vento estranho começou a soprar forte. Torcemos pra ser um vento sul que limpasse pra longe todo aquele nevoeiro de tantos dias. Que ilusão. Era um vento sem muita direção definida e que trazia ainda mais nevoeiro, parecia predominar de noroeste mas nos jogava pra todo lado. Não era tão forte a ponto de nos derrubar, mas ao longo da descida desestabilizava bastante e se não fossem os bastões de caminhada para retomar o equilíbrio, teríamos levado alguns tombos.

Depois de um fim de tarde de sol, um amanhecer de vento e neblina.

Depois de um fim de tarde de sol, um amanhecer de vento e neblina.

No início a trilha em meio ao nevoeiro é confusa, nos guiamos pelos totens mas nos perdemos deles em alguns pontos. Com o GPS ligado conseguimos encontrar o rumo e logo nos encontramos dentro de uma floresta. A trilha parecia bem pisada e marcada, mas lá pelas tantas, em um leito de água de chuva nos perdemos outra vez. Liga GPS e volta. Achamos! Achamos um RayBan fake perdido na pseudo trilha. Mais alguém já se perdeu por aqui também, hehe.

Voltamos e encontramos uma autopista das trilhas. Há tempos não víamos trilha tão aberta e pisada quanto essa. Como é que fomos nos perder dela? A trilha do Itaguaré é muito aberta para os padrões que vínhamos encontrando. Era até estranho não ter bambuzinhos nos enroscando constantemente. E é tão pisada que chega a ter umas erosões feias. O piso é bastante escorregadio, mas é possível ganhar velocidade e chegar cedo ao campinho.

Chegamos ao ponto final pensando que daria em alguma propriedade privada, com casa, e tudo mais. Mas era apenas um campinho mesmo, com um belo riacho cristalino nas proximidades. Havia um grupo lá que havia acabado de descer. Conversamos um pouco com eles, precisávamos de sal, nos deram sal e uma sobra de arroz com batata palha da janta. Comemos felizes pois não sabíamos quando iríamos chegar ao bairro de Pinheirinho, nem o que encontraríamos até lá.

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Aproveitamos o sol (que pelo jeito só faz aqui em baixo), e lavamos meias, cuecas e calcinhas. Improvisamos um varal ambulante na própria mochila e seguimos a pé pela estrada. Aliás, linda estrada, forradinha de araucárias ao redor, tantas quanto se vê na região de Urupema, em Santa Catarina.

Ao final da tarde passamos por um pequeno bairro, Sertão dos Martins. Não sabíamos de antemão, mas ali há um refúgio onde fomos verificar preço com os donos. Estávamos loucos por uma ducha quente. Mas o valor cobrado nos exigiria todo o dinheiro que tínhamos em mãos, e seríamos obrigados a no dia seguinte perder horas preciosas nos deslocando até o centro de Passa Quatro pra sacar mais. Mas para quem for mais prevenido de dinheiro que nós, fica a informação: refúgio Pé do Itaguaré, o casal de lá foi bem simpático.

Sem opção que não seguir, imaginamos que no bairro deveria ter alguma igreja, local que poucas vezes nos negaram ao longo de dois anos de viagem de bicicleta, e como ultima opção seguir até a represa. Restava saber se a hospitalidade religiosa se estenderia também a mochileiros. Encontramos a família responsável e após algum tempo de conversa e explicando nossa situação, nos cederam a área coberta de festas para armar a barraca. Também nos deixaram usar o banheiro, onde improvisamos o famoso banho de luva. Que ótimo que pudemos ficar pois a represa ainda estaria alguns km adiante e chegaríamos lá no escuro.

No dia seguinte teríamos que cumprir aproximadamente 14km ainda pela manhã, em direção ao bairro Pinheirinho onde resgataríamos uma caixa com alimentos enviados lá de Ourinhos, já preparados em porções pesadas e calculadas para 8 a 9 dias. Tudo isso para realizarmos a travessia da Serra Fina e a de Ruy Braga no Itatiaia em sequência.

Além da caixa ainda compraríamos alguns alimentos no mercadinho para complementar o pacote. Porém teríamos que chegar antes do meio dia por ser domingo. A previsão era de madrugar, mesmo sabendo que nosso corpo só queria era dormir o resto do dia todo.

Assim finalizamos nossa primeira travessia na Mantiqueira, mais duas estariam por vir. No próximo post o relato da Serra Fina, e na sequência a Ruy Braga dentro do Parque Nacional de Itatiaia. Para ler como foi nossa preparação para esta sequência de travessias, acesse este post.

Abaixo galeria com todas as fotos da travessia Marins e Itaguaré.

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Ana Vivian

Aprendeu ler, pedalar e viajar na infância. Através das palavras, dos pés ou da bicicleta sonha conhecer o que ainda não viu. Saiba mais ->

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  • Raphael Yamamoto

    Muito bom o relato de vocês! Ficamos felizes que conseguiram fazer a travessia!

    Muita montanha e alegria para todos nós!

    Raphael Cocô no Mato!